guerra sem fim

O que impede o acordo de cessar-fogo entre EUA e Irã?

Ricardo Leães defende que objetivos distintos entre países impossibilita qualquer acordo para fim do conflito

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Representantes do Irã são recebidos pelo primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, antes das negociações com os EUA | Crédito: Gabinete do Primeiro-Ministro do Paquistão/AFP

No fim de semana, representantes dos EUA e do Irã se reuniram durante 21 horas no Paquistão para negociar um cessar-fogo. No entanto, a reunião acabou sem acordo. O Estreito de Ormuz foi bloqueado e segue sendo o protagonista da disputa entre os dois países e há ainda um terceiro elemento nesse cálculo da negociação, que é Israel.

Ao BdF Entrevista, o professor de Relações Internacionais Ricardo Leães afirma que um acordo no curto prazo é bastante improvável e um dos principais obstáculos para que isso ocorra é a diferença de objetivos entre os países envolvidos, além da inconsistência que os Estados Unidos vêm apresentando nas últimas semanas.

“É muito importante lembrar que a possibilidade de um cessar-fogo e, mais ainda, de um acordo de paz, não diz respeito apenas à capacidade de negociação, de diplomacia, de convencimento das partes, mas, sim, ao fato de que os três combatentes em questão apresentam objetivos muito distintos, em especial o Irã e Israel, que são os dois países que têm uma maior clareza em relação às suas ambições estratégicas, ao passo que os Estados Unidos têm apresentado muitas vacilações”, afirma.

Nesse cenário, diz Leães, a única possibilidade de um acordo de paz é quando uma das partes se dá por vencida, aceitando que o inimigo se mostrou mais eficiente nos campos de batalha e que os custos da guerra se tornaram excessivamente altos. “Essa certamente não é a realidade do Irã e nem de Israel”, afirma.

Para ele, portanto, nessas circunstâncias, os Estados Unidos, que têm parecido perdidos e observam a popularidade de Trump despencando, seriam o país com mais chance de sair do conflito primeiro. “Os custos econômicos dessa guerra estão crescendo cada vez mais”, aponta. “Mas os EUA não querem aceitar uma capitulação, não querem se render, não querem simplesmente concordar com todas as demandas do Irã, até porque isso significaria uma tremenda derrota também para Israel, que faz uma pressão para que Washington não caminhe nesse sentido”, diz.

Ricardo Leães afirma que, se havia alguma dúvida de que quem estava dando as cartas na aliança EUA-Israel era o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, essa questão foi solucionada nos últimos dias. “Ele disse abertamente que ajudou a convencer os Estados Unidos a entrarem nessa guerra”, diz.

Na semana passada, após EUA e Irã anunciarem uma trégua de duas semanas, Israel bombardeou o Líbano deixando mais de 300 mortos.

“Israel deseja que aconteça com o Irã o mesmo que se passou na Líbia, no Iraque e na Síria. Países que outrora tiveram capacidades militares de desafiar Israel e que hoje em dia já não têm mais. É exatamente isso que Israel pretende com essa guerra”, diz Leães.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Thaís Ferraz

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