Agressão de Trump

Sem apoio interno, Trump arrisca repetir ‘atoleiro pior que o Vietnã’ na Venezuela, diz analista

Para Hugo Albuquerque, EUA usam ameaça de guerra como barganha, mas não têm força política ou militar para ocupar país sul-americano

Milhares de venezuelanos em marcha em apoio ao governo de Nicolás Maduro
Milhares de venezuelanos marcham em apoio ao governo de Nicolás Maduro | Crédito: Juan Barreto/AFP

A escalada militar dos Estados Unidos no Caribe não tem nada de “combate ao narcotráfico” e mira diretamente o governo do presidente venezuelano Nicolás Maduro e a correlação de forças no continente. Essa é a avaliação do analista geopolítico Hugo Albuquerque, entrevistado no podcast O Estrangeiro, do Brasil de Fato, ao lado do correspondente do BdF em Caracas, Pedro Pannunzio.

Para Albuquerque, “sem dúvida alguma, há um desacerto no gabinete atual americano e não há unidade nos Estados Unidos a respeito da guerra”, ao mesmo tempo em que “[Donald] Trump é um presidente muito impopular”, o que torna ainda mais arriscada a aposta em uma aventura militar contra a Venezuela.

Segundo o analista, Trump empoderou o senador republicano Marco Rubio e o setor neoconservador que historicamente defende intervenções militares, criando um instrumento de pressão externa que ele próprio criticava no passado. Albuquerque avalia que essa movimentação se insere numa atualização da lógica da Doutrina Monroe, agora reformulada pela Casa Branca e batizada de America First Doctrine.

Para ele, essa nova política recoloca a Venezuela no centro das barganhas geopolíticas dos Estados Unidos. “É como se fosse uma doutrina Monroe 5G”, define, em que Caracas funciona simultaneamente como uma ficha de negociação com a Rússia e como uma cortina de fumaça para as crises internas do governo Trump.

Albuquerque também lembrou que a ofensiva atual se apoia em anos de bloqueio econômico contra o país caribenho. “As sanções tiveram o objetivo de derrubar o governo, criar um mal-estar social, enfraquecendo o país”, afirmou, destacando que a medida “serviu para enfraquecer” o Estado venezuelano e abrir caminho para a ameaça de intervenção aberta. Ainda assim, ele não vê condições para uma ocupação prolongada. “Eu não vejo viabilidade para essa ocupação”, disse.

Se, mesmo assim, os Estados Unidos optarem pela guerra e encontrarem uma unidade entre o governo, o alto comando militar e a base popular, o analista acredita que o cenário pode ser catastrófico para os EUA. “Se ele [Trump] entrar e aquilo virar um atoleiro, vai ser uma coisa horrível. Aquilo [uma eventual invasão e ocupação militar contra a Venezuela] pode ser algo para os Estados Unidos muito pior que o Vietnã, talvez algo como o Afeganistão para a União Soviética”, indica, prevendo “uma ocupação demorada, trágica, gerando milhões de refugiados, criando antipatia à figura americana”.

Tensão crescente nos bastidores

De Caracas, Pedro Pannunzio relatou que a população segue a vida cotidiana com relativa normalidade, mas que a tensão cresce nos bastidores políticos e militares. “A pressão já está muito alta e essa nova manifestação de Trump entra nesse balaio das ameaças de Washington contra Caracas”, contou o jornalista, ressaltando que “existe, sim, alguma preocupação de que um ataque de fato possa ocorrer”. Segundo ele, desde a mobilização da frota estadunidense, o governo ativou planos de defesa, reforçou o alistamento nas milícias populares bolivarianas e integrou essas forças às Forças Armadas.

“Um cenário de uma eventual invasão dos Estados Unidos aqui enfrentaria uma resistência tremenda porque, nesses anos todos de governo, o chavismo conseguiu construir uma base fiel e disposta a lutar pela soberania do país e pela manutenção desse projeto político”, afirmou. Hoje, apontou Pannunzio, o número de alistados nas milícias “é de pouco mais de 6 milhões de alistados”, e lideranças comunais afirmam estar “preparadas para uma guerra longa, se for o caso”.

Na avaliação de Hugo, a Venezuela segue sendo um alvo central da disputa regional. Ele aponta o esforço dos Estados Unidos para cercarem o Brasil e a Colômbia com governos de direita e com novas bases militares, ao mesmo tempo em que tentam impedir projetos de infraestrutura ligados à China. Dentro dessa estratégia, argumenta, o chavismo é visto como um inimigo a ser neutralizado. “Eles têm a leitura que tem de esmagar a Venezuela porque é um polo de resistência muito poderoso”, apontou.

Diante da ameaça, o analista indica que “o futuro do chavismo, num primeiro momento, é resistir”. Superado o cenário de guerra e de sanções, o governo venezuelano terá que avançar “em direção a uma alguma forma de socialismo muito rápido” e a uma profunda reforma econômica. Caso contrário, ele avalia que corre o risco de se tornar apenas mais “uma força de esquerda meio comum”, diluída no sistema político venezuelano.

O podcast O Estrangeiro vai ao ar toda quarta-feira, às 11h, no Spotify e no YouTube.

Editado por: Geisa Marques

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