O cinema brasileiro ajuda a consolidar a ideia de que apenas a elite intelectual branca resistiu à ditadura civil-militar, na avaliação do pesquisador Pablo Pamplona. Em conversa com o BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, ele falou sobre sobre a falta de representatividade de camponeses, indígenas, trabalhadores e povos negros nas produções sobre o regime.
Pamplona afirma que mesmo O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, aposta brasileira ao Oscar de 2026, evidencia o contraste ao trazer cultura popular como parte da narrativa histórica. “É um filme que se diferencia porque ele coloca a cultura popular em destaque. E isso é uma coisa que a gente vê pouco no cinema brasileiro, em particular no cinema sobre a ditadura”, disse. “Não dava para ser mais sobre a ditadura. Aparece toda a atmosfera do filme de violência e terror mesmo”, analisa.
O pesquisador mapeou 110 filmes que tratam do regime, dos quais analisou em profundidade 40 produções de ficção. O levantamento revelou que, apesar da grande quantidade de títulos, há pouquíssimos que retratam lutas sociais fora do eixo da classe média urbana. “Tem muita coisa sobre luta armada, muita coisa sobre criminosos, muita coisa sobre artistas. Só que tem pouca produção ainda sobre lutas populares. Lutas sindicais, indígenas, comunitárias periféricas”, indica.
Entre os filmes que rompem parcialmente esse padrão, Pamplona cita também Eles não usam black-tie (1981), de Gianfrancesco Guarnieri e Leon Hirszman; O homem que virou suco (1981), de João Batista de Andrade; e O outro lado do paraíso (2017), de Walcyr Carrasco e Mauro Mendonça Filho. Mesmo assim, ele lembra que os dois primeiros antecedem a redemocratização e hoje são pouco conhecidos.
Para o pesquisador, o apagamento se relaciona ao racismo estrutural e à forma como a história brasileira foi narrada. “É um motivo muito simples: racismo estrutural”, aponta. Ele ressalta que essa ausência não se limita ao cinema. “Algumas vidas são dignas de serem relembradas e outras parece que não. Algumas vidas são dignas de reparação histórica e outras parece que não”, critica.
Pamplona rebate ainda a reprodução da ideia de que “o povo” foi indiferente à ditadura, enquanto a classe média aparece como protagonista da resistência. “Tiveram diferentes povos, diferentes grupos que se mobilizaram. É muito curioso que lembramos muito da classe média se mobilizando contra a ditadura e não lembramos do povo pobre se mobilizando contra a ditadura”, declarou.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.
