ENTREVISTA

‘Quebramos o silêncio sobre o racismo, mas ele ainda está presente’, diz antropólogo Alex Ratts

Professor analisa avanços e contradições do Novembro Negro em 2025 e afirma que 'território é sempre espaço de disputa'

Dia da Consciência Negra é celebrado nesta quinta-feira (20) como feriado nacional por segundo ano
Dia da Consciência Negra é celebrado nesta quinta-feira (20) como feriado nacional por segundo ano | Crédito: Fernando Frazão/ Agência Brasil

O antropólogo, geógrafo e militante Alex Ratts acredita que as últimas quatro décadas marcaram uma virada no debate racial brasileiro, iniciada ainda nos anos 1980 com a redemocratização e a consolidação do movimento negro contemporâneo. “Nos últimos 40 anos, quebramos o silêncio sobre o racismo, essa ideia de um país de três raças harmônicas, mas ele ainda está presente”, avaliou em conversa no BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato. Nesta quinta-feira (20), o Dia da Consciência Negra é celebrado como feriado nacional pelo segundo ano.

Ratts cita o Censo de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e episódios recentes de violência policial, como a chacina nos complexos do Rio de Janeiro no fim de outubro, para mostrar a permanência das “desigualdades raciais institucionais e estruturais”. “Muitas coisas se tornaram mais explícitas e se expandiram. Há um genocídio negro nesse país”, denuncia, destacando que a violência atinge “principalmente homens negros, mas também pessoas negras, mulheres, pessoas negras LGBT+.”

Por isso, o pesquisador defende que o 20 de novembro não pode ser esvaziado nem reduzido a ações simbólicas sem enfrentamento estrutural. “É uma data para celebrar e para protestar”, diz. Para ele, práticas de inclusão que não modificam relações de poder “às vezes parece que é representatividade, e é figuração.”

Professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), Ratts observa que a desigualdade racial continua organizada em hierarquias claras nas instituições brasileiras. “A gestão das universidades é branca, é masculina”, afirma. “É um país multiétnico, multirracial, multicultural, mas, quando pensamos nos estratos que decidem, a supremacia branca se revela. Quando falo de racismo, prefiro falar supremacia branca para que saibamos dessa alteridade desigual, perversa que existe”, acrescenta.

Ao comentar o tema do Novembro Negro de 2025 escolhido pelo Ministério da Igualdade Racial, “justiça climática, território e dignidade”, Ratts explica que discutir racismo no Brasil requer olhar para os espaços tanto urbano quanto rural. “Território não é um espaço afetivo, território é um espaço de disputa”, aponta, mencionando o papel de quilombos, favelas e periferias na resistência negra.

Sobre as novas gerações, o professor destaca que a ampliação da presença negra e indígena na universidade tem um impacto direto no enfrentamento ao racismo. “A diferença é a corporalidade de estudantes, indicando a religião, a racialidade, as vivências de gênero. A diferença está em toda parte”, fala. Mas ressalta que esse processo “é sempre movimento, é sempre muita disputa.”

Para ouvir e assistir

BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.

Editado por: Lucas Estanislau

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