O sequestro de Nicolás Maduro em 3 de janeiro; a incitação deliberada a um golpe de Estado no Irã; as ameaças cada vez mais intensas à Groenlândia. Às portas de completar o primeiro ano de seu segundo mandato, Donald Trump mostra que a sanha imperialista é uma das marcas que quer deixar nessa passagem pela Casa Branca. Entretanto, isso não é novo. Embora seja mais verborrágico que a maioria de seus antecessores, Trump apenas resgata uma antiga tradição dos Estados Unidos, segundo o pesquisador Anderson Barreto, do Instituto Tricontinental.
Barreto participou da edição desta semana do podcast O Estrangeiro, do Brasil de Fato, e, em conversa com os apresentadores Lucas Estanislau e Rodrigo Chagas, apontou semelhanças entre as ações e ameaças do atual presidente dos EUA com as realizadas por outros ocupantes da Casa Branca, sejam filiados ao partido Republicano (o mesmo de Trump) ou o Democrata (a oposição consolidada no sistema bipartidário do país).
Think tanks, veículos da imprensa hegemônica e setores do prório governo dos Estados Unidos usam hoje o termo “regime change” (“mudança de regime”, na tradução para o português) para descrever a derrubada de governos em outros países. Apesar de eventuais mudanças de nomenclatura ou de diferentes métodos adotados, há padrões perceptíveis.
“Regime change, mudança de regime, basicamente consiste em você derrubar governos e colocar no lugar governos mais favoráveis. Ou mesmo deixar que o país se desestruture. Foi o que a gente viu, por exemplo, na Líbia e o que a gente está vendo na Síria, hoje”, comparou. “Podemos pegar dos anos 90 para cá: o que aconteceu na Iugoslávia, no Iraque, no Afeganistão, Ucrânia, Líbia, Síria, enfim, a lista é longa”.
Algo comum a todos esses países: o tal regime change não trouxe nada positivo. Houve mortes, crises econômicas, sofrimento para as populações. Tudo com a conivência de diversos setores.
“Eu acho que isso é um dos maiores problemas, um dos maiores crimes, não só da mídia, que cumpre um papel porque também recebe para isso, mas determinados ditos especialistas, analistas, acadêmicos, que de maneira irresponsável ficam defendendo esse tipo de postura”, apontou.
O caso do Irã é emblemático. Enquanto os Estados Unidos vivenciam uma onda de protestos contra o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês), o governo Trump não esconde que incentiva o caos no país do Oriente Médio em busca de derrubar o regime local.
“Eu fico imaginando se o regime iraniano dissesse: ‘Vão lá, cerquem a Casa Branca, logo estaremos bombardeando os Estados Unidos para ajudar vocês aí contra o ICE’. Seria um escândalo global”, comparou Barreto. “E esse caso do Irã é muito profundo, porque além de produtor de petróleo, hoje o Irã é um grande ator global junto dos Brics, está na Organização de Cooperação de Xangai, tem parcerias estratégicas com a Rússia, com a China”.
Outro país que nunca deixou de estar na alça de mira dos Estados Unidos, Cuba sofreu diretamente os impactos do sequestro de Maduro. Pelo menos 32 cidadãos do país que faziam parte da equipe de segurança do presidente venezuelano foram mortos em 3 de janeiro. O correspondente do Brasil de Fato em Cuba, Gabriel Vera Lopes, que também participou de O Estrangeiro nesta quarta, afirmou que o sentimento no país é de tristeza e preocupação.
“O ataque contra a Venezuela é também um ataque contra Cuba, pelo que representam os dois países, os dois processos políticos revolucionários do continente. Nos próximos dias nós vamos conhecer mais detalhes sobre o que aconteceu, mas é fato que o ataque dos Estados Unidos também procurou matar os cubanos que estavam na Venezuela. Na conferência de imprensa que Trump concedeu no mesmo no mesmo dia, no sábado [3], ele falou que os cubanos não deveriam que estar ali”, lembrou. “Foi uma mensagem também sobre o que os Estados Unidos estão fazendo”.
Para ouvir e assistir
O podcast O Estrangeiro vai ao ar toda quarta-feira, às 15h, no Spotify e no YouTube.
