Plano de paz

‘Melhores ideias de nova arquitetura financeira vêm da Rússia’, diz analista sobre impasse na guerra da Ucrânia

Disputa por US$ 300 bilhões congelados e planos rivais de EUA e UE travam negociação de paz na Ucrânia

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Imagem do presidente russo, Vladimir Putin, durante cúpula do BRICS, em Kazan, na Rússia.
Imagem do presidente russo, Vladimir Putin, durante cúpula do BRICS, em Kazan, na Rússia. | Crédito: Alexander Nemenov/AFP

As disputas entre os Estados Unidos e a União Europeia sobre o destino de mais de US$ 300 bilhões em reservas russas congeladas e o medo europeu de uma reaproximação com Moscou são hoje alguns dos principais entraves a um acordo de paz para a guerra na Ucrânia. A avaliação é do analista geopolítico Marco Fernandes, que vive em Moscou, em entrevista ao podcast O Estrangeiro, do Brasil de Fato.

Para ele, considerando o debate sobre a desdolarização e uma nova governança do sistema financeiro global, “a Rússia é de onde vem as melhores ideias”, sobretudo no âmbito dos Brics, com propostas como a Bolsa de Grãos, uma resseguradora própria e o sistema Brics Pay. “As melhores ideias estão vindo da Rússia até porque é quem mais precisa, junto com o Irã”, afirmou.

Para o analista, porém, a guerra limita a capacidade da Rússia de investir plenamente nessas iniciativas. Ele contou o relato de um encontro entre o presidente Vladimir Putin e um líder do Sul Global, durante o 9 de Maio, em Moscou. “Enquanto você estiver fazendo guerra, você não faz política externa, e você está fazendo falta. Precisamos da Rússia nos Brics, na Organização de Cooperação de Xangai; o Sul Global precisa de vocês. Acaba com essa guerra e volta logo porque você está fazendo falta”, teria dito ele.

Fernandes explicou que uma das grandes disputas de bastidor em torno do plano de paz apresentado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, diz respeito justamente às reservas russas que estão atualmente no Ocidente. A questão central é “o que vai ser feito com o maior roubo à mão armada, à luz do dia, da história da humanidade”, apontou, ao comentar uma matéria publicada na revista Foreign Policy. De acordo com ele, 86% dos ativos estão concentrados na Bélgica.

Segundo o analista, a Bélgica e os EUA têm projetos concorrentes para esse dinheiro. O país europeu discute usar parte dos recursos para emprestar à Ucrânia, apostando que uma futura “reparação de guerra” paga pela Rússia quitasse a dívida. Já o plano atribuído a Trump prevê destinar US$ 100 bilhões à reconstrução ucraniana e transformar os outros US$ 200 bilhões em um fundo de investimento conjunto entre os EUA e a Rússia.

Nesse contexto, Fernandes lembrou que a forma como o Ocidente lidou com as reservas russas já abalou a confiança de outros países no sistema financeiro europeu, citando o colapso do banco Credit Suisse. “Quando a UE e os EUA congelaram as reservas russas, os sauditas falaram: ‘Vocês agora vão roubar dinheiro desse jeito? Nós estamos fora’”, recordou. Para ele, a Bélgica teme virar alvo de ações judiciais e perder investimentos de países como a Arábia Saudita caso avance sobre o dinheiro russo.

Negociação territorial

Do lado russo, o correspondente do Brasil de Fato em Moscou, Serguei Monin, detalhou os pontos territoriais em discussão no rascunho de acordo. Segundo ele, o plano trabalhado hoje parte do reconhecimento de fato das regiões de Donetsk e Lugansk como parte da Rússia, enquanto outros locais continuariam congelados na linha de frente com zona desmilitarizada. Para ele, essa é “uma resolução bastante factível e realista, mas é muito difícil que a comunidade internacional as reconheça formalmente”.

Monin destacou que a Rússia ainda tem uma vantagem militar e usa cada avanço no campo de batalha para aumentar sua margem de negociação. “A Rússia continua a sua ofensiva militar sem alterar a sua dinâmica estratégica no campo de batalha porque cada vez que ela avança no território ucraniano, e tem avançado sobre as cidades estratégicas, a sua margem de negociação aumenta”, explicou. Diante disso, ele analisou que a postura do governo russo tem sido de cautela diante dos vazamentos sobre o plano de Trump.

Um dos principais pontos para a Rússia é a garantia de que a Ucrânia não entrará na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). De acordo com ele, essa parte é vista na Rússia como potencialmente aceitável, mas há uma forte resistência a cláusulas semelhantes ao artigo 5º da Otan, que permitiriam uma intervenção automática de outras potências em caso de um novo ataque russo. “É difícil imaginar que a Rússia aceite esse tipo de termo. Todos esses detalhes ainda vão ser amplamente negociados, por isso ainda sou um pouco cético em relação a uma resolução de curto prazo”, avaliou.

O podcast O Estrangeiro vai ao ar toda quarta-feira às 11h no Spotify e YouTube.

Editado por: Luís Indriunas

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