Dos encontros nos corredores da Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp), passando por indicações para compor as chamadas “gigs” até decidirem seguir juntos a caminhada como um casal, é dessa forma que Grazi Pizani e Pedro Moreira formaram a dupla Os Bicudos. Ela, trompetista e cantora. Ele, trombonista, percussionista e cantor.
A dupla foi a convidada do episódio desta semana do podcast Sabe Som?, apresentado por Thiago França. Eles contam que, nos idos de 2018 e 2019, começaram a publicar vídeos nas redes sociais. Mas antes, já flertavam musicalmente nas apresentações em big bands. “Nessa época, a gente fazia parte da Big Band do Paulinho Malheiros. E a gente sempre se chamava pra tocar nos trabalhos, e compunha junto, e gravava arranjinho, e começava a experimentar aquela coisa ali do som mesmo, do naipe. Quando você vai ensaiar o naipe, você chega em casa, você para com o amigo: ‘Chega aí em casa, vamos passar essa parada aqui’. Isso foi criando essa vontade de sempre estar junto”, relata.
“É legal de falar disso, porque tecnicamente é muito diferente você tocar num naipe e você tocar sozinho, né? Você toca, solando. No naipe é tudo junto”, complementa Thiago França.
“E até o sopro, o timbre que você tira junto com outra pessoa muda. A afinação, porque a gente toca um instrumento que não é temperado, né? Parece que é, mas não é. Então, às vezes a gente tem uma afinaçãozinha, uma notinha que é mais alta, outra que é mais baixa, naturalmente. A nossa afinação íntima, né? E aí, quando a gente tá em naipe, a gente desenvolve uma terceira coisa. Isso foi ficando tão rápido e fácil pra gente junto, desde que a gente se conheceu. E aí a gente começava. Pra onde a gente tocava, ia fazer gig por aí, precisava de um trompete, ele chamava a mim. E eu precisava de um trombone, indicava ele e a gente começou a tocar cada vez mais e mais junto. Por aí. E foi ficando cada vez mais azeitada essa coisa. Aí nos casamos. E aí veio a ideia de a gente começar mesmo a fazer um som juntos”, acrescenta Grazi Pizani.
Em 2022, a dupla lançou o primeiro álbum autoral “O Levante“, que une o trombone e o trompete ao canto e à percussão, criando um espaço de experimentação que foge do virtuosismo isolado para focar no trabalho coletivo e na pluralidade artística.
Pedro Moreira também conta sobre sua origem na percussão e a relação com a escola de samba Camisa Verde e Branco, e como acabou indo para o estudo do trombone. “Minha família toda vem do Camisa Verde e Branco, desde a minha avó, a geração toda. O lance do Tobias, meu irmão apadrinhado ali pelo Tobias. E aí eu cresço nessa escola, aprendo a percussão já em casa. Mas aí eu falo: ‘Putz, aqui eu já entendi. Pra onde mais que dá pra ir?’ É a hora em que eu me desvencilho e falo: ‘Pô, quero um trombone’. Já ouvindo aqueles discos do Cartola e tudo mais. Começo a me atentar para uma metaleira que é o som do trombone”, lembra.
Grazi Pizani conta de suas incursões pelo carnaval, pelas rodas de samba e de choro e o caminho até surgir Os Bicudos. “Fizemos show pra caramba. E eu fui indo para as rodas de samba, roda de choro. Fui pro Ó [do Borogodó], fui pra boemia da vida, que me deu muita bagagem também. Fora que a gente também estudava formalmente jazz, MPB, vamos dizer assim, na Escola de Música de São Paulo. Isso aí foi nos dando uma bagagem que a gente falou. Pô, vamos fazer alguma coisa com isso, assim. Porque realmente a gente tinha uma necessidade de juntar isso, de expressar isso de alguma forma concreta. Acho que Os Bicudos foi isso, uma criação de um espaço que a gente pudesse trabalhar e ser criativamente quem a gente queria ser e explorar a nossa musicalidade”, relata. “Como disse o Douglas Germano uma vez, somos inquietos”, completa Pedro Moreira.
Os Bicudos falaram do novo álbum autoral, que se diferencia do primeiro por ser quase inteiramente composto por canções com letras escritas por eles, além de incluir músicas compostas a partir de um violão que ganharam no prêmio Sarau Brasilis em 2025. O novo projeto contará com uma participação especial do cantor Zeca Baleiro e os novos repertórios já começarão a ser apresentados em shows no formato de baile. Um deles, já marcado no Sesc Bom Retiro no dia 20 de junho.
O podcast Sabe Som? vai ao ar toda sexta-feira às 15h e está disponível nas principais plataformas de áudio, como Spotify e YouTube Music.
Ouça o episódio do podcast abaixo:
