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‘Queria desconstruir a ideia de que psicoativo é alucinógeno’, diz autora de ‘Psicoativos Invisíveis’

Livro é fruto de pesquisa realizada entre 1995 e 2002 com comunidades indígenas e ribeirinhas

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Os saberes tradicionais podem fundamentar a medicina moderna | Crédito: Felipe Freire/ Secom

O livro “Psicoativos Invisíveis”, de Eliana Rodrigues, professora de etnobotânica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), investiga o uso de substâncias psicoativas a partir de uma longa pesquisa e vivência em comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas, e mostra como o conhecimento de povos tradicionais pode fundamentar a ciência moderna.

Rodrigues conta que uma grande motivação sua ao pensar no livro foi desmistificar a ideia de que psicoativos são necessariamente alucinógenos. “Queria descontruir a ideia de que psicoativo é alucinógeno, de uma forma cruel. Isso não favorece ninguém, principalmente a psiquiatria”, afirma.

A autora conta que ela havia passado um tempo na Amazônia realizando sua pesquisa de mestrado e, quando retornou em 1998, teve contato com um professor do Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina, que estava buscando novos medicamentos como ansiolíticos, antidepressivos e antipsicóticos, e se interessou pelo trabalho dela. “Ele me chama para a gente focar dentro das medicinas, só nas psicoativas. Como eu já tinha ido para a Amazônia, ele falou: ‘Vamos mudar os biomas. Vamos para o Cerrado e para o Pantanal’. Foi assim que nasceram esses outros dois estudos, com indígenas. e quilombolas”, conta. “E a gente tem que conviver, viver, acordar, dormir, acordar meses num contexto desse, para que você realmente consiga entrar no universo.”

Eliana Rodrigues compartilha alguns relatos curiosos e até divertidos de sua pesquisa, já que defende que, em suas imersões, era necessário experimentar o psicoativo para compreender exatamente seus efeitos. Um deles é quando conheceu o fumo “tira-capeta”. “Eu realmente experimentei, senti que tinha uma coisa muito interessante. Eu tive uma sensação imediata de um grande relaxamento. Esse efeito dura pouquíssimo tempo. Aí, essa coisa de você querer se movimentar, rir. Aí depois vem uma pitose palpebral, que seus olhos começam a fechar. O relaxamento extremo e fome. O que te lembra isso? Cannabis sativa. Então, será que o tira-capeta age no sistema endocannabinoide, regulando a homeostase do nosso sistema? Só que são nove plantas do Pantanal. Então é difícil você estudar em ratos, camundongos, farmacologia pré-clínica, nove plantas”, pondera.

Rodrigues critica a falta de políticas públicas para a produção de fitoterápicos brasileiros e alerta contra a apropriação irresponsável de rituais sagrados. Além disso, a professora defende que o respeito mútuo e a valorização da biodiversidade são essenciais para o avanço da medicina e da saúde mental. “A gente deve colocar tudo no mesmo patamar de relevância. Afinal, os medicamentos que a gente tem nas prateleiras das farmácias vieram da onde? Do conhecimento tradicional, das plantas.”

Confira a entrevisa completa abaixo:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Lucas Estanislau

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