luta contra a aids

‘Toda pessoa com vida sexual deve se testar’: infectologista alerta para desigualdades no combate ao HIV

Segundo médico, diagnóstico, prevenção e tratamento avançaram no Brasil, mas ainda enfrentam barreiras e desinformação

Dia Mundial de Combate à Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids) é celebrado nesta segunda-feira (1º)
Dia Mundial de Combate à Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids) é celebrado nesta segunda-feira (1º) | Crédito: Vinicius Marinho/ Fiocruz

O infectologista Jameson Pinheiro reforça que o combate ao Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) no Brasil teve muitos avanços, mas ainda enfrenta desigualdades que mantêm populações sob um risco maior. “Falar sobre HIV, sobre prevenção, é importante porque fala-se também sobre questões sociais”, afirma, no Dia Mundial de Combate à Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids), celebrado nesta segunda-feira (1º).

Ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, ele diz que, apesar de a terapia antirretroviral impedir a evolução da infecção para Aids, o país ainda registra mortes por dificuldades de acesso, informação e testagem. “Infelizmente ainda vemos pessoas padecendo por conta da Aids, morrendo por conta da infecção pelo HIV”, destaca.

As novas infecções continuam concentradas entre pessoas racializadas, mulheres trans, travestis, profissionais do sexo e populações em situação de rua ou uso de substâncias ilícitas. Pinheiro destaca que esses grupos enfrentam barreiras que vão “desde impaciência no atendimento até fluxos de unidades que não funcionam para quem precisa ficar pouco tempo”. Ele defende que as estratégias devem ser múltiplas. “É difícil falarmos de uma estratégia que só vai surtir efeito para uma resposta à epidemia”, indica.

O infectologista também alerta para o risco entre pessoas fora das populações-chave, especialmente mulheres cis em relações estáveis. “Qualquer pessoa que já tenha transado uma vez na vida está sob risco de se infectar pelo HIV”, reforça.

O médico explica que a falta de percepção de risco leva a diagnósticos tardios. “Não é incomum encontrar mulheres cisgêneras adoecidas pela Aids em relações fixas”, aponta. Por isso, recomenda que “pessoas sexualmente ativas tenham uma testagem a cada seis meses”.

Pinheiro aponta ainda diferenças profundas no acesso ao tratamento pelo país. Em São Paulo, a política do same day treatment, ou seja, iniciar a terapia já no dia do diagnóstico, é vista pelo infectologista como consolidada. “Seria nosso sonho que o Brasil fosse uma grande São Paulo”, afirma. Mas ele lembra que em regiões do Norte “demora-se dois, três meses para agendar uma consulta”, atrasos que podem somar até seis meses antes do início da medicação. “É difícil falar que no mesmo país uma pessoa trata no mesmo dia e outra espera seis meses”, lamenta.

A prevenção combinada, que reúne preservativos, Profilaxia Pré-Exposição (Prep), Profilaxia Pós-Exposição (PEP), testagem regular, tratamento como prevenção, vacinação e redução de danos, segue sendo o eixo central da resposta à epidemia. Mas, na avaliação do médico, preconceitos dentro e fora dos serviços de saúde ainda dificultam o uso dessas ferramentas. “Vamos ouvindo histórias que vêm até de profissionais mal informados, difundindo coisas que não são verdade”, revela, citando mitos sobre álcool, hormonioterapia e medicamentos de prevenção.

Apesar dos avanços, o especialista avalia que a meta 90-90-90 da Organização das Nações Unidas (ONU), que consiste em 90% das pessoas vivendo com HIV saberem seu estado sorológico, 90% dessas pessoas receberem tratamento antirretroviral e 90% do grupo em tratamento atingirem a supressão da carga viral, não será cumprida até 2030. O objetivo final é tornar a epidemia de HIV rara daqui a cinco anos.

“A resposta nunca é só biomédica; sempre é social”, afirma, citando pobreza, violência doméstica, estigma e discriminação como fatores que impedem adesão e continuidade do tratamento. Ainda assim, Jameson mantém o otimismo. “Se conseguimos sair do momento em que diariamente pessoas próximas morriam sem entender o que estava acontecendo, podemos usar hoje todos os avanços a nosso favor”, pontua.

Para ele, o futuro depende de mobilização contínua. “Se pessoas têm 30 ou 40 anos de vida abreviados por falta de acesso à saúde, enquanto humanidade, fracassamos” conclui.

Para ouvir e assistir

BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato o programa é veiculado às 19h.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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