Estabilidade

Ano eleitoral no Brasil: o que Lula pode mostrar na economia?

Economistas e liderança do MST analisam cenário econômico em ano eleitoral e desafios para transformar indicadores em melhoria de vida para classe trabalhadora

Os números contam uma história, mas qual projeto de país está sendo disputado?
Os números contam uma história, mas qual projeto de país está sendo disputado? | Crédito: Ricardo Stuckert / PR

O ano eleitoral de 2026 chega ao Brasil com um cenário macroeconômico aparentemente mais estável: inflação controlada, desemprego em queda, formalização do trabalho em alta e o mercado começando, pela primeira vez em meses, a reduzir as projeções para a taxa de juros. Mas se os indicadores melhoraram, por que a percepção social ainda parece atravessada por incerteza?

O podcast Três Por Quatro, da Rádio Brasil de Fato, reuniu três vozes fundamentais para analisar o tabuleiro econômico do país: o economista e doutor em história Pedro Faria, a economista, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social Juliane Furno, e João Pedro Stedile, dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Em janeiro, uma pesquisa do canal Meio em parceria com o Instituto Média mostrou que o governo Lula é avaliado negativamente por 41% da população, contra 35% de aprovação. Quando o assunto é economia, o índice de desaprovação sobe para 43,4%.

Stedile foi direto ao ponto: “Os indicadores macro, naquilo que representa o rendimento do capital, estão indo bem. A burguesia está satisfeita. A taxa de juros lá em cima favorece uma burguesia rentista, que vive de especulação. Porém, a estrutura da economia brasileira não mudou nesses anos todos. Ainda temos uma herança neoliberal gravíssima. Do lado das condições de vida do povo, há ainda muitos desafios.”

“O número absoluto de trabalhadores com CLT hoje é o mesmo de 10 anos atrás. A informalidade persiste em torno de 40% da força de trabalho. A renda média das famílias até aumentou nos últimos dois anos, mas o consumo de alimentos caiu cerca de 5% a 6%. Pesquisa da Associação de Supermercados mostrou que parte da renda dos mais pobres está indo para as bets, para a especulação, influenciada pela mídia e pelos mecanismos ideológicos”, destaca.

Stedile aprofundou a análise sobre a percepção negativa mesmo diante de avanços pontuais. “A pregação ideológica do neoliberalismo, hegemônica nas últimas décadas, sempre atribuiu as conquistas ao mérito individual. O que é positivo, a pessoa acha que conseguiu por mérito próprio. Já os dados negativos, como aumento do aluguel, caem na conta do governo. O governo também não ajuda, porque não faz um discurso anti-neoliberal, não vai para o campo das ideias.”

Pedro Faria complementou: “O trabalho ideológico é constante, seja de figuras como Pablo Marçal, seja no âmbito religioso. Isso dificulta dissociar essa calcificação da opinião pública em dois grandes blocos. Mas isso não é um fato da natureza, é uma percepção reforçada inclusive pela própria imprensa hereditária”.

Stedile não poupou críticas à política de juros. “A taxa Selic é um mecanismo do capital rentista brasileiro de concentração de renda. Toda a população paga imposto sem se dar conta, porque está embutido no preço. Esse dinheiro vai para o Tesouro, e o Tesouro separa 43% do orçamento para pagar juros aos donos da dívida pública, cerca de 5 mil famílias capitalistas.”

Pedro Faria acrescentou que a troca na presidência do Banco Central trouxe alguma melhora, mas não resolveu o problema estrutural. “Galípolo é melhor que Campos Neto porque voltou a organizar o sistema financeiro, mas o problema é que ele só tem um martelo: a taxa de juros. Ele deu marteladas para conter ataques especulativos, matando qualquer investimento produtivo. Faltam outras ferramentas, como controle de capitais e planejamento de balanço de pagamentos.”

Por sua vez, Stedile elogiou a posição de Lula no debate internacional. “O Lula foi corajoso ao abraçar a bandeira da desdolarização. O dólar, desde a década de 1970, se transformou num mecanismo de exploração do trabalho de todo o mundo. Os EUA usam o dólar como chantagem política, como fizeram com a Argentina recentemente. No âmbito do Brics, é preciso acelerar o combate ao dólar, substituindo por uma cesta de moedas, como propõe o economista Paulo Nogueira Batista Jr.”, exemplifica.

A economista Juliane Furno detalhou em que estágio o mundo está da desdolarização. “Do ponto de vista comercial, já avançou: cerca de 15% a 20% do comércio global já não é mais feito em dólar. Rússia e China, por exemplo, comercializam a totalidade em moedas locais. O banco do Brics já reserva 30% do financiamento para ser feito em moedas locais. Onde a gente é pego é no circuito financeiro: mais de 88% das reservas globais ainda são em dólar. A periferia é obrigada a acumular dólar para se proteger de crises financeiras e de ataques especulativos.”

Furno alertou para o iminente conflito entre a regra fiscal e os direitos constitucionais. “O arcabouço fiscal estabelece que as despesas públicas podem crescer até 2,5% acima da inflação. Isso é menos da metade do que cresciam no governo Lula 2. Saúde e educação têm regras próprias, baseadas em percentuais da receita, e vão crescer mais do que 2,5%. A previdência também cresce mais. Vai chegar um momento em que isso vai estourar. Ou flexibilizamos o arcabouço para caber os pisos constitucionais, ou vamos furar o piso.”

Para ouvir e assistir

O videocast Três Por Quatro vai ao ar toda terça-feira às 15h ao vivo no YouTube e nas principais plataformas de podcasts, como o Spotify.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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