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Divergências ideológicas dificultam integração latino-americana, aponta especialista

Para Pedro Silva Barros, a resposta dos países do continente ao sequestro de Nicolás Maduro foi 'fragmentada'

Colombianos protestam contra Donald Trump em Bogotá
Colombianos protestam contra Donald Trump em Bogotá | Crédito: JAIME SALDARRIAGA / AFP

Diante do sequestro do líder venezuelano Nicolás Maduro pelo governo de Donald Trump, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, propôs a união de países latino-americanos para recomposição da Grã-Colômbia, fundada por Simón Bolívar no século 19.

A proposta de Petro é realizar votações entre os habitantes de cada país envolvido (além da própria Colômbia e da Venezuela, o projeto incluiria Equador, Panamá e parte da Guiana) para formação de uma confederação de nações autônomas. A situação, porém, não parece próxima de sair do papel, diante das divergências ideológicas entre os líderes dos países do continente.

No BdF Entrevista desta quarta-feira (14), o jornalista Lucas Estanislau recebeu o pesquisador Pedro Silva Barros, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Barros é um dos maiores especialistas em integração latino-americana na atualidade, e viveu em Caracas entre 2010 e 2014, quando dirigiu a missão do Ipea na Venezuela e se disse “perplexo” com o ataque de Trump em 3 de janeiro.

“Eu senti como um ataque à América do Sul. Um ataque que, claro, tem muitos fatores. Tem fatores internos dos Estados Unidos; tem uma tensão geopolítica muito maior e uma disputa por áreas de influência; tem também a situação já profunda de debilitamento da economia venezuelana, que é uma crise ampla, econômica, social, política e também migratória”, apontou.

O especialista lamentou o que chamou de “resposta fragmentada”. Para ele, as manifestações de divergências ideológicas deixam a região vulnerável às ações das grandes potências internacionais e ameaçam a América do Sul como uma zona de paz.

“É mais um capítulo de um mundo instável, de uma potência que está tentando reviver uma ordem internacional que já não existe mais, dos Estados Unidos como hegemônico, um mundo unipolar”, apontou. “A gente tem que ter paciência, analisar esse fenômeno com calma, encontrar as razões estruturais e conjunturais para enfrentar esse grande desafio para a integração regional”.

Barros lembrou que as relações comerciais entre o Brasil e a Venezuela diminuíram nos últimos anos, assim como também houve um distanciamento diplomático. Entretanto, os dois países seguem compartilhando uma fronteira de mais de 2 mil quilômetros e há interesse brasileiro no país vizinho.

“Eu acho correta, a reação do nosso governo [ao ataque de Trump à Venezuela], no sentido de condenar os ataques e apresentar a situação como de fato ela foi: o sequestro de um presidente e um ataque a uma nação soberana que deve ser condenado. Mas a reação coordenada com os países vizinhos é muito difícil no atual momento”, lamentou.

Para o especialista, essa dificuldade de integração é um dos principais obstáculos para que avancem propostas como a de Gustavo Petro, citada no início deste texto.

“É importante que o presidente Petro tenha colocado essa questão agora, mas isso aí já no finzinho do seu mandato. No momento de ataque, é importante a gente ser criativo”, afirmou. “A gente não tem que ser uma área de oposição aos Estados Unidos, e, sim, deve buscar agendas positivas que respeitem a nossa soberania”, completou.

Para ouvir e assistir

BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato, o programa é veiculado às 19h.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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