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BookTok: Como o TikTok muda o consumo e a produção de livros

Pesquisador e autor Gabriel Matos explica como lógica algorítmica atraiu jovens para o hábito da leitura

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Booktok | Crédito: Pexels

O fenômeno do BookTok, comunidade do TikTok dedicada à literatura que ganhou força no Brasil a partir de 2020, vem transformando a relação dos jovens com os livros. Popularizado pelo isolamento da pandemia e pelo alcance orgânico do algoritmo da plataforma, o movimento tem sido encarado como uma estratégia para colocar a literatura em evidência, impulsionando a venda de obras, principalmente para o público de 18 a 25 anos.

Por suas diferenças em relação a redes anteriores, como o BookTube e o Bookgram, o formato dinâmico e fragmentado do TikTok trouxe novos desafios para a formação de novos leitores. Segundo o pesquisador Gabriel Mattos, autor de “Entre livros e likes” (Editora MapaLab), esse ambiente digital remodelou a estrutura do mercado. “Eram pessoas querendo falar de literatura que estavam presas em casa”, mas que progressivamente se inseriram em uma lógica comercial e profissionalizada em parceria com grandes editoras.

Por trás do sucesso de vendas, alguns pesquisadores questionam a qualidade dos livros escolhidos pela nova geração. Mattos defende o caminho do equilíbrio com relação a essas críticas e considera que a dicotomia entre “o bom e ruim” atrapalha o propósito central do movimento: trazer esse jovem para o hábito de leitura.

“Tem uma crítica mais academicista e que muitas vezes também cai um pouco num lugar de o que é ou não boa literatura, o que é ou não literatura comercial, que também acontece muito. Colocam muito o BookTok nesse lugar da literatura comoditizada: ‘Ah, só tem romance adolescente e é tudo muito ruim, tudo não é literatura, subliteratura’. Eu não gosto muito dessa dicotomia, se é ou não. Acho que a gente precisa trazer esse jovem e não afastar”, defende.

Em um ecossistema no qual usuários são impactados por dezenas de indicações diárias, surge a chamada “geração fast-forward”, caracterizada por leituras superficiais, uso de inteligência artificial para resumos e até vídeos ensinando a pular capítulos de livros.

Mattos se preocupa com o enfraquecimento da “leitura profunda”, que conecta repertórios e estimula o pensamento crítico. Alerta de que é um risco ao se usar a rede social como um mediador. “Ela joga o leitor numa lógica de performance, utilitarista, efemeridade, que pode estar fazendo com que essa leitura esteja mais pobre.”

Ele complementa que, embora a rede seja excelente para capturar a atenção inicial, a formação de um leitor crítico demanda tempo e desfrute estético, algo que colide com o consumo dinâmico e a ansiedade dopamínica das telas.

Essa dinâmica acelerada também se reflete na produção literária, criando o que o pesquisador chama de “escrita algorítmica”, em que autores moldam suas narrativas e criam cenas picantes pensando especificamente nos cortes que podem viralizar nas redes sociais.

Todavia, também há sinais de uma contracultura emergente, marcada pelo interesse de jovens por livros físicos, clubes de leitura presenciais e um desejo de reconexão analógica diante da saturação digital. “Toda cultura gera contracultura, toda pasteurização gera essa volta ao kraft, ao artesanal. A gente tem visto isso até pelas marcas. Então, marca lançando revista, marca fazendo clube de leitura. As marcas estão se aproximando da literatura também, porque é aquilo que a gente falou. A literatura tem um capital cultural simbólico que nada oferece. Quem vai criticar livro? Muito difícil”, explica.

Mattos acredita que a tecnologia continuará central para descobertas literárias. “Acho que a vida algorítmica, de maneira geral, vai continuar acontecendo. A gente vai continuar tendo a mediação das redes para recomendação, para descoberta, para consumo de reviews literários”, conclui o autor.

Confira a entrevista completa:

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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