Ele é considerado por muitos o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Sua obra é estudada nas escolas, debatida nas universidades e admirada no mundo inteiro. Mas, por mais de um século, um aspecto fundamental de sua vida foi sistematicamente apagado: Machado de Assis era negro. E mais do que um detalhe biográfico, sua condição de homem negro em um Brasil escravocrata moldou sua escrita, sua visão de mundo e a ironia afiada que se tornou sua marca registrada.
Essa é a tese central de Machado, o Filho do Inverno, nova biografia do escritor assinada pelo jornalista e pesquisador C.S. Soares. Fruto de mais de 15 anos de pesquisa, a obra — primeira grande biografia de Machado escrita por um autor negro — busca devolver ao país um Machado “por inteiro, complexo, denso e atravessado pela condição de homem negro”.
Ao BdF Entrevista, Soares falou sobre os desafios de reconstruir essa história, as lacunas nos arquivos, a relação entre a obra e a experiência do escritor e a importância de contar histórias de personalidades negras no Brasil.
Soares começa explicando as dificuldades de pesquisar a ancestralidade de Machado. “O apagamento já começa quando você, até hoje, tem dificuldade de entender que Machado era negro. Na própria época, para ser um homem de cor com alguma visibilidade na sociedade escravocrata do século 19, você acabava tendo que apagar certas características da sua vida para poder conviver.”
Ele detalha a origem do escritor. “Machado tinha mãe açoriana e pai negro, filho de ex-escravizados. Eu começo o livro falando dos avós de Machado, até da bisavó, que foi escravizada. Dois bisavós do Machado eram padres — provavelmente, as escravizadas tiveram um relacionamento abusivo com eles. Essas informações você não vai encontrar em arquivos.”
O biógrafo lembra que, diferentemente de ascendências europeias, a história de negros escravizados é marcada pelo silêncio. “Nós temos no Brasil zero autobiografias de escravos. Muita informação da época foi queimada no episódio de Rui Barbosa. Os arquivos são montados a partir de uma visão de mundo que não é a dos negros.”
Para Soares, a grandeza de Machado está diretamente ligada à sua condição de homem negro. “Machado sempre foi considerado pelas biografias anteriores uma personalidade da elite branca. No atestado de óbito dele, colocaram cor branca — as personalidades negras que ascendiam socialmente se tornavam brancas.”
“O Machado foi acusado durante décadas de ser um absenteísta, de não se preocupar com a causa negra. Isso está totalmente errado. A crítica que ele faz na obra, usando ironia e sarcasmo, é a mesma ferramenta usada por outros escritores negros em outros países que passaram pelo mesmo problema”, denuncia.
Soares explica como Machado usava a literatura para denunciar as contradições da sociedade. “Machado sabia que tinha que falar, mas não podia ser direto. A ironia, a dissimulação, a fala oblíqua — ele usava isso para implodir a coisa por dentro. O principal veículo onde publicava seus contos era o jornal para mulheres. Ele ia atingindo um público interno de forma inteligente.”
O biógrafo lembra que Machado também foi humorista. “Ele usou o humor de uma forma muito inteligente para atacar. Quem lia nem se achava atacado, porque não conseguia captar. Isso ele usou na obra toda.”
Sobre o enigma de Capitu, Soares tem uma leitura própria. “A obra não é sobre se Capitu traiu ou não. É sobre a dúvida, sobre a credibilidade que podemos dar ao narrador. Machado brinca de uma forma muito à frente do seu tempo.”
Para Soares, a obra de Machado continua atual porque os problemas que ele denunciava persistem. “Eu moro no Rio de Janeiro, e a experiência de vida dos negros no Brasil está muito parecida com o que ele viu e relatou. Em cada capítulo do meu livro, trato praticamente de um problema que ainda existe: feminicídio, corrupção, como a sociedade vê o negro.”
Ele defende que Machado deveria ser lido para além do vestibular. “Quanto mais você lê Machado, mais você aprende sobre o Rio de Janeiro, sobre o Brasil. As personagens femininas dele são autônomas, encaram o patriarcado de frente — algo totalmente fora da curva para a época.”
A importância de biografar negros
Soares anuncia uma parceria com o Brasil de Fato para uma série de perfis biográficos de personalidades negras. “Se você não conta sua história, você não vai ser lembrado. Quando os estudos biográficos não contam a história dos negros, os negros não vão ser lembrados.”
A série vai abordar figuras como Tia Ciata, Heitor dos Prazeres, Nilo Peçanha, André Rebouças, Juliano Moreira, entre outros. “São vidas realmente importantes para que tenhamos referência. A população negra perde referência quando não tem essas histórias contadas.”
“Machado, como um autor, não foi um autor, apesar de negro, ele foi um autor porque era negro. O autor que ele foi, ele foi porque era negro. A experiência de ser negro no Brasil moldou tudo o que ele foi. E a prova disso é que, 120 anos depois, sua obra continua nos desafiando, nos provocando e nos ensinando”, conclui.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
