“País mais fechado do mundo” e “monarquia comunista”: essas são algumas frases comumente ouvidas na mídia comercial para retratar a República Popular Democrática da Coreia, ou simplesmente Coreia do Norte, de maneira bastante estereotipada.
Recentemente, o país voltou a aparecer com destaque no noticiário, depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez um movimento de afastamento da Coreia do Sul ao mesmo tempo em que sinalizou uma tentativa de aproximação de Pyongyang.
No atual momento, há dinâmicas de forças no cenário geopolítico global que influenciam as históricas relações entre os países: um conflito em curso dos EUA contra o Irã, parceiro estratégico e militar histórico da Coreia do Norte, e também a guerra entre Rússia e Ucrânia.
A divisão das Coreias
Do ponto de vista da história, a formação dos dois países a partir da divisão de uma mesma península é uma herança direta da Segunda Guerra Mundial, quando o mundo já começava a se acomodar em um contexto bipolar que ficaria retratado pela Guerra Fria.
Ao BdF Entrevista, Lucas Rubio, presidente do Instituto Paektu, disse que a Coreia sempre se entendeu como uma civilização unificada e milenar. Contudo, sofreu com a brutal colonização japonesa entre 1905 e 1945. “Além de explorar todos os recursos naturais que o país tinha, [a ocupação do Japão] explorou todos os recursos humanos das mais diversas formas possíveis, proibindo a reunião política dos coreanos, aniquilando qualquer forma de manifestação pública da cultura e da identidade nacional da Coreia”, conta.
Apesar das dificuldades no período, havia resistência que acabou se aliando ao Exército Vermelho e, em 1945, promoveu nova investida ao norte do território coreano, enquanto as tropas estadunidenses entravam ao sul. Esse processo acabaria resultando na divisão do território no chamado paralelo 38. “O presidente [Harry] Truman tinha uma ideia de contenção. Os EUA entram e ocupam a Coreia em contenção à expansão soviética”, explica. Em 1948, o espaço fica livre para a fundação da República Popular da Coreia.
A influência de Washington na região permanece intensa até hoje, com a manutenção de aproximadamente 50 mil soldados na Coreia do Sul. Para Rubio, essa conjuntura limita profundamente a autonomia de Seul nas decisões intercoreanas. “A posição da Coreia do Sul sempre será de subserviência em relação aos Estados Unidos”, define. O pesquisador destaca que o país “opera sempre dentro dos parâmetros e dos limites que são estabelecidos pelos Estados Unidos”, funcionando estrategicamente como um complemento da engrenagem militar estadunidense na Ásia.
A Coreia do Norte
Em relação à estrutura política norte-coreana, Rubio desconstrói o rótulo de que o país seja governado por uma autocracia familiar hereditária. “Apesar de ter sido, de fato, governada em três gerações por pessoas que têm um laço familiar, a Coreia do Norte não é uma dinastia nem uma monarquia”, resume.
Ele explica que a escolha de líderes como Kim Il-sung, Kim Jong-il e Kim Jong-un partiu de uma decisão política popular focada na coerência histórica e continuidade do processo revolucionário, ressaltando que o poder executivo é estruturado de forma coletiva e que “Kim Jong-un não consegue decidir algo sozinho”.
No aspecto socioeconômico e diplomático, a Coreia do Norte mantém uma economia estatal na qual “não existe iniciativa privada em cima de grandes setores da economia”, priorizando a autossuficiência nacional. “É um país que produz coisas que um país tão grande quanto o Brasil não produz: os próprios celulares, os próprios televisores, os próprios satélites, os próprios foguetes lançadores de satélites. E, bom, uma coisa também importante a se lembrar: ela produz suas próprias bombas atômicas e mísseis, o que acabou se mostrando como uma decisão, ainda mais hoje em dia, muito importante para aquele Estado como uma estratégia de sobrevivência. Alavancou a economia também”, aponta.
Lucas Rubio reforça que os exercícios militares promovidos em conjunto pela Coreia do Sul e os EUA sempre foram um ponto de muito incômodo para Pyongyang. Em 2024, houve uma reavaliação completa da política de defesa e uma tentativa de diálogo entre as nações, com a participação dos EUA, que se mostrou infrutífera. Desde então, o governo norte-coreano passou a definir formalmente a vizinha Coreia do Sul como “o estado mais inimigo da Coreia do Norte junto com os Estados Unidos”.
“Do ponto de vista da Coreia do Norte, a reunificação é algo impossível, visto por eles como algo que não dá para ser feito nas atuais condições materiais, porque a Coreia do Sul é um Estado totalmente dependente, ocupado e manipulado pelos Estados Unidos”, reforça.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.
