A participação do cinema brasileiro no 28º Festival Internacional de Cinema de Xangai superou todas as projeções iniciais. Fruto do Ano Cultural Brasil-China, celebrado em 2026 após acordo firmado pelos presidentes Lula e Xi Jinping, a Mostra Focus Brasil saiu de 18 sessões previstas para 52 exibições, enquanto a comitiva de empresas brasileiras cresceu de 16 para 22.
Ao todo, cerca de 90 pessoas, entre gestores, artistas e empresários, formaram a maior delegação já enviada pelo audiovisual brasileiro à Ásia. “Foi uma grande felicidade esse reconhecimento da produção audiovisual brasileira. É uma agenda de internacionalização do cinema brasileiro”, resume Paulo Feitosa, idealizador da mostra, fundador da Quintana Criativa e diretor do Instituto Iberoculturas, ao Conversa Bem Viver.
Para Feitosa, o dado mais relevante não foi apenas o aumento nas sessões, mas a resposta do público local. “Nossa audiência foi basicamente nula do público brasileiro. 95% do nosso público foi chinês”, relata. Segundo ele, a permanência da plateia para os debates após as sessões foi também surpreendente. “Quando a gente estava na exibição de um dos filmes, terminou o filme, montou-se ali o set para fazer o debate, a plateia não levantou. Ficamos até pensando se eles haviam entendido que o filme tinha terminado. Daí fui perguntar para uma produtora e ela confirmou que todos estavam ali para realmente participar do debate”, conta.
Ele destaca ainda que animações como “Amadeo e o Hipotético Mundo Novo” geraram forte identificação, e que produções como “Feito Pipa” emocionaram plateias inteiras, num sinal de que, mesmo entre culturas tão distintas, “há um processo de sensibilização nas leituras humanas, nas leituras geográficas”. “O Amadeo foi um dos filmes que mais teve audiência e reverberou sobre eles, sobre esses processos de descoberta desse Brasil”, destaca.
Paulo Feitosa aponta que o objetivo agora é transformar o interesse pontual em presença contínua. “Nós temos ali uma possível audiência interessada na cultura brasileira. Mas não existe audiência sem rotina, precisa ter frequência, precisa que a gente esteja ali com permanência nessas salas”, defende.
Entre as próximas ações estão uma mostra itinerante por dez cidades chinesas até o fim do ano e um acordo de coprodução Brasil-China em tramitação no Senado. Na via inversa, ele adianta que grandes grupos de mídia chineses já negociam acordos com empresas brasileiras de cinema, TV e streaming, o que deve ampliar a presença de produções chinesas nas telas do Brasil.

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