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Santa Catarina: de um estado que deu vitória a Lula em 2002 a um berço bolsonarista. O que aconteceu?

Historiador Adriano Luiz Duarte explica quais fatores econômicos fizeram estado seguir rumo à direita

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Carlos Bolsonaro | Crédito: Reprodução/Redes Sociais

Santa Catarina se tornou, nos últimos anos, a menina dos olhos do bolsonarismo. E não foi por acaso. No segundo turno das eleições de 2022, Jair Bolsonaro (PL) garantiu quase 70% de votos no estado.

Mas nem sempre foi assim: se dependesse dos catarinenses, o presidente Lula teria sido eleito no primeiro turno em 2002, já que o estado deu 56% de votos para o candidato. O que aconteceu nesses 20 anos para que a extrema direita avançasse a ponto de tornar Santa Catarina a grande referência do bolsonarismo no Brasil?

Ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, o professor de História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Adriano Luiz Duarte avalia que não é possível definir o estado como fascista, mas diz que, sim, houve uma “transformação lenta e contínua” nas últimas três décadas.

“Em sua primeira eleição, Dilma [Rousseff] também venceu em Santa Catarina, com uma porcentagem menor. Mas na segunda eleição, em 2014, ela perdeu. Acho que é preciso dizer isso rapidamente: Santa Catarina não é um estado fascista. Alguma coisa aconteceu ou vem acontecendo ao longo desses 30 anos que vem mudando o alinhamento do Estado e que vem fazendo com que o seu eleitor caminhe cada vez mais para a direita. Acho que é uma longa história. A gente tem várias hipóteses para explicar isso. Eu não acho que a eleição do Lula foi um ponto fora da curva. Em 2002, eu acho que há uma transformação lenta e contínua na estrutura do estado que vem fazendo Santa Catarina votar majoritariamente nos candidatos da direita. Mas nem sempre foi assim”, avalia.

O historiador acredita que existem ao menos quatro elementos que podem explicar o processo que pavimentou caminho para o conservadorismo catarinense. “O primeiro desses fenômenos é que Santa Catarina sempre foi conhecida como uma espécie de paraíso da pequena propriedade rural. Desde os anos 1980, essa pequena propriedade vem se concentrando. Mas as pessoas estão perdendo essa pequena propriedade, e quando perdem a pequena propriedade, têm duas alternativas: ou elas se tornam trabalhadoras assalariadas no campo, ou elas migram para as médias e grandes cidades. Quando isso acontece, as pessoas ficam muito enfurecidas, porque perderam essa propriedade. Junte-se a isso o fato de que Santa Catarina, por ter uma capital com poucas indústrias e muitos funcionários públicos e comércio, se apresentou como um estado muito mais de classe média do que outros estados brasileiros”, explica.

Os governos Lula e Dilma beneficiaram a classe trabalhadora com políticas sociais e os grandes empresários e bancos. A classe média, contudo, não se sentiu beneficiada e atendida pelos governos do PT. “Quando os governos petistas fazem, por exemplo, uma política de afirmação na universidade, abrindo espaço para estudantes negros, para mulheres, para estudantes LGBT+, isso abre os serviços públicos e a universidade para essas pessoas que não tinham tido acesso a esses serviços. Mas, por outro lado, encarece a mão de obra que era a mão de obra fundamental das classes médias. Não é que essas pessoas se tornam classe média, mas essas pessoas melhoram um pouco a sua condição de vida e tornam a sua mão de obra mais cara para a classe média. E aí essa classe média que sempre experimentou a sua vida como privilégio começa a perceber uma distância entre os de baixo e eles próprios. E começa a interpretar essas políticas de igualdade social implementadas pelo governo como fossem uma espécie de ruptura com a meritocracia”, afirma.

O historiador também conta que, historicamente, há muitos religiosos que surgem em Santa Catarina, mas engana-se quem pensa que o motivo é a grande religiosidade da população. Novamente, o motivo é econômico: a dificuldade de famílias grandes em dividir as terras com muitos herdeiros empurra seus filhos para o Exército, a força pública ou a Igreja.

Duarte também explica que a raiz alemã, comumente atrelada aos catarinenses, não tem ligação com a imigração, já que esse processo se deu de maneira muito mais forte no Rio Grande do Sul. E também refuta duramente a ligação imediata entre a extrema direita e a ideia de que todo alemão é nazista.

“Quando acontece aquela famosa enchente [na década de 1980], o governo alemão ajuda financeiramente a cidade a se recompor e a se recuperar. Blumenau cria essa Oktoberfest, que é a maior festa alemã fora da Alemanha. E aí Santa Catarina começa a se vender, inclusive na propaganda para outros estados brasileiros, como o estado mais alemão do Brasil. Isso, na verdade, é um marketing muito bem feito, muito interessante, que atrai muita gente para cá, que incrementa o turismo e é muito positivo pra essas cidades. Acontece que as pessoas começaram a acreditar que vivem num estado que é, de fato, alemão, e isso é uma grande bobagem. É só uma estratégia de marketing que tem dado muito resultado. Aí essa extrema direita pega esse traço da cultura, diz que é alemão, usa aquela tiarinha nazista na cabeça, para dizer ‘nós somos europeus, somos superiores aos brasileiros, somos brancos'”, pontua.

Todo esse contexto cria condições para que o bolsonarismo tenha crescido no estado e criado espaço para que figuras como Carlos Bolsonaro escolham se candidatar ao Congresso representando Santa Catarina.

Para conferir a entrevista completa, acesse o link abaixo:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Thaís Ferraz

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