Reforma de Milei

‘Estamos caminhando para a barbárie total no mundo do trabalho’, alerta economista diante das reformas trabalhistas na América Latina

Marilane Teixeira observa como proposta de Javier Milei pode impactar no Brasil em cenário de eleições presidenciais e fim da escala 6x1

Protestos na Argentina contra reforma trabalhista de Javier Milei
Protestos na Argentina contra reforma trabalhista de Javier Milei | Crédito: Luis Robayo/AFP

Enquanto a Argentina aprova uma reforma trabalhista que flexibiliza direitos, amplia jornadas e enfraquece sindicatos, o Brasil revive o fantasma de 2017. O pacote do governo Javier Milei, que permite jornadas de até 12 horas e institui banco de horas em substituição ao pagamento de extras, reacende o debate sobre os limites da flexibilização e suas promessas não cumpridas.

No BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, a economista e professora do Instituto de Economia da Unicamp (Universidade de Campinas), Marilane Teixeira, analisa as similaridades entre os dois processos, os riscos de uma nova reforma no Brasil e a centralidade da luta pelo fim da escala 6×1.

Teixeira é categórica ao comparar as reformas. “A reforma argentina guarda muita similaridade com o que aconteceu no Brasil em 2017. É a mesma ladainha: atribuir ao custo do trabalho e à rigidez das normas a culpa pelos problemas econômicos. O discurso é o mesmo: flexibilizar para gerar emprego e combater a informalidade.”

Ela detalha os pontos de contato: jornada de até 12 horas, generalização do banco de horas, flexibilização das formas de contratação e facilitação das dispensas. “No Brasil, a reforma foi uma colcha de retalhos que atendeu demandas específicas de setores empresariais. Na Argentina, segue o mesmo receituário.”

A economista desmonta o argumento central dos defensores da flexibilização. “A promessa era de que a reforma geraria milhões de empregos. Não aconteceu. O desemprego no Brasil só arrefeceu com o crescimento econômico a partir de 2022, não por causa da reforma. É a dinâmica econômica que determina o nível e a qualidade do emprego, não o inverso.”

Ela lembra que estudos do próprio Fundo Monetário Internacional já demonstraram que medidas liberalizantes não resultam em melhora econômica nem na qualidade dos empregos. “É uma inversão total: a flexibilização não gera emprego, apenas substitui trabalho protegido por trabalho precário.”

O fantasma de uma nova reforma no Brasil

Questionada sobre a possibilidade de uma nova reforma trabalhista, caso Flávio Bolsonaro seja eleito, Teixeira é enfática. “O que ele está prometendo é aprofundar a flexibilização, eliminar qualquer resquício de reconhecimento do vínculo trabalhista. É o que está em discussão no STF [Supremo Tribunal Federal] sobre a pejotização: transformar relações de trabalho em contratos comerciais.”

Ela alerta para o risco de “barbárie total”. “Se eliminarmos todas as formas de proteção conquistadas em dois séculos, estaremos caminhando para um cenário onde não há mais controle sobre as relações de trabalho. É o que o economista Polanyi chamava de barbárie.”

Sobre a diferença na reação dos trabalhadores, Teixeira aponta a tradição sindical argentina como fator central. “A Argentina tem uma classe trabalhadora mais estruturada, sindicatos nacionais com peso político e capacidade de mobilização. No Brasil, a reforma de 2017 pegou o movimento sindical fragilizado, dividido e sem capacidade de enfrentamento.”

Ela lembra que, no Brasil, parte das centrais sindicais apoiou a reforma, e que muitos temas já vinham sendo flexibilizados por negociação coletiva. “A reforma veio para dar segurança jurídica a práticas que já ocorriam. Na Argentina, a resistência foi muito maior.”

O fim da escala 6×1: uma agenda central

Sobre o projeto que propõe o fim da escala 6×1, Teixeira é clara. “Esse é o tema mais importante da agenda do trabalho nos últimos anos. Mais de 20 milhões de pessoas trabalham acima de 44 horas semanais, e 70 milhões trabalham mais de 40 horas. Há um clamor social por redução da jornada.”

Ela rebate os argumentos patronais. “Os setores econômicos já reconhecem a dificuldade de contratar para jornadas extenuantes. Há um custo elevado com rotatividade. A redução da jornada pode gerar emprego e melhorar a atividade econômica, além do bem-estar.”

Teixeira destaca que o governo entrou com peso no debate. “É uma agenda política, não econômica. Estudos mostram que é sustentável. O que está em jogo é quem está ao lado dos trabalhadores e quem defende interesses empresariais.”

Na reta final da entrevista, Teixeira resume a importância do debate. “Vamos discutir as condições de reprodução da vida. Salários baixos, jornadas extensas, necessidade de bicos extras. Precisamos enfrentar a capacidade da economia de gerar empregos de qualidade, com direitos e salários dignos.”

Para ela, a redução da jornada é parte central dessa agenda. “Melhorar as condições e a qualidade de vida da classe trabalhadora é o debate que precisamos enfrentar. E isso passa, inevitavelmente, pelo fim da escala 6×1.”

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Luís Indriunas

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