Ataque imperialista

Historiador vê ‘forte articulação’ dos EUA no Caribe; Venezuela reage com ‘tranquilidade surpreendente’, diz correspondente

Movimentação militar dos Estados Unidos na região usa pretexto do 'narcoterrorismo' para influência na América Latina

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Professor da PUC-SP critica mediação de Trump e afirma que Washington é peça central no conflito

Para o historiador e cientista político Miguel Stédile, há uma estratégia bem articulada por parte dos Estados Unidos em relação à intensificação de sua presença militar no Caribe e às ameaças do presidente Donald Trump à Venezuela. Nos últimos meses, o governo estadunidense enviou navios de guerra e o maior porta-aviões do mundo para a região sob o argumento de “combater o narcotráfico”.

“Nada é gratuito, nada é por acaso, há uma forte articulação”, afirma, em entrevista ao O Estrangeiro, podcast do Brasil de Fato. Segundo ele, “a ideia do narcoterrorismo vem muito forte” depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, quando os EUA passaram a usar o combate às drogas e ao terrorismo como justificativa para intervenções no exterior.

Stédile explica que essa classificação pode afetar bancos e governos latino-americanos. “A definição como narcoterrorista e aplicação da legislação dos Estados Unidos permite, por exemplo, que se o banco brasileiro tiver contas de uma organização considerada como narcoterrorista e não tomar medidas, o próprio banco pode ser sancionado”, revela.

O historiador avalia que a prioridade estadunidense não é uma guerra aberta, mas uma pressão política e econômica para derrubar o governo do presidente venezuelano Nicolás Maduro. “Eu não diria que a intenção número um dos Estados Unidos seja uma invasão militar para uma troca de regime. Acho que a intenção número um criar um clima de asfixia”, indica.

Ele também relaciona o cenário à corrida por recursos estratégicos ligados à energia e à transição tecnológica. “A disputa energética é o que move essa disputa geopolítica. Em primeiro lugar o petróleo, mas podemos acrescentar o lítio e as terras raras”, cita. Para Stédile, “a lógica de funcionamento do Estado Americano é a mesma: prefere usar o acelerador e levar ao esgotamento do planeta.”

Rotina normal em Caracas

Diretamente de Caracas, capital da Venezuela, o correspondente do Brasil de Fato Pedro Pannunzio relata um cotidiano sem tensão visível nas ruas. “É um clima de tranquilidade surpreendente, pelo menos para o olhar de quem vem de fora”, observa. Segundo ele, “os mercados seguem um ritmo mais ou menos normal de compras e os restaurantes continuam cheios.”

Pannunzio destacou, contudo, que o governo venezuelano se prepara para um possível ataque. “Ontem [terça-feira, 11], os Estados Unidos mandaram o maior porta-aviões do mundo, e Caracas respondeu com a aprovação da lei de defesa integral”, informa. O texto, ele explica, “integra o exército com as milícias bolivarianas e cria comitês ao longo desses próximos três meses”.

Colômbia e Equador no radar

O jornalista também comentou a tensão entre os Estados Unidos e a Colômbia. “Ontem, [o presidente Gustavo Petro] anunciou que suspendeu todos os acordos de cooperação de inteligência de combate ao narcotráfico com os Estados Unidos”, diz. Ele lembra que “o Reino Unido também anunciou o fim da cooperação por não concordar com as ações de bombardeio.”

Já no Equador, o presidente Daniel Noboa tem tentado aprovar, por meio de um plebiscito, uma mudança constitucional que permitiria o retorno de bases militares estrangeiras, proibidas desde 2009, quando o país encerrou um acordo com os EUA. “A partir do momento que os Estados Unidos conseguirem estabelecer uma base militar em território equatoriano, é mais um elemento de pressão contra a Venezuela, contra a Colômbia, contra a região”, aponta Pannunzio.

O podcast O Estrangeiro vai ao ar toda quarta-feira às 11h no Spotify e YouTube.

Editado por: Luís Indriunas

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