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Bloqueio a Cuba ‘não é questão econômica, é ideológica’, afirma internacionalista

Jana Silverman destaca que a política de estrangulamento promovida pelos EUA tem raízes históricas

Mulher usa lenha para cozinhar durante apagão em Matanzas, no dia 6 de abril
Mulher usa lenha para cozinhar durante apagão em Matanzas, no dia 6 de abril | Crédito: Stringer/AFP

A asfixia energética promovida pelos Estados Unidos contra Cuba provoca, desde janeiro, apagões diários que duram até 10 horas. A situação tem impactado severamente sistemas de saúde, de abastecimento e o cotidiano da população da ilha caribenha.

O bloqueio a Cuba começou formalmente em 1962, durante o governo Kennedy. Quando Barack Obama estava na Casa Branca, entre 2009 e 2017, houve alívio de algumas sanções, com a retomada de voos comerciais entre Estados Unidos e Cuba e a autorização para o uso de cartões de crédito e débito estadunidense na ilha. Os bloqueios foram retomados no primeiro governo Donald Trump e chegaram ao extremo agora.

Ao BdF Entrevista, Jana Silverman, professora visitante de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC) e coordenadora de Relações Internacionais do Democratic Socialists of America, afirma que há várias razões para o bloqueio, mas a principal é ideológica. “A razão mais óbvia é a ideológica. Ou seja, dentro do governo Trump, você tem uma linha ideológica que é comandada por figuras nefastas como o Steve Bannon, como o Stephen Miller, que dirige o programa contra os migrantes que residem nos Estados Unidos, e tem o próprio Marco Rubio, o secretário de Estado, que é de origem cubana”, destaca.

A professora compara o cenário cubano com o de outros dois alvos recentes do governo Trump, a Venezuela e o próprio Irã, ambos países atacados pelos Estados Unidos por causa do petróleo. “Não é uma questão de interesses econômicos, porque realmente Cuba é muito diferente do que a situação, por exemplo, da Venezuela, que tem grandes recursos de petróleo e grandes possibilidades em termos de agroexportação também”, explica.

Silverman conta que uma grande parcela da população estadunidense, especialmente os mais jovens, tem se posicionado contrariamente a essa política de estrangulamento de Cuba e não apenas pelo aspecto político. “Quando a gente fala sobre essa questão do bloqueio, não apenas colocamos isso como uma questão política, mas também uma questão cultural, questão de oportunidade de negócios, de direitos humanos. Ou seja, todo mundo deveria ter o direito, acesso à comida, acesso à medicina, acesso à energia hoje em dia. Então, nesse tipo de diálogo, nesse tipo de abordagem, temos muito sucesso em convencer as pessoas a se opor ao bloqueio contra Cuba.”

Com relação à repercussão internacional sobre a política de Trump, Silverman afirma que a postura discursiva de alguns países, como o Brasil, tem sido bastante assertiva e crítica à ingerência estadunidense, mas ainda falta mais ajuda material. “Sabemos que é muito complicado, por exemplo, o governo brasileiro mandar a Petrobras conduzir barcos com petróleo para Cuba nesse momento, porque a Petrobras é uma empresa que está na bolsa de valores, ou seja, que também tem investidores norte-americanos. Mas eu acho que o papel do governo é tentar procurar soluções diplomáticas. E se não puder enviar petróleo, enviar outros tipos de ajuda humanitária, como tem feito o governo mexicano”, avalia.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Thaís Ferraz

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