No dia 31 de dezembro, completam-se 222 anos da independência do Haiti, um evento de profunda repercussão e importância. Foi o primeiro país a conquistar uma revolução de independência nas Américas: uma independência anticolonial e anti-escravagista. Uma revolta de escravizados que conseguiu dar um basta ao projeto colonial francês de ninguém menos que Napoleão Bonaparte.
A correspondente do Brasil de Fato no Haiti, Cha Dafol, relembra que, comparando com o 7 de setembro no Brasil, ambos países tiveram processos muito diferentes. O Haiti foi o segundo país independente das Américas – depois dos Estados Unidos –, mas o primeiro que conquistou a independência por uma revolta de pessoas escravizadas. “É uma data muito importante apesar de todas as dificuldades que o país viveu depois”, pontua.
“A soupe joumou (sopa de abóbora) é muito simbólica. Primeiro, porque essa questão da solidariedade na cultura haitiana continua muito presente. E a soupe joumou era justamente um prato que era restrito à elite branca na época da colonização, ao qual as pessoas escravizadas não tinham acesso. E, na verdade, quem a popularizou depois foi a esposa do Jean-Jacques Dessalines, que foi uma das grandes lideranças da independência do Haiti”, explica.
Outro ponto é a presença de Marie-Claire Heureuse, que acompanhava Dessalines nas batalhas, “inclusive tem um papel muito importante das mulheres no Haiti, que é um papel silenciado também na história”, acrescenta. Além de combater ao lado dele, ela era também enfermeira, e acreditava muito no valor nutritivo dessa sopa, que era muito saudável, e quando podia, dava também para os soldados.
“Foi ela que propôs, quando o país se tornou independente no primeiro de janeiro, popularizar essa sopa, que era um prato de rico, de branco, mas que na verdade era um prato saudável e que todo mundo teria que ter acesso. Então, além disso, tem essa questão do reconhecimento das mulheres também na questão da soupe joumou. É um símbolo muito forte da independência do Haiti, da luta do povo haitiano e da igualdade de acesso também. E até hoje, até a nova geração, isso continua”, pontua.
Intervenção internacional e segurança no Haiti
Cha Dafol relembra que a capital Porto Príncipe, onde se concentra todo o centro administrativo, está de fato tomada por gangues. Os próprios poderes políticos não podem acessar o palácio do governo e esses lugares. E não é por acaso: tem muito controle das gangues também em bairros populares. “E principalmente, o que mais atrapalha a vida do país é a questão das estradas. As principais estradas do país estão controladas por gangues, às vezes completamente bloqueadas. Isso atrapalha muitíssimo a vida no dia a dia”, explica.
Em paralelo, em outros lugares do país, até mesmo regiões dentro da capital, “as coisas estão funcionando normalmente”, pontua. “A complexidade acontece porque tem muitas questões estruturais: não tem um estado presente, tem muita dificuldade de acesso à luz, à água, não tem estradas decentes praticamente”, acrescenta.
Segundo a especialista, o caos é politicamente orquestrado pelos Estados Unidos. Basicamente, desde o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em seguida, foi o primeiro-ministro quem assumiu, “e vieram mais ondas de violência”.
“Não é um acaso se essa violência das bandas armadas, das gangues, acontece principalmente nos bairros populares que mais têm consciência política, que mais vão às ruas para defender seus direitos. Então, tem uma lógica de opressão também dos movimentos populares no Haiti através das gangues , que funcionam como braços armados de uma elite local associada aos interesses estrangeiros”, posiciona.
Os movimentos sociais haitianos, populares, são “absolutamente contra essas ocupações militares” do Haiti, que são patrocinadas pela Organização das Nações Unidas (ONU), que na verdade são bancadas pelas mesmas potências (notadamente EUA, França e Canadá) que historicamente fomentam a instabilidade no Haiti.
“É impossível separar a questão interna do Haiti com as questões internacionais, com a ingerência. Então, acho que a grande pauta, o que pedem os movimentos populares, é a soberania: é poder decidir o que vai acontecer com o país, que o povo seja soberano. Enquanto houver ingerência dos Estados Unidos, da França, do Canadá, de outras potências – com ocupações militares, com acordos com as elites financeiras e políticas –, não vai ter saída dessa crise. É simples assim”.
A jornalista reitera que os movimentos populares estão pedindo solidariedade internacional e não intervenção. “Solidariedade, como o MST está fazendo agora no Haiti; solidariedade dos povos, solidariedade dos países do Sul”, acrescenta.
“Então, acho que a grande pauta é a soberania. E obviamente: parar com o massacre da população, implementar políticas sociais verdadeiras, verdadeiras políticas de segurança que não passem pelo massacre da população. São essas linhas”, conclui.
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