Catástrofe

‘Parecia que não ia terminar nunca’: venezuelanos relatam momentos de pânico durante terremotos

Abalos sísmicos de magnitude 7,2 e 7,5 atingiram principalmente o estado de La Guaira, declarado zona de desastre

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Moradores procuram vítimas nos escombros de um prédio que desabou em Catia La Mar, estado de La Guaira, a cerca de 30 km a noroeste de Caracas, em 25 de junho de 2026
Moradores procuram vítimas nos escombros de um prédio que desabou em Catia La Mar, estado de La Guaira, a cerca de 30 km a noroeste de Caracas, em 25 de junho de 2026 | Crédito: Juan Barreto/ AFP

“Parecia que não ia terminar nunca.” A sensação descrita ao Brasil de Fato pelo sociólogo e jornalista Wilman Verdú, morador de Caracas, capital da Venezuela, é compartilhada por milhares de venezuelanos que viveram os momentos de pânico provocados pelo duplo terremoto que atingiu o país na noite de quarta-feira (24).

Os tremores de magnitudes 7,2 e 7,5 deixaram ao menos 188 mortos, mais de 1,5 mil feridos e provocaram destruição em diversas regiões do país, especialmente no estado costeiro de La Guaira.

Os abalos ocorreram por volta das 18h e tiveram epicentros nos estados de Carabobo e Yaracuy, na região centro-norte do país. Desde então, mais de 40 réplicas foram registradas, segundo informações do governo.

Em Caracas, Wilman Verdú estava em casa quando percebeu os primeiros sinais do terremoto. Morador de um edifício construído na década de 1950, na comunidade 23 de Enero, na comuna El Panal, ele conta que inicialmente sentiu uma vibração leve.

“Eu me levantei da cadeira e disse: ‘Está tremendo’. Mas, de repente, a terra começou a se sacudir literalmente. O chão se levantava, toda a estrutura vibrava, as luminárias batiam umas nas outras e objetos caíam das bancadas”, relembra.

Segundo ele, o aspecto mais impressionante foi a duração do fenômeno. “Sentimos que era muito prolongado. Houve uma pausa de cerca de 30 segundos e depois voltou com ainda mais força.”

O fotógrafo Miguel Alfonzo também viveu horas de apreensão. No momento do terremoto, ele trabalhava enquanto a esposa e o bebê estavam em casa, no 21º andar de um edifício.

“Foi fortíssimo. Felizmente, para nossa família, ficou apenas no susto”, conta ao Brasil de Fato.

O jornalista Wilman Verdú relata que, após os tremores cessarem, moradores do conjunto residencial desceram para os estacionamentos e áreas abertas, onde muitas famílias permaneceram durante a noite.

“Cerca de 2,5 mil pessoas saíram dos prédios e permaneceram nos estacionamentos e nos campos de beisebol da região. Algumas pessoas amanheceram dentro dos carros. Muitas famílias preferiram passar a noite fora dos edifícios”, conta.

Moradores sentam-se ao lado de seus pertences, perto de um carro, enquanto se abrigam em uma rua após o terremoto em Catia La Mar, estado de La Guaira, a cerca de 30 km a noroeste de Caracas, em 25 de junho de 2026.
Moradores sentam-se ao lado de seus pertences, perto de um carro, enquanto se abrigam em uma rua após o terremoto em Catia La Mar, estado de La Guaira, a cerca de 30 km a noroeste de Caracas, em 25 de junho de 2026. | Crédito: Federico Parra / AFP

Apesar do susto, o local onde Verdú mora não registrou vítimas nem danos estruturais graves. Segundo ele, houve apenas fissuras em revestimentos e pequenos danos materiais. Ainda assim, o medo permanece.

“Basta o chão dar qualquer sinal de movimento para as pessoas descerem imediatamente dos apartamentos”, diz.

La Guaira concentra destruição

A cerca de 40 minutos de Caracas, o estado de La Guaira se tornou o principal símbolo da tragédia. A região costeira, onde fica o principal aeroporto internacional do país, foi declarada zona de desastre pelas autoridades venezuelanas.

Em localidades como Catia La Mar e Caraballeda, dezenas de edifícios desabaram ou sofreram graves danos estruturais. Equipes de resgate continuam trabalhando entre os escombros em busca de desaparecidos, enquanto moradores tentam localizar parentes e recuperar pertences.

“Foi terrível. Tudo, tudo desabou”, disse à AFP a moradora Yilsmaris Blanco, enquanto observava a destruição em Catia La Mar. “Damos graças a Deus porque estamos vivos, mas há pessoas sofrendo com familiares soterrados e presos sob os escombros.”

A tragédia deixou milhares de pessoas sem moradia. “Não temos nada. Agora não temos nada”, relatou Larry Rojas, morador da região. “Nem sequer temos coragem para entrar ali.”

Uma vista mostra prédios desabados em uma encosta com vista para o mar após um terremoto em Catia La Mar, estado de La Guaira, a cerca de 30 km a noroeste de Caracas, em 25 de junho de 2026.
Uma vista mostra prédios desabados em uma encosta com vista para o mar após um terremoto em Catia La Mar, estado de La Guaira, a cerca de 30 km a noroeste de Caracas, em 25 de junho de 2026 | Crédito: Juan Barreto / AFP

Solidariedade

Enquanto as equipes oficiais atuam nas áreas mais afetadas, comunidades organizadas têm ajudado no atendimento às vítimas. Em diferentes regiões de Caracas e arredores, moradores montaram redes de apoio para distribuir água, alimentos e cobertores, além de auxiliar na evacuação de pessoas em áreas de risco.

Em bairros populares e comunidades da região metropolitana, vizinhos organizaram mutirões para remover escombros, localizar desaparecidos e acolher famílias que perderam suas casas.

Governos de diversos países também se prontificaram a enviar ajuda humanitária para a Venezuela. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), manifestou solidariedade ao país e afirmou que o governo brasileiro avalia, junto à embaixada em Caracas, formas de apoiar as ações de recuperação.

China, Rússia, Cuba, México, França, Itália e Estados Unidos também anunciaram apoio ou colocaram equipes e recursos à disposição das autoridades venezuelanas. A União Europeia ativou o sistema de monitoramento por satélite Copernicus para auxiliar nas operações de busca e salvamento.

A Organização das Nações Unidas (ONU) classificou a tragédia como uma emergência que exigirá um “esforço coletivo massivo” da comunidade internacional para apoiar as ações lideradas pelo governo venezuelano e atender as populações afetadas.

Diante da magnitude dos danos, a presidenta interina Delcy Rodríguez decretou estado de emergência nacional e anunciou a criação de um fundo de US$ 200 milhões, com recursos do Fundo Monetário Internacional (FMI), para apoiar a reconstrução de infraestrutura e moradias destruídas pelos terremotos.

Editado por: Geisa Marques

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