“A língua é tudo, é o que nomeia a nossa vida”, destaca o cantor, compositor e produtor musical Lucas Santtana à respeito das inspirações e motivações para a criação de Brasiliano, disco lançado neste mês de março, com intuito não só apenas de explorar sua musicalidade em canções gravadas em outros idiomas, mas também com a intenção de evidenciar como “é muito melhor ser brasileiro do que ser qualquer outra coisa.”
No episódio do Sabe Som?, podcast apresentado por Thiago França, o multi-instrumentista Lucas Santtana parte dessa pergunta para apresentar esse trabalho que atravessa música, história e identidade a partir da forma como o Brasil fala. No episódio, a reflexão também ganha dimensão política. Para Santtana, reconhecer uma língua brasileira é também afirmar um lugar no mundo. “Se a gente assume que a nossa língua é uma língua brasileira, imediatamente a gente salta para as línguas mais faladas do mundo. Isso é soft power, isso é geopolítica.” E completa: “É uma coisa de soberania.”
Ao longo das onze faixas, Santtana passeia por canções com letras em italiano, espanhol, francês, e obviamente o nosso português, que Venttana reforça a importância e a necessidade de ser rebatizada para “língua brasileira”, uma vez que, apesar da colonização portuguesa nós “temos um imenso vocabulário indígena, que a gente usa corriqueiramente e que a gente nem sabe que usa!”
“Nosso povo vem de um encontro, mesmo que forçado, entre portugueses, indígenas e africanos, mas a nossa língua é só portuguesa? Está errado isso aí. Se a gente se reconhece dentro de uma cultura brasileira, lembrando que a língua é a base de qualquer cultura, e nós nos reconhecemos num cinema brasileiro, numa música brasileira, numa culinária brasileira, numa literatura brasileira, numa arquitetura brasileira, a nossa língua é portuguesa? Epa, tem alguma parada estranha aí!”, sublinha Santtana.
Durante o processo de criação de Brasiliano, o compositor recorda que buscava inspirações para o novo disco, e que após uma conversa com seu filho aprimorou e aprofundou a ideia de compreender as “maneiras de se falar o latim.”
“Quando eu me toquei que ia fazer meu décimo disco e 25 anos de carreira, pensei: preciso de um disco celebrativo. Mas não tinha um assunto. Aí, morando na França, meu filho falou sobre ‘romance languages’ e aquilo me deu a chave. Eu comecei a pesquisar e percebi que a história da nossa língua é linda, complexa, cheia de encontros.”
Apesar de compreender e enaltecer a pluralidade da música brasileira, inclusive ao recordar das vezes que tocou ao lado de Gilberto Gil, carinhosamente apelidado como “professor”, Santtana destaca sobre os caminhos tortuosos pelos quais a música nacional vem percorrendo nos últimos anos.
Segundo o cantor, “a música popular brasileira foi completamente cooptada pela publicidade”, dado não só pelas formas de compor, lançar, e consumir música nos tempos contemporâneos, mas também por conta da privatização e elitização de espaços e meios musicais, dado a inércia do Estado em não enaltecer e incentivar os artistas brasileiros.
Para Santtana, “o privado não pode sobrepor o Estado”, visto que eventos públicos, como por exemplo o carnaval, estão a cada vez mais dominados por megaempresas e patrocinadores, sendo que “a marca pode estar lá, a questão é saber manter o equilíbrio”, e faz questão de reforçar a importância das manifestações culturais através do som, uma vez que a “música popular brasileira é um negócio muito importante para o país!”
O podcast Sabe Som? vai ao ar toda sexta-feira, às 15h, e está disponível nas principais plataformas de áudio, como Spotify e YouTube Music.
