A menos de oito meses das eleições, o cenário presidencial se desenha com uma disputa acirrada entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), que aparece tecnicamente empatado com o petista no segundo turno, ambos com 41% das intenções de voto segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada em 11 de março. O resultado surpreendeu parte da esquerda, que imaginava que a escolha do filho mais velho de Jair Bolsonaro como herdeiro político do bolsonarismo resultaria em um candidato mais frágil do que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
A cientista política Priscila Lapa considera que a avaliação de que Flávio seria um candidato fraco foi “precipitada”. Ela lembra que, no final de 2025, o bolsonarismo atravessava um momento de revés, com a prisão de Jair Bolsonaro e negativas do STF aos pedidos da defesa. “Porém, a agenda bolsonarista não deixou de existir. Bolsonaro persistia no centro das atenções do eleitor bolsonarista, tanto que agora se reflete uma transferência de voto muito imediata de Jair para Flávio”, aponta no BdF Entrevista.
A pesquisadora destaca que a corrida eleitoral ainda não começou de fato. “A gente ainda tem a janela partidária acontecendo, com um peso importante na formação de alianças. Mas Flávio começa a se consolidar como um candidato competitivo.”
Flávio justificou a escolha de Tarcísio como candidato ao governo de São Paulo — em vez de disputar a presidência — pela necessidade de ter um palanque forte no estado. Lapa concorda que a existência de palanques estaduais é um fator decisivo. “A gente ficou com a ilusão no Brasil de que as eleições se definem apenas por polarizações ideológicas. Claro que esse é o grande orientador, mas outras questões entram em cena. O palanque estadual direciona recursos, capta a atenção de lideranças locais, reforça a candidatura.”
Para um reduto como São Paulo, essencial para vencer uma eleição presidencial, a presença de um governador bolsonarista faz diferença. “A eleição vai ser apertada, não vai ter vida fácil nem para candidatos de esquerda, nem para candidatos de direita.”
Sobre o comportamento do Centrão, Lapa aponta que a relação do governo Lula com esses partidos foi diferente nos dois primeiros mandatos. “O Centrão foi um calo no governo Lula 3.” Ela explica que a atratividade de cargos já não faz o mesmo efeito de antes, devido ao crescimento do poder das emendas parlamentares. “O legislativo adentrou muito mais fortemente na questão de ter acesso a recursos. As famosas emendas Pix, de liquidação imediata, fazem muita diferença para um legislador.”
Lula se elegeu sem maioria no Congresso, e a dificuldade de formar uma base sólida se manteve. “O Centrão não fechou com o Lula, mas também não rompeu. A gente vive um momento de formação de chapas estaduais que vão implicar no comportamento dos partidos em âmbito nacional. Uma parte do Centrão vai subir no palanque de Flávio Bolsonaro.”
Lapa analisa o movimento do PSD, que lançou três possíveis presidenciáveis, Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Júnior, mas avalia que nenhum deles tem viabilidade para ir ao segundo turno. “O PSD fez o dever de casa de ir para os estados, ampliar bases partidárias. É um partido fiel da balança, mas que apresenta certa hostilidade a Lula.”
Para ela, lançar um candidato próprio, ainda que sem chances reais, é uma estratégia de demarcação de território. “Serve para barganhar espaços num segundo turno e ampliar a bancada no Legislativo. O que interessa para um partido é a quantidade de assentos que ele faz, porque isso é a medida de recursos de fundo partidário, fundo eleitoral, distribuição de recursos políticos.”
Flávio tem tentado se vender como um “Bolsonaro moderado”, usando até linguagem neutra em postagens e negociando uma vice mulher, possivelmente a senadora Tereza Cristina. Lapa considera a estratégia “arriscada, mas é uma estratégia de partida”.
“Existe um sentimento de cansaço, de fadiga do material político, devido à polarização persistente. Uma parte das pessoas não se conectou ao processo eleitoral porque diz: ‘Vai ser Lula e Bolsonaro de novo’. Flávio tem a vantagem de poder navegar na questão da idade, se apresentar como renovação”, destaca.
No entanto, a cientista política alerta que, quando a campanha começar de fato, as emoções prevalecem. “O eleitor é muito mais ativado pela conexão emocional do que pela escolha racional. O bolsonarismo vai voltar com tudo, com tom revanchista, representando aqueles que se sentem injustiçados pelos processos pós-8 de janeiro e indignados com o STF.”
Flávio tem feito acenos ao mercado, defendendo ajuste fiscal, corte de impostos e ambiente propício a investimentos. Lapa reconhece que isso tem peso para uma parcela do eleitorado atenta a questões econômicas. “A economia continua sendo uma variável muito importante. O eleitor responsabiliza o presidente pelo seu bem-estar econômico.”
Ela lembra que o cenário externo de guerra gera crises não governáveis, com efeitos inflacionários que podem impactar a percepção do eleitor. “O governo precisa ser ágil para evitar a perda de bem-estar econômico do eleitor massivo, da base da pirâmide.”
Sobre a pauta da escala 6×1, Lapa avalia que é uma agenda popular, mas que vai gerar embates. “O governo tenta mostrar que busca o bem-estar do trabalhador; a oposição vai tentar mostrar que isso pode gerar desemprego, atiçar o sentimento do medo.”
Quanto à Faria Lima, a pesquisadora é direta: “Sempre que puder escolher um candidato de cunho mais liberal na economia, ela vai escolher nessa direção. Sim, a Faria Lima abraça essa candidatura por oportunidade. Mas não tem céu de brigadeiro, porque vai precisar enfrentar, do ponto de vista popular, o desejo de melhoria de vida do trabalhador.”
Flávio também tem usado o discurso anticorrupção, tema sensível para o eleitorado. Lapa aponta que, embora não haja escândalos centrais no governo Lula, a CPI dos Correios e o caso Banco Master podem ser usados para ativar a indignação. “Corrupção é um tema muito sensível e associado negativamente ao PT. É possível que isso venha como tema de campanha para ativar no eleitor a emoção da raiva, do medo.”
A possível escolha de Tereza Cristina para vice é vista por Lapa como uma “cartada clássica” de partidos que não têm familiaridade com a pauta de igualdade feminina. “É uma estratégia de imagem, para mostrar que não há rejeição à mulher na política. Para o eleitor conservador, a pauta da mulher é sensível no sentido do comportamento, mas a presença feminina na chapa pode tirar um ponto de crítica e atrair eleitores mais jovens, que têm maior abertura a processos de inclusão.”
Lapa não tem dúvidas de que a campanha de Flávio fará uso pesado de fake news e inteligência artificial. “As estratégias não mudaram. Os partidos de direita aprenderam a utilizar esse ambiente digital de forma estratégica. A experiência acumulada, o modus operandi da família Bolsonaro certamente não será abandonado. A legislação tenta proibir, mas os excessos serão cuidados para não criar problemas jurídicos. É um universo onde a candidatura de Flávio transita com muito mais tranquilidade do que qualquer outra.”
Flávio protocolou uma PEC para acabar com a reeleição para presidente, mantendo-a para governos e prefeituras. Lapa interpreta o movimento como uma forma de ativar o sentimento anti-sistema do eleitor. “É sempre mostrar que o sistema é disfuncional, que algo precisa ser feito. É uma forma simbólica de dizer que luta para mudar as coisas, ainda que seja algo muito mais discursivo do que efetivo.”
Sobre o desempenho legislativo de Flávio, Lapa afirma que ele não é um senador omisso, mas sua atuação é focada em pautas que interessam ao seu eleitorado cativo. “Ele se faz presente nos debates que podem gerar repercussão para o bolsonarismo. Não tem contribuição relevante em políticas públicas, reforma tributária, nada que marque sua carreira. Sua atuação é muito mais no sentido de inflamar emocionalmente o eleitor do que entregar política pública concreta.”
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
