Império em declínio

‘Com guerra no Irã, EUA tentam barrar a ascensão econômica chinesa, mas se mostrou um erro estratégico’, diz José Kobori

Financista José Kobori avalia que os EUA entraram em um conflito para o qual não estão preparados, enquanto o Irã aplica uma ‘guerra de exaustão’

JOSE KOBORI (1)
O economista José Kobori | Crédito: Movimento de Mulheres Olga Benário

Enquanto a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã completa sua segunda semana, analistas tentam compreender as motivações econômicas e geopolíticas por trás do conflito. Para o financista, professor e escritor José Kobori, o ataque ao Irã representa um movimento desesperado do imperialismo estadunidense em declínio, que busca conter o avanço da China e garantir a sobrevivência do sistema petrodólar.

No BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, Kobori começa por contextualizar o conflito dentro da lógica histórica do capitalismo. “A história das guerras é a história do próprio capitalismo. A guerra sempre é a arma do capitalismo no limite, quando ele não consegue convencer, via diplomacia, os países a entrarem no sistema imperialista.”

Para ele, o ataque ao Irã é uma tentativa de conter a China. “Os Estados Unidos vêm tentando barrar a ascensão econômica chinesa. Não surtiu efeito na guerra econômica e tarifária, então apelaram para o último poder inquestionável que têm: a supremacia militar. Mas está se mostrando um erro estratégico.”

Diferentemente da “guerra dos 12 dias” em junho de 2025, quando o Irã retaliou de forma mais branda, desta vez o país se preparou. “O Irã sabia que os EUA não cumprem acordos. Agora não vão aceitar nenhum acordo, porque sabem que seria apenas para os EUA ganharem tempo.”

Kobori destaca a assimetria econômica da guerra. “Cada míssil de defesa norte-americano custa US$ 4 milhões. Um drone iraniano custa de US$ 20 mil a US$ 50 mil. O Irã tem utilizado armamentos antigos para estressar o sistema de defesa e, quando ele está exausto, lança mísseis hipersônicos, impossíveis de interceptar.”

Segundo ex-agentes de inteligência estadunindenses, os EUA não teriam capacidade de manter o esforço de guerra por mais de quatro semanas. “O Irã sabe disso. Ainda não utilizou seus armamentos pesados. Está dando um show em estratégia militar.”

Para Kobori, o interesse dos EUA no Irã vai além do petróleo, uma vez que o país é estratégico para a China por ser uma das principais passagens da nova rota da seda.

Ele lembra que o sistema petrodólar, estabelecido nos anos 1970, é fundamental para a hegemonia dos EUA. “O que propiciou a expansão militar dos EUA foi o privilégio exorbitante do dólar. Se a logística é crucial para a China, o dólar é crucial para os EUA.”

Kobori alerta que a queda abrupta da hegemonia estadunidense pode gerar instabilidades. “Por mais que seja maléfica, essa hegemonia estabeleceu certo equilíbrio. Se cair muito rápido, o Japão, com histórico imperialista, pode querer assumir o vácuo no Sudeste Asiático, o que preocupa a China.”

Sobre as ameaças de Trump à Groenlândia e ao Canadá, o analista vê sinais de desespero. “O império está em declínio e atira com o que tem. É o famoso ‘apelou, perdeu’.”

O Brasil no centro da disputa

Kobori faz um alerta sobre o cerco militar dos EUA ao Brasil. “Eles estão fazendo em volta do Brasil a mesma coisa que fizeram em volta do Irã. Bases no Paraguai e em outros países vizinhos são uma forma de cercar o Brasil para, no futuro, impor sua vontade.”

Para ele, o país precisa repensar sua soberania. “O Brasil não tem política monetária soberana, fiscal nem militar. Nossa política monetária segue o Fed [Banco Central dos EUA]”, destaca.

Questionado sobre a possibilidade de o Brasil desenvolver armas nucleares, Kobori é enfático citando o professor José Luís Fiori: “Só há uma forma de exercer poder soberano e não ser incomodado: com soberania monetária, fiscal e militar. O Brasil não tem nenhuma das três.”

Kobori lembra que a China ignorou o Consenso de Washington e se desenvolveu com déficit fiscal e investimento estatal. “O que faz diferença para uma economia crescer é investimento em infraestrutura, ciência, tecnologia, educação — o chamado setor improdutivo, que só o Estado pode fazer.”

“A China aprendeu industrialização com o Brasil. Agora podemos aprender com eles — mas com soberania”, conclui.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Luís Indriunas

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