A ofensiva militar dos Estados Unidos e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) – da guerra na Ucrânia aos ataques no Caribe que miram a Venezuela – está empurrando a agenda de defesa para o foco dos debates do Brics. Na Cúpula Popular do bloco, realizada no Armazém da Utopia, na zona portuária do Rio de Janeiro, o professor Jonnas Vasconcelos, coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisa Brics da Universidade Federal da Bahia (NepBrics-UFBA), avaliou que essas questões, somadas à disputa financeira e à crise da governança internacional, formam hoje as principais preocupações do grupo.
“São as pautas mais urgentes da conjuntura, que é marcada por uma multiplicidade de crises: econômica, social, ambiental, e sobretudo do bloco imperialista liderado pelos EUA”, afirmou. Para ele, o papel dos EUA é o de uma potência em declínio que reage de forma cada vez mais agressiva, esvaziando os mecanismos multilaterais de mediação de conflitos, como a Organização das Nações Unidas (ONU). “Os EUA têm agido sistematicamente para boicotar, impedir a capacidade desses mecanismos de poderem mediar relações de conflitos, a partir de ações cada vez mais unilaterais, agressivas”, disse o pesquisador.
Vasconcelos lembrou que a violação do direito internacional aparece em diferentes frentes, do genocídio contra o povo palestino às ameaças à Venezuela, e defendeu que o Brics tem “um papel importante” em tentar constranger e barrar essas iniciativas. “É um desafio do momento. A Cúpula dos Povos tem o mérito de colocar essas questões em evidência, trazendo debate para a sociedade civil e, portanto, contribuindo para pensarmos nessas múltiplas crises que a humanidade hoje enfrenta”, avaliou.
A Cúpula Popular do Brics no Rio reuniu movimentos e organizações de 21 países do Sul Global para discutir como o bloco pode responder à chamada “Ordem Antiga”. No evento, o jornalista Breno Altman defendeu que o Brics se reconheça como um campo político de resistência às ameaças vindas do Ocidente e que o debate avance para “construir uma possibilidade de resistir” a esse avanço militar e econômico.
Um dos organizadores da Cúpula Popular e membro do Conselho Civil Popular do Brics, o analista geopolítico Marco Fernandes reforçou que a participação da sociedade civil é uma condição para que o bloco tenha legitimidade. “Por isso que assumimos esse compromisso de construir o Conselho Civil Popular do Brics no Brasil em conjunto com nossos parceiros, colegas em todos os países do Brics”, explicou.
Ele destacou ainda a conjuntura favorável da presidência brasileira do bloco. “Foi um ano interessante, demos sorte também porque foi o ano da presidência brasileira e o presidente Lula aposta bastante nessas iniciativas populares e no no diálogo da sociedade civil com os governos em plataformas multilaterais”, apontou.
Desdolarização
A disputa geopolítica também gira em torno da desdolarização e de novas formas de pagamento entre países do Sul. Fernandes citou como exemplo a integração de sistemas semelhantes ao Pix em países asiáticos e defendeu que o Brics avance em soluções concretas para reduzir a dependência do dólar no comércio.
“Significa que é um Pix regional. Então, eu tenho uma conta na China, eu vou para para Tailândia, Indonésia e, com o celular, eu pago as coisas nesses países com a minha conta de banco. Eu não preciso trocar por dólares. Na troca, você perde dinheiro e falta praticidade”, exemplificou.
Para o analista, o próprio discurso oficial do Brics já admite que a desdolarização é uma necessidade econômica, além de política. “Não é porque somos contra o dólar, é porque é mais barato, abaixa os custos das operações. Do ponto de vista econômico, é melhor desdolarizar, aos poucos, evidentemente. Isso vai ser um processo de muitos anos, mas quanto mais operações você fizer em moedas locais, menos custos essas operações vão ser”, analisou Fernandes.
Ele também apontou limites das instituições já criadas pelo bloco, como o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), presidido pela ex-presidente da República Dilma Rousseff, e o Arranjo Contingente de Reservas, concebido como alternativa ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Fernandes lembrou que o volume de empréstimos ainda é pequeno diante das necessidades do Sul Global.
“O banco, no ano passado, só desembolsou menos de US$ 3 bilhões em financiamento para projetos. Isso não é nada, é dinheiro de pinga para um banco do Sul Global”, criticou, defendendo mais recursos e uma “vocação popular” para o banco, com acesso a cooperativas e organizações de trabalhadores.
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