Os terremotos que provocaram uma tragédia sem precedentes na Venezuela — deixando mais de 2 mil mortos, cerca de 10 mil feridos e dezenas de milhares de desaparecidos — geraram uma resposta humanitária e solidária de diversos países, que seguem enviando todo o tipo de ajuda. Contudo, o prazo para reconstrução e recuperação da nação ainda é imprevisível.
A difícil situação não decorre apenas do violento fenômeno natural, mas também de uma agressão política: as sanções e bloqueios impostos pelos Estados Unidos, que jogaram o país em uma crise histórica, minando aspectos econômicos e dificultando o acesso a equipamentos e tecnologias de resgate essenciais.
As consequências dos terremotos para a Venezuela e os próximos passos no processo de recomposição social e de infraestrutura são os temas discutidos no episódio de O Estrangeiro, videocast de política internacional do Brasil de Fato.
Para o jornalista Ricardo Vaz, correspondente na Venezuela, o país não tem estrutura para suportar e dar uma resposta tão rápida ao grau de catástrofe gerado pelos tremores, e o impacto das sanções estadunidenses ao país fica mais evidente no atual cenário. “Temos de ter em conta que, antes desse desastre, houve, há 10 anos, outro ‘desastre’, que foi o bloqueio econômico dos Estados Unidos”, recorda.
Cabe destacar que, em 2015, na gestão Barack Obama, as sanções se aprofundaram. Mas, desde antes, o país já era alvo de perseguição e bloqueios.
“Em um contexto de bloqueio econômico, é muito difícil conseguir recursos. Até importar uma caixa de aspirina é muito complicado porque, tecnicamente, os EUA não levantaram as sanções. O que eles fazem é emitir uma licença que diz: ‘Essa empresa, essas pessoas estão isentas dessas sanções’. É uma forma de controlar e usar as sanções como armas para decidir quem pode entrar e quem não pode”, conta. “A Venezuela tem entre US$ 11 e US$ 13 bilhões de ativos congelados nos Estados Unidos.”
Segundo o jornalista, o governo Trump e países europeus estão usando “o desastre para fazer relações públicas, como se realmente estivessem interessados no bem-estar do povo venezuelano, quando, em verdade, eles são os principais responsáveis, não só pelo sofrimento nos últimos anos, mas pela vulnerabilidade com que se chegou a este desastre”.
De onde vem a ajuda
O trabalho das comunas e a essência solidária do povo venezuelano têm sido fundamentais para ajudar em uma resposta que o Estado não consegue dar por completo. “As comunas, no fim do dia, como têm essa penetração no terreno, estão mais preparadas, sabem onde estão as necessidades e no meio de todas estas situações difíceis”, diz Vaz.
O historiador e analista geopolítico Miguel Stédile traz para o debate a situação de fragilidade do governo interino Delcy Rodriguez, que, desde o sequestro do presidente Nicolás Maduro, governa o país sob muita ingerência dos Estados Unidos. Stédile lembra que, embora os EUA tenham flexibilizado algumas sanções após a tragédia, a Venezuela sofre bloqueios de outras economias, como a União Europeia.
“A postura da União Europeia em relação a essa tragédia continua sendo a mesma de 500 anos, de total indiferença, insensibilidade, que a gente vê inclusive pela lista dos países que estão prestando solidariedade. Quando a gente olha quais são os países que estão atuando, México e Chile, que são dois experts nesse tipo de tragédia, o Brasil que atendeu rapidamente, mesmo El Salvador e Nicarágua, mas, de fato, a solidariedade europeia se limita às armas para a Ucrânia”, critica.
Segundo o analista, a Venezuela viveu por mais de uma década com as sanções e ainda sofre os impactos disso. “Aquela escavadeira que você precisa para mexer nos escombros, ela não tem que vir agora, ela já devia fazer parte da frota. Você tem uma série de médicos, de arquitetos, de engenheiros que deixaram o país durante a crise humanitária. Não adianta a gente olhar para as sanções especificamente nessa uma semana pós-tragédia”, afirma.
Vivenciando os terremotos
Vaz destaca que o episódio suscitou uma série de emoções nas pessoas que vivem na Venezuela e que tem sido desafiador realizar o trabalho jornalístico. “Contudo, é o nosso dever, principalmente quando há tanta desinformação na grande mídia”, relata.
O jornalista lembra dos momentos dos dois abalos sísmicos, ocorridos há exatamente uma semana, e afirma que até hoje tem dificuldade de descrever exatamente como foi a sensação de testemunhar os terremotos.
“Todo mundo que sentiu ficou muito abalado. E outros pequenos abalos aconteceram de lá para cá. Algumas pessoas sentem, outras não. E também é um efeito psicológico. Não sou só eu, falei com outras pessoas. Às vezes eu sinto que está a tremer, que as pernas tremem, mas não, é só psicológico. Tem um componente de trauma coletivo que vai ser preciso superar”, avalia, ao destacar que, diferente de outros países como o Chile, a Venezuela não está acostumada com os sismos.
Para ouvir e assistir
O podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas-feiras às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.
