Dois anos após o início do novo ciclo de ataques em Gaza, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump apresentou um plano de “paz” ou proposta de cessar-fogo para encerrar o conflito entre Israel e o Hamas. A proposta, com 21 pontos, está sendo discutida em Sharm el-Sheikh, no Egito, e prevê, entre outros itens, o desarmamento do Hamas, a troca de reféns, a anistia a combatentes e a criação de um governo de transição palestino. Segundo analistas entrevistados no podcast O Estrangeiro, do Brasil de Fato, o texto tem mais características de um ultimato do que de um acordo equilibrado.
“Não é muito bem um acordo de paz, mas uma pressão contra o Hamas para desarmar o Hamas”, explica o jornalista Lorenzo Santiago, correspondente do BdF. Ele afirma que o documento também abre brecha para um possível reconhecimento do Estado palestino, ainda que de forma indireta, ao propor um governo de transição em Gaza. “O principal é que o plano sugere uma abertura para um reconhecimento do Estado palestino, mas exige que o Hamas não participe do governo futuro”, diz.
Para o cientista político Anderson Barreto, do Instituto Front, o plano proposto por Trump “incorpora as contradições que vêm causando o genocídio na Palestina”. Segundo ele, o documento prevê o desarmamento da resistência palestina, mas não impõe nenhuma desmilitarização a Israel. “Você desarma o lado da resistência, como se esse lado fosse o agressor. Não há proposta de desmilitarização de Israel, e isso é um ponto central”, pontua.
Barreto também alerta que alguns pontos do plano, como a criação de um ‘comitê tecnocrático apolítico’ e de um ‘Conselho de Paz’ supervisionado pelos Estados Unidos e Reino Unido, indicam que Gaza poderia se transformar em um protetorado internacional. “Se você não convida a parte agredida, os palestinos, para sentar e estabelecer um chamado plano de paz, você não tem um plano de paz, você tem um ultimato”, avalia.
O analista compara o momento atual à Nakba, quando, em 1948, cerca de 700 mil palestinos para a criação do Estado de Israel, episódio reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma tragédia humanitária. Ele afirma que o genocídio em curso será lembrado como “um divisor de águas do século 21”.
Enquanto as negociações continuam no Egito, o total de vítimas em Gaza desde 2023 chega a mais de 67 mil mortos e mais de 169 mil feridos, segundo balanços recentes do Ministério da Saúde de Gaza validados pela ONU.
“Confiar em Donald Trump é acreditar em seres mitológicos. Um dia ele promete paz, no outro manda bombardear um país”, ironiza Barreto. “Esse plano, disfarçado de paz, é um ultimato. Se for aceito, pode significar a criação de um protetorado; se for rejeitado, legitima a continuidade do genocídio”, resume.
O podcast O Estrangeiro vai ao ar toda quarta-feira às 11h no Spotify e YouTube.
