Passados mais de dois séculos do nascimento do advogado e filósofo Karl Marx, um dos principais pensadores da era moderna e responsável por criar um método para confrontar o capitalismo e que traria as bases para o socialismo, a pergunta que fica é: o pior socialismo é preferível ao melhor capitalismo?
Ao BdF Entrevista, José Paulo Netto, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos mais importantes estudiosos do marxismo no Brasil, avalia que, se estivesse vivo, Marx escreveria coisas bastante distintas do que escreveu no século 19. “Marx foi um homem do seu tempo. Mas foi mais do que isso. Foi, dentre os homens do seu tempo, aquele que deixou o legado, eu diria, para as ciências sociais e humanas, o legado mais atual. Onde? Eu diria que o que permanece absolutamente vivo de Marx e que ele hoje não revisaria, de forma alguma, é o seu método de análise. O que é central na obra de Marx não são as relações, as inferências particulares que ele extrai nos seus estudos. O essencial é o método, é o método que ele descobriu, desenvolveu, aprofundou, o método para compreender a ordem burguesa, a ordem do capital. Nisso, eu diria que Marx é irretocável. Direi mais: enquanto a sociedade burguesa persistir nos seus fundamentos, e o principal desse fundamento for a exploração do trabalho pelo capital, o método de Marx será o mais adequado para desvendar a realidade”, afirma.
Nesse sentido, Marx é extremamente atual até os dias de hoje. “Eu diria que essa é a grande herança de Marx. A descoberta do método adequado para compreender a sociedade burguesa, e mais, a sociedade burguesa assentada no que ele chamava de modo de produção do capital. Eu diria que Marx, quanto a isso, é absolutamente atual e diria mais: permanecerá atual enquanto a ordem burguesa persistir. Marx só estará superado quando forem superados o capitalismo, a ordem burguesa e todas as suas implicações”, analisa.
O professor destaca o valor histórico do pensamento de Marx e destaca que ele não era um economista. “Nunca foi. Marx inaugurou uma crítica revolucionária da economia política. Sempre é bom lembrar o subtítulo do Capital, crítica da economia política. Enquanto durar a ordem burguesa, Marx será atual. Disso não tenho nenhuma dúvida. Mas o trabalho, que é fundamento da sociabilidade humana, segundo Marx, tem sofrido, e eu diria especialmente a partir do século 19, com a chamada Revolução Industrial, nas suas várias e distintas fases, o trabalho tem se transformado muito. Ele está em transformação hoje”, considera.
E avalia como o marxismo se relaciona com elementos novos do trabalho contemporâneo, como, por exemplo, a inteligência artificial. “Eu não tenho nenhum medo da inteligência artificial. Penso que ela é algo de um instrumental técnico, com possibilidades revolucionárias, mas atenção! Quem utiliza a inteligência artificial não são os computadores, são os homens, são os sujeitos sociais. E daí nós podemos ter resultantes as mais diferentes, desde a divulgação de mentiras, de mitos, até o aprofundamento de conhecimentos teóricos e científicos Eu aprendi com o Marx que o desenvolvimento das forças e das técnicas produtivas tem sempre um potencial de avanço da humanidade, de avanço, de evolução, de progresso. Mas atenção, isso é extremamente contraditório. Uma das categorias fundamentais que Marx pôs na mesa é a categoria de contradição, que não é algo imaterial, não. Ela tem implicações imateriais, ideais, mas ela é uma categoria de natureza claramente materialista e objetiva”, continua.
E destaca os riscos que a IA tem apresentado, não apenas nas formas de trabalho, mas na própria constituição da sociedade democrática. “Eu costumo dizer que sou um homem típico do século 20 que tem muita dificuldade de entrar no século 21, tal como ele está se apresentando. Até porque aquilo de que têm-se valido inimigos da humanidade, inimigos da democracia, inimigos do progresso social, isso têm-se valido da chamada IA, da inteligência artificial. Então, não há técnica neutra. Não é instrumento neutro. E, frequentemente, na história da humanidade, a luta contra a barbárie tomou aspectos barbarizantes. Não seria a primeira vez que isso acontece”, avalia.
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O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
