Com uma música que une festa e protesto, Bad Bunny conseguiu atrair os olhos do mundo para Porto Rico, considerada por muitos a colônia mais antiga do planeta. A ilha caribenha, com cerca de 3,2 milhões de habitantes, tem uma história peculiar. Em 1898, deixou de ser colônia espanhola e passou para as mãos dos Estados Unidos. Hoje, Porto Rico é um território estadunidense, ou seja, não é nem um país independente, nem um estado como Califórnia ou Texas.
Essa condição gera diversas limitações em termos de autonomia e direitos. Por exemplo, todo porto-riquenho tem cidadania estadunidense, mas não pode votar nas eleições presidenciais. Para entender o que significa, na prática, esse status e por que a ilha não se torna um país independente, o BdF Entrevista recebeu André Araújo, professor de Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).
Araújo explica que os Estados Unidos têm, além dos 50 estados e do Distrito de Colúmbia, territórios chamados de “não incorporados”. Porto Rico é o mais proeminente deles. “Significa que faz parte dos Estados Unidos, mas não é um território plenamente autônomo, nem com todos os direitos políticos reconhecidos. Não é apenas uma questão de nomenclatura, vai afetar os direitos políticos que os cidadãos têm”.
Apesar de serem reconhecidos como cidadãos estadunidenses, os porto-riquenhos não podem votar para presidente nem eleger representantes com direito a voto no Congresso nacional. “Os votos são limitados ao governo regional. Com isso, a autonomia é muito mais limitada. Eles não conseguem demandar os mesmos recursos, negociar questões políticas junto à esfera federal como os demais estados”, detalha.
O professor contextualiza a história da ilha, ocupada pela Espanha desde o final do século 15. No século 19, enquanto as colônias espanholas na América conquistavam sua independência, Cuba e Porto Rico permaneciam como os últimos redutos do colonialismo espanhol no continente.
Os Estados Unidos, com a Doutrina Monroe (“América para os americanos”) e interesses estratégicos no Caribe – especialmente a construção do Canal do Panamá –, encontraram um pretexto para intervir. O navio estadunindense Maine explodiu em Havana, e os EUA culparam a Espanha, iniciando a Guerra Hispano-Americana.
O resultado foi diferente para as duas ilhas. “Cuba se torna independente, pelo menos oficialmente, mas ainda vai manter uma grande vinculação política com os Estados Unidos. Por outro lado, Porto Rico não adquire status de país independente, vai se tornar um estado subordinado aos Estados Unidos, sem os plenos direitos”, explica Araújo. “Uma certa troca de metrópole colonial: passa da Espanha para os Estados Unidos.”
Economia dependente e turismo predatório: a luta pela independência
A economia porto-riquenha foi moldada pela colonização. Durante séculos, baseou-se na produção de gêneros tropicais como açúcar, café e frutas para exportação – um modelo que gerou dependência e baixo valor agregado. A indústria começou a se desenvolver no século 20 com incentivos fiscais, mas ainda focada em produtos básicos como roupas e calçados.
Mais recentemente, o turismo passou a ser um motor econômico, mas com efeitos controversos. “Isso vai gerando dificuldade de os cidadãos acessarem as zonas de praia, as zonas de cidades históricas. Conforme os preços aumentam, os locais não vão ter o mesmo acesso à própria região em que vivem”, alerta Araújo.
Os movimentos independentistas em Porto Rico são praticamente contínuos desde a troca de metrópole. Nos anos 1930, o Partido Nacionalista, liderado por Pedro Albizu Campos, organizou uma luta mais robusta – e sofreu forte repressão dos Estados Unidos.
Araújo situa essa repressão no contexto mais amplo: os EUA, prestes a entrar na Segunda Guerra Mundial e depois na Guerra Fria, não tolerariam uma “nova Cuba” no Caribe. “Perder uma posição territorial estratégica no Caribe quando havia outras potências interessadas em ter proximidade territorial com os EUA” era inaceitável para Washington.
Essa repressão ajuda a explicar por que a independência nunca foi plenamente conquistada, e por que, hoje, é uma posição minoritária entre os porto-riquenhos. Plebiscitos não vinculantes mostram que a maioria prefere a continuidade como território associado ou até a incorporação como o 51º estado – opção que também divide opiniões.
Se Porto Rico se tornasse um estado pleno, ganharia direitos políticos: votar para presidente, eleger senadores e representantes com voto no Congresso. Isso também significaria mais recursos federais para infraestrutura e políticas públicas – algo crucial diante da vulnerabilidade da ilha a furacões e mudanças climáticas.
Mas há desvantagens significativas. “Poderia haver um processo de assimilação cultural que apagaria a história, a cultura da sociedade porto-riquenha, não apenas a questão da língua, mas diversos hábitos, tradições”, pondera Araújo. O Havaí é citado como exemplo: sua língua e cultura próprias foram gradualmente assimilado aos Estados Unidos.
Bad Bunny, aliás, tem uma música em que alerta: “Não deixe que aconteça com Porto Rico o que aconteceu com o Havaí”.
Bad Bunny e a resistência cultural
Nesse cenário, a arte de Bad Bunny emerge como uma poderosa ferramenta de resistência. O artista, que já incluiu imagens de Pedro Albizu Campos no clipe de “El Apagón” e usa a bandeira de Porto Rico com um tom específico de azul para resgatar a história independentista, coloca o debate político em pauta.
“A arte da música consegue trazer um debate que nem sempre é colocado de forma clara, ou que nem toda a sociedade tem acesso”, avalia Araújo. Cantar em espanhol, num contexto de pressão contra imigrantes nos EUA, também é um ato político. “Isso vai chamando a atenção sobre como comunidades porto-riquenhas ou de outros países latino-americanos podem manter a língua do seu país originário.”
A reação negativa de setores conservadores dos EUA – com vídeos de republicanos reclamando que “não entendem nada do que ele fala” – só reforça a polarização e a potência política da música.
Para Araújo, a situação de Porto Rico se conecta a outras questões coloniais contemporâneas, como a Palestina, as Malvinas e o Saara Ocidental. “Isso demonstra que algumas potências ainda veem a possibilidade de manter territórios fora do seu país por interesses econômicos, militares, estratégicos, mas que isso desconsidera toda a população local.”
“População que possui idioma, cultura, hábitos, história própria, e que vai sofrendo o impacto da colonização todos os dias”, completa.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
