Desde o início do ano, o governo interino da Síria, presidido pelo ex-jihadista Ahmed al-Sharaa, tem avançado sobre territórios administrados pelos curdos na região nordeste do país. Apesar de um cessar-fogo firmado entre as partes, o futuro da experiência política construída em Rojava — uma região autônoma baseada em democracia direta, ecologia, socialismo e feminismo — é incerto.
Para analisar esse cenário, o BdF Entrevista conversou a jornalista Giovanna Vial, especialista em direitos humanos, que esteve no Curdistão sírio em junho de 2025 e acompanha de perto os desdobramentos na região.
Após o cessar-fogo entre o governo interino sírio e os curdos, criou-se um problema: quando o governo começou a atacar as regiões curdas em janeiro, muitas das prisões que continham pessoas associadas ao Estado Islâmico foram abertas. Houve uma espécie de caos generalizado.
Vial explica que os curdos agora lidam com um segundo problema que é a insegurança causada pela soltura desses membros do Estado Islâmico, que têm a possibilidade de se reorganizar e atacar novamente a região.
“A Síria, apesar de ser de maioria muçulmana sunita, tem diversas minorias: curdos, xiitas, drusos, alauítas. Quando uma minoria estava no poder com a família Assad, e agora quem assume é um grupo sunita radical, as minorias ficam vulneráveis”, traça o paralelo político.
Ela lembra que, em 2025, houve massacres contra alauítas e drusos. “Os curdos tinham medo de serem os próximos. Quando estive no Curdistão sírio em junho, a chefe da unidade de proteção feminina me disse: ‘Temos medo de sermos os próximos’.”
Antes de se tornar presidente da Síria, Ahmed Al-Sharaa participou da Al-Qaeda e do Estado Islâmico. “Considerado um cara radical, a ponto de ter recompensa por sua cabeça nos EUA. Agora passa por um rebranding [termo de marketing para redefinição da marca] para ser aceito pelo Ocidente — usa terno, senta à mesa com líderes ocidentais. Mas, ao mesmo tempo, massacra minorias.”
“A líder curda Rojda Tafrin me disse que era muito contraditório ter no poder um homem que já foi do Estado Islâmico. As mulheres curdas tiveram papel fundamental na derrota do ISIS [Estado Islâmico], e agora temem que esse papel não seja respeitado”, aponta.
Vial critica duramente a postura estadunidense chamada de um modus operandi, no qual os EUA atuam em favor dos curdos quando convém, principalmente os iraquianos. “[Estados Unidos] Foram chave para derrotar o Estado Islâmico, mas Trump retirou as tropas logo depois, deixando os curdos expostos a ataques turcos”, acrescenta.
Para a jornalista, o novo governo sírio é mais um fantoche dos interesses ocidentais. “Esse governo nada mais é do que mais um dos fantoches dos Estados Unidos e do Ocidente dentro desse quebra-cabeça do Oriente Médio.”
“Ele é o resultado de interferências estrangeiras, que antes viam Al-Sharaa como terrorista e agora o legitimam porque articula interesses dos EUA na região”, acrescenta.
Outro ponto ponderado por Vial é a “manipulação das animosidades” que causa das acusações de discriminação étnica entre árabes e curdos e que existiam sim. “O que aconteceu foi que o governo sírio começou a manipular os ânimos da população árabe em cidades como Der Azor e Raqqa, criando a narrativa de que eles seriam ‘libertados’ da ‘opressão curda’.”
Ela reconhece as complexidades da aliança passada com os EUA. “Grande parte da esquerda tem dificuldade de entender o que é possível no mundo real. A aliança com os EUA foi a única forma de resistir ao Estado Islâmico. O problema não são os curdos receberem apoio externo, mas os EUA manipularem as dinâmicas regionais ao seu bel-prazer.”
A experiência de Vial no Curdistão sírio é descrito como “outro país”, mesmo sendo uma província autônoma. Com presença de fronteira, autorização própria, chip de celular diferente. “E uma diferença gritante: a sociedade é secularizada, as mulheres estão em todas as posições de poder, algo que não se vê no resto da Síria.”
“Em todas as posições de comando, há um homem e uma mulher. É 50/50. Isso é institucionalizado. A sociedade é estratificada com base na reversão dos valores de gênero”, destaca.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
