Até o fim de janeiro, Brasília (DF) vive em ritmo lento, já que o recesso parlamentar só termina em fevereiro. Logo depois da retomada das atividades vem o Carnaval, e é provável que a capital só volte a fervilhar após a quarta-feira de cinzas, que neste ano cai em 18 de fevereiro. E, quando o ano enfim “pegar no tranco”, as atividades no Congresso serão guiadas por um objetivo comum: as eleições de outubro.
Na edição desta semana do podcast Três por Quatro, do Brasil de Fato, o âncora Igor Carvalho, o cientista político Rudá Ricci e o jornalista Leonardo Fernandes, correspondente do BdF em Brasília, projetaram o cenário para um ano que começou com ruídos entre o governo federal e o Congresso, após o veto presidencial ao Projeto de Lei da Dosimetria, que reduzia as penas de golpistas, e que terá a disputa presidencial e pelas vagas na Câmara, no Senado, nas assembleias legislativas e nos governos estaduais como grande momento.
Conhecedor dos meandros de Brasília, Leonardo Fernandes destacou que o ano eleitoral pauta as atividades do Congresso desde o início do ano. Já a partir de fevereiro, as pautas discutidas pela Câmara e o Senado vão caminhar de acordo com as agendas de campanha.
Do lado governista, é esperada uma grande reforma ministerial: mais de metade dos titulares das pastas devem deixar os cargos nos próximos meses para se dedicar ao projeto eleitoral. O prazo para descompatibilização do serviço público para quem deseja concorrer nas eleições é em 6 de abril. Ou seja, a partir desse momento, figuras relevantes do primeiro escalão devem voltar a ocupar seus cargos no Congresso.
“Vai ser interessante ver, por exemplo, Sonia Guajajara, ministra dos povos indígenas; Gleisi Hoffman, que tem uma importância fundamental no núcleo político do Partido dos Trabalhadores; Marina Silva, ministra do meio ambiente; retomando seus mandatos parlamentares no Congresso Nacional para disputar as eleições”, apontou o correspondente. As três ministras citadas têm mandatos como deputadas.
Os arranjos e alianças eleitorais devem motivar, ainda, a aproximação de alguns setores e políticos que se mantiveram afastados do governo, especialmente na região Nordeste, onde Lula segue com forte apoio. Por outro lado, os partidos que tentam viabilizar candidaturas de oposição ao petista devem radicalizar seus discursos já nos primeiros meses do ano parlamentar.
Segundo Rudá Ricci, a pressão perante o governo será grande para liberação de “todas as emendas que forem possíveis” ainda no primeiro semestre do ano. E isso virá, também, de parlamentares que já compõem a base aliada e que buscarão novos mandatos.
“Nós não estamos falando só deputado do baixo clero da direita, estamos falando também da esquerda. Não existe essa história de emenda parlamentar e baixo clero funcionar só na direita. Ele já está instalado na República”, disse o cientista político.
Passado o primeiro semestre, o foco será total no processo eleitoral. Para Leonardo Fernandes, é possível que haja a aprovação de normas para que os parlamentares votem à distância, para que sigam em seus territórios fazendo campanha.
“Ou seja, toda a atividade importante do Congresso em 2026, a gente vai acompanhar até o meio do ano. Depois, definitivamente, [os parlamentares] entram em campanha”, resume o correspondente.
O processo eleitoral, aliás, será alvo de grande preocupação. Rudá Ricci aponta que as chamadas big techs já indicaram que vão agir para interferir no processo eleitoral brasileiro, assim como no da Colômbia, outro país sul-americano que elegerá presidente em 2026.
“Eles vão entrar com tudo. E uma das coisas que eles vão fazer é trabalhar o olhar com o que se chama de metapolítica. Eles localizam os interesses da gente: eles mandam mensagens completamente fragmentadas para o nosso celular, para os nossos grupos de discussão, vinculando nossos interesses a um tema meio distante da política. Portanto, não está falando de política, mas está nos induzindo pouco a pouco a falar de política”, resumiu.
O especialista lembrou um caso registrado em 2022, quando o então candidato Lula foi à bancada do Jornal Nacional, da TV Globo, para uma entrevista. Uma imagem da jornalista Renata Vasconcellos usando um sapato vermelho passou a circular em grupos, indicando uma possível simpatia da apresentadora pelo petista. A imagem, porém, era falsa.
“O pessoal das fake news fez um círculo ao redor do sapato [vermelho]. Não escreveu nada, mandou para grupos de mulheres que gostam de comprar bolsa, acessório, sapato. Acontece que o sapato dela não era vermelho. Eles falsificaram a foto. Era um sapato marrom claro, caramelo. O jornal O Estado de S. Paulo descobriu isso, e foi só para grupo de WhatsApp. Não foi para plataforma que todo mundo acessava. É isso que vai acontecer esse ano, entende?”.
Para ouvir e assistir
O videocast Três Por Quatro vai ao ar toda terça-feira às 15h ao vivo no YouTube e nas principais plataformas de podcasts, como o Spotify.
