Colaboração Digital

Há 25 anos, Wikipedia é prática colaborativa que resiste às big techs, mas pressão continuará, aponta especialista

Professor da UFABC Sergio Amadeu explica como ela virou referência global e, ao mesmo tempo, alvo prioritário dos que contestam a ciência e a história

Wikipedia Completa 25 Anos
Wikipedia Completa 25 Anos | Crédito: EWilson (WMF)

Baseada em software livre e sustentada por uma comunidade global de editores voluntários, a enciclopédia digital Wikipedia celebra seu jubileu de prata como antítese do modelo de negócios das grandes plataformas e como fonte crucial até mesmo para os sistemas de IA.

Em janeiro de 2001, a internet conheceu um novo site com uma proposta aparentemente singela: uma enciclopédia livre que qualquer pessoa poderia editar. Vinte e cinco anos depois, a Wikipedia se consolidou como um dos fenômenos mais duradouros e bem-sucedidos da rede. São mais de 65 milhões de artigos em mais de 300 idiomas, um feito construído diariamente pelo trabalho de cerca de 250 mil editores voluntários em todo o mundo. Em um cenário tecnológico dominado por bilionários como Elon Musk e Mark Zuckerberg, a Wikipedia resiste como uma instituição sem fins lucrativos, sem anúncios e que não coleta dados de seus usuários, sendo mantida por doações.

Para o sociólogo e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) Sérgio Amadeu, a Wikipedia é um resquício vivo de uma internet mais utópica. “Ela vem com uma ideia anterior. A própria criação dela está baseada nos movimentos de software aberto e não proprietário”, explica. Segundo ele, a plataforma nasceu impregnada do “espírito da colaboração” que marcou o início da web, um contraste gritante com a lógica das atuais big techs, que cultuam, em suas palavras, a “espetacularização” e a “economia da atenção”.

A trajetória da enciclopédia não foi linear. Nos primeiros anos, foi alvo de ceticismo por parte de acadêmicos e instituições de ensino, que questionavam a confiabilidade de um conteúdo escrito “por qualquer um”. A virada na percepção pública, avalia Amadeu, veio com o tempo e a demonstração prática da eficácia de seu modelo.

“As pessoas viram que ela tem erros, como tudo. E os erros são consertados, são reparados com muito maior velocidade”, afirma. Pesquisas acadêmicas passaram a corroborar que a precisão dos verbetes era equiparável ou superior à de enciclopédias tradicionais. Um ponto crucial, ressalta o professor, é compreender a natureza do projeto: “A Wikipedia é uma enciclopédia. Ela trabalha com um conhecimento que é validado pela ciência, pelo historiador. Ela é uma obra de referência, não é a fonte original”.

Editores voluntários dedicam tempo a criar, ampliar e checar verbetes, seguindo regras comunitárias e princípios de verificabilidade. Os mais ativos podem ganhar funções de revisão. Todo o processo é público: o histórico de edições e as discussões sobre cada página são abertos, um pilar de transparência que é central para a credibilidade do projeto.

Alvo da extrema direita: um ataque ao conhecimento factual

Recentemente, a Wikipédia tornou-se alvo de ataques sistemáticos de figuras como Elon Musk, que a acusa de viés “esquerdista” e prometeu criar uma versão alternativa, a “Grokpedia”. Para Amadeu, a crítica vai muito além de uma disputa ideológica superficial.

“É um ataque à ciência, ao conhecimento”, afirma. “Eles são pré-iluministas. O fato tem que se tornar irrelevante para validar seus valores reacionários”. O professor vincula esses ataques a um movimento mais amplo de extrema direita que busca minar instituições baseadas em evidências e métodos racionais. “Eles atacam a educação, porque a educação é fortemente baseada na ciência. Querem superar aquilo que o iluminismo tem de bom e trazer de volta o que ele superou de ruim”.

Paradoxalmente, a Wikipédia tornou-se insumo fundamental para o desenvolvimento da inteligência artificial generativa. “Todos os grandes modelos de linguagem, como os da OpenAI e do Google, utilizaram a Wikipedia em seu treinamento”, revela Amadeu. A própria fundação Wikimedia fez acordos para licenciar seu banco de dados para essas empresas, gerando receita. Internamente, a comunidade também usa ferramentas de IA para tarefas como tradução.

O futuro, porém, reserva desafios. “A Wikipédia vai cada vez mais ser pressionada pelas big techs para mudar seus modos de operar”, alerta o sociólogo. A pressão comercial e o avanço de narrativas anticiências representam riscos ao modelo colaborativo.

Aos 25 anos, a Wikipedia permanece não apenas como um repositório de conhecimento, mas como um testemunho de que uma internet baseada em commons, colaboração e solidariedade não só é possível, como pode ser extraordinariamente resiliente.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. 

Editado por: Luís Indriunas

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