VISÕES POPULARES

Ecocídio: ainda é possível encontrar saídas para a crise climática? 

Entrevistamos Luiz Marques, historiador, ambientalista e professor aposentado da Unicamp

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“O agronegócio é o grande problema do Brasil. E esse problema tem um dado que é talvez o mais grave, que é o fato de eles terem se apoderado da máquina do Estado.”, aponta Marques. | Crédito: Brasil de Fato MG

No Visões Populares desta semana, o Brasil de Fato MG conversa com Luiz Marques, professor aposentado do Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), historiador e ambientalista. Marques esteve como convidado do programa “Cátedras Alternativas ao Neoliberalismo” do Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares (IEAT) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

Além de ministrar um curso abordando os impactos da emergência climática e os desafios para a construção de alternativas diante da aceleração da crise socioambiental, ele acaba de lançar seu terceiro livro intitulado Ecocídio: Por uma (agri)cultura da vida.  Durante a entrevista, abordamos a questão ambiental no Brasil e o colapso climático. Apontando os principais causadores desse cenário catastrófico, o professor também chama atenção para a centralidade do tema no processo eleitoral de 2026.

Confira a entrevista completa 

Brasil de Fato MG – Do que trata seu livro recém lançado, Ecocídio: Por uma (agri)cultura da vida e qual a importância deste debate hoje para o Brasil?

Luiz Marques – A questão central hoje não só no Brasil, mas no mundo, é o fato de que nós estamos vivendo um processo de colapso ambiental. Quando as pessoas falam em colapso ambiental parece que é um evento, algo como um carro andando por uma estrada cair em um precipício. O colapso não é um evento, mas sim um processo. É um processo de inadequação da atividade econômica, sobretudo capitalista e expansiva, com os limites planetários. 

Evidentemente, um limite, no caso em questão, não é uma barreira, não é alguma coisa contra a qual nós nos chocamos ou um abismo no qual nós caímos. É um processo de desconformidade, de inadequação entre um certo sistema econômico que, por definição, é expansível e um planeta que não é expansível, é um planeta que tem limites. Então, à medida que nós nos aproximamos desse limite ou ultrapassamos esse limite, nós arcamos com consequências cada vez mais graves. É o caso, por exemplo, dos grandes dossiês de que se ocupa a crise ambiental.

O primeiro dossiê, evidentemente, é a questão climática. Nós estamos hoje em um mundo que está evoluindo muito rapidamente em direção a temperaturas médias que nunca foram experimentadas na Terra durante os últimos 2,5 milhões de anos, ou seja, o famoso período Quaternário. E vamos levar em consideração que a nossa espécie tem 350 a 400 mil anos, no máximo.

Então, nós nunca vivemos em um mundo, por exemplo, 2 °C mais quente do que o período pré-industrial e nós vamos chegar nesse limite de 2 graus Celsius no próximo decênio. Então, os problemas que nós estamos enfrentando de adaptação, os impactos que esse aquecimento já ocorrido em torno de 1,5 grau Celsius já está ocasionando no planeta são enormes. E a cada décimo de grau que o aquecimento aumenta, esses impactos não aumentam proporcionalmente, aumentam muito mais do que proporcionalmente. Então, a passagem de 1,4 para 1,5 causou enormes problemas. De 1,5 para 1,6 vai causar problemas muito maiores. 

A segunda questão é a aceleração, ou seja, nós estamos caminhando para esses 2 °C e depois para algo além de 2 °C — não vai parar em 2 °C — e é muito mais rápido do que todo o processo que nos levou até agora a chegarmos a 1,2 °C, 1,3 °C, 1,4 °C, 1,5 °C, por exemplo. Basicamente, demoramos um século para sair do zero grau, desse período pré-industrial, até atingirmos um grau, em 2015. Agora de 2015 a 2027 nós vamos, provavelmente, chegar a 1,7 grau Celsius, por causa do El Niño. Aí, depois que o El Niño passar, não é que vai voltar a uma temperatura anterior ao El Niño. Vai voltar um pouco, mas sempre superior àquela que era antes do El Niño. 

O segundo problema é o problema da biodiversidade. Estamos perdendo espécies, causando extinções em massa. Os cientistas falam que perdemos até 200 espécies por dia; parece inacreditável isso, né? É alguma coisa que parece quase uma ficção, mas é isso que nós temos claramente. Essas são as estimativas científicas e nós não podemos viver sem a biodiversidade.

Os homens estão enganados achando que o planeta é deles. Não é. A biosfera é uma rede da qual nós fazemos parte, da qual nós dependemos, inclusive existencialmente. Vou dar só um exemplo. Todo mundo precisa ingerir vitamina C, senão morremos de escorbuto. Nós sabemos isso. No século XVI, os marinheiros morriam exatamente porque não tinham acesso à vitamina C.

90% dessa vitamina C que precisamos ingerir para não morrer provém de plantas com flores e, para que elas se reproduzam, elas precisam ser polinizadas. E quem as poliniza são os insetos — alguns vertebrados também, como morcegos — e, as abelhas acima de tudo.  Ora, as abelhas estão acabando por agrotóxicos. 

Então, nós estamos criando um modo de produção de alimentos que, aliás, nem alimento mais pode ser chamado, porque, na verdade, é simplesmente uma commodity para exportação. Alimentos completamente envenenados por agrotóxicos que não nos matam ainda, ou não nos matam imediatamente, porque nossa massa corpórea é maior do que a de um inseto, mas nos envenenam, nos adoecem, e são cumulativos. Portanto, estão criando cada vez mais um adoecimento, uma intoxicação dos organismos, e estão matando aqueles organismos, por exemplo, os insetos polinizadores dos quais nós dependemos para existir. 

E os insetos não são importantes apenas para nós; eles estão na base da pirâmide alimentar. Então, deles se alimentam os pássaros, os peixes e mesmo outros vertebrados. Sem esses insetos, eles morrem também, e aí temos uma reação em cadeia, uma cadeia de extinção. Então, essa questão da biodiversidade é muito importante também. 

E o terceiro elemento que eu acho que a gente tem que privilegiar no problema ambiental é o problema da poluição. O problema da poluição é a poluição industrial; não é só aquela poluição antiga que era a água contaminada por dejetos humanos, por falta de infraestrutura sanitária, isso continua existindo, mas emergiu agora outra forma de intoxicação, que é a intoxicação químico-industrial.

Nós estamos falando de 360 mil substâncias químicas que estão no mercado hoje. Das quais não conhecemos quais são os efeitos. No centro disso, a ponta do iceberg, aquilo que é mais visível, são os plásticos. Nós temos plásticos hoje — microplásticos ou nanoplásticos, pequenas partículas de plástico, algumas delas invisíveis — que estão inclusive no nosso cérebro, no nosso córtex frontal.

Estão em todas as partes do nosso corpo: na placenta das mulheres, na circulação sanguínea, no leite materno. Os cientistas dizem uma frase que me deixa muito impressionado: ‘Nós não encontramos plástico nos organismos, apenas onde nós ainda não procuramos’, onde eles procuraram, eles acharam. 

Os organismos biológicos, entre os quais os nossos, não evoluíram para viver com plástico em seus organismos. Que são, não só são corpos estranhos, mas são corpos que são portadores de toxinas, porque em torno deles se grudam vários microrganismos que nós ingerimos com esses plásticos.

Eles não são biodegradáveis; ficam no nosso corpo, não se sabe quanto, mas são da ordem de centenas ou milhares de anos. E então nós estamos com esses três grandes dossiês e esses três não são três prateleiras que não se relacionam entre si; eles são interdependentes, agem em sinergia.

Nós estamos criando um mundo no qual o comportamento do sistema Terra começa a ficar cada vez mais hostil à vida que nele se desenvolveu, a vida tal como nós conhecemos ao longo dos últimos milênios, ou mesmo de centenas de milhares de anos. E isso é muito rápido; essa é a grande questão, porque quando a gente fala em adaptação, o fator mais importante é o tempo. 

Se o mundo passasse a ser 2, 3 ou 4 graus Celsius mais quente do que no período industrial, mas nos próximos 1.000 anos, a gente se adaptava. Mas estão falando de décadas, não de séculos, nem de milênios; estão falando de décadas. Então essas adaptações são extremamente,  não diria impossíveis , mas são cada vez mais improváveis.

E, em todo caso, cobram da humanidade um custo exorbitante, um sofrimento excepcional que nós não precisávamos ter, se nós tivéssemos um sistema econômico que fosse capaz de se autolimitar, que fosse capaz de entender a posição do homem na biosfera. E o sistema econômico não entende isso. Cada pessoa individualmente pode até entender, mas a engrenagem do sistema econômico faz com que ele funcione como se não entendesse. Essa é a grande questão. 

Você também abordou esses temas em seus livros anteriores: Capitalismo e colapso ambiental e O decênio decisivo: propostas para uma política de sobrevivência. Como se deu esse percurso teórico e de que forma o Brasil se enquadra neste cenário mais amplo e global de crise ambiental?

Esses três livros fazem parte de um processo e dialogam entre eles. O primeiro livro foi claramente uma tentativa de mostrar que existe uma relação entre causa e efeito, entre um dado: o sistema econômico, que nós podemos chamar de capitalismo, ou seja, um sistema expansivo, que busca a máxima lucratividade e menor custo econômico e que reduz a natureza à mercadoria. Esse sistema está associado, em uma relação de causa e efeito, com o processo de colapso ambiental. Esse era, vamos dizer assim, o eixo estruturador do primeiro livro. 

O segundo livro foi escrito em 2021 e 2022, quando havia ainda um conceito científico mais ou menos estabelecido, segundo o qual o que fizéssemos ao longo deste decênio dos anos 20 seria decisivo. Por isso o título do livro.  Os caminhos que nós tomássemos nesses próximos anos seriam os caminhos cujas consequências sofreríamos nos próximos decênios ou séculos ou mesmo milênios. 

Então, o terceiro livro é muito fortemente centrado no Brasil. O Ecocídio se chama “Por uma (agri)cultura da vida” e ele está muito fortemente ligado, então, à questão do agronegócio brasileiro.A sociedade brasileira é uma sociedade que está sendo moldada por decisões governamentais, sobretudo emanando do Congresso Nacional, que é fortemente capturado pelo agronegócio, a famosa bancada do boi, que está destruindo muito fortemente a economia, a sociedade brasileira, o patrimônio natural brasileiro. 

O Brasil é o país biologicamente mais rico do mundo. Não é um hino nacional que estou cantando aqui, é claramente um dado científico: existem 17 países que são considerados megadiversos do ponto de vista biológico, em termos de concentrarem em seu território espécies que só existem neste território. Então, nesses 17 países, cinco são amazônicos e o Brasil é, de longe, o primeiro. Temos aí 13 a 15% de toda a biodiversidade do planeta no nosso território. 

E esse patrimônio natural está sendo destruído a uma velocidade alucinante pelo agronegócio. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), constata que de 1970 para cá, destruímos mais de 3 milhões de km². O Brasil tem 8,5 milhões de km². Desde 1970, sobretudo com a abertura da Transamazônica pelos ditadores, nós destruímos mais de 3 milhões de quilômetros quadrados. 

A destruição da Mata Atlântica é um processo lento que vinha ocorrendo desde o século XVI até meados do século XIX, quando houve a questão do café, né, o ciclo do café. Sobretudo no Sudeste, ela foi muito fortemente destruída, mas era uma destruição a machado ainda,  uma destruição quase artesanal, digamos assim. E os outros biomas permaneciam bastante intocados (Pantanal, Cerrado, e no Norte do Brasil, a Amazônia). 

Esses biomas, que compõem a maior parte do território brasileiro, muito maiores, lógico, estavam relativamente intocados. Havia aqui uma pequena interferência, mas não era nada significativo. A partir de 1970, você tem uma destruição industrial em direção leste–oeste ou sudeste–noroeste do Brasil. Só na Amazônia, por exemplo, a floresta já perdeu mais de 870 mil km² nesse curto espaço de tempo, de pouco mais de 50 anos.  Nenhum país do mundo destruiu tanta natureza em tão pouco tempo quanto o Brasil. 

Quem é o ator fundamental? São vários atores, têm a migração, a artificialização dos solos, abertura de estradas, mas o grande protagonista é o agronegócio. Um dado que mostra isso: mais de 90% do desmatamento na Amazônia teve como objetivo primeiro a abertura de pastagens. Isso é um dado do Map Biomas, não é um dado que eu tirei da minha cabeça.

O agronegócio é o grande problema do Brasil. E esse problema tem um dado que é talvez o mais grave, que é o fato de eles terem se apoderado da máquina do Estado. No Congresso Nacional, com seus  513 deputados e 81 senadores: dos deputados, 303 fazem parte da Frente Parlamentar da Agropecuária, vulgo “bancada do boi”. Do Senado, 50 se declararam integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária. Basicamente são partidos da direita e da extrema direita, embora haja aqui e ali algum elemento que não seja desse espectro político; mas, basicamente, são da direita e da extrema direita.

Diante de nós está um dos maiores desafios da história do Brasil que vai acontecer em outubro. Não é só eleger o Lula, o que é algo que eu considero — embora não esteja cantando vitória antes do tempo — relativamente provável.

O problema é como nós vamos nos comportar em relação às eleições legislativas. Em geral, as pessoas tendem a concentrar seu interesse, sua atenção e seu esforço no Executivo, esquecendo que o Legislativo hoje tem uma posição cada vez mais determinante, por exemplo, na execução do orçamento nacional. Na promulgação de leis que destroem as bases biofísicas da viabilidade do Brasil, acabando, por exemplo, com o licenciamento e com todo tipo de controle que o Poder Executivo e o Judiciário teriam para conter o desmatamento e os incêndios.

99% dos incêndios no Brasil são atiados pelo agronegócio. Isso também é um dado claramente estabelecido. Só para dar um exemplo: em 2020 houve um incêndio absolutamente gigantesco no Pantanal; destruiu mais de 40% da área do Pantanal, e a Polícia Federal sabe que esse fogo foi ateado por quatro fazendeiros. Satélites mostram que o fogo surgiu simultaneamente nessas quatro fazendas, e os funcionários desses fazendeiros receberam instruções para retirar o gado nos dias anteriores. Então, não precisa de mais provas do que isso. Não sei o que aconteceu com esses quatro fazendeiros, mas nós sabemos disso.

Teve o “Dia do Fogo” que, em 2019, foi claramente estabelecido ali no Pará; Esses incêndios também aconteceram, em 2024, no estado de São Paulo, queimadas em canaviais, etc. Então está claro que você tem aí um grande problema, e esse problema tem que ser enfrentado com muita preocupação pelos brasileiros: como nós mudaremos o perfil do Congresso Nacional agora em outubro. Não é fácil. 

Porque a grande base eleitoral desses deputados está nas prefeituras e nos estados, onde eles têm um poder político gigantesco. Então é muito difícil conseguir chegar com esse alerta, essa advertência, esses dados no eleitorado que está totalmente, digamos assim, sob a cúpula do controle desses poderes locais e também da publicidade — o Agropop. Milhões de reais são gastos para a fabricação de uma imagem positiva do agronegócio no Brasil. Como é que a gente vai se contrapor a isso? 

Tenho muita dificuldade de realmente elaborar como tornar real um processo de conscientização da sociedade brasileira sobre este problema, que é uma ameaça existencial à sociedade brasileira. Se nós destruirmos a Amazônia, não há água; não há água aqui em Minas Gerais, não há água em São Paulo, não há água em lugar nenhum. Então nós dependemos, como sociedade, da Amazônia, e nós estamos destruindo a Amazônia. Nós não; eles estão destruindo a Amazônia.

Você acredita em um agronegócio sustentável? Essa é uma possibilidade real? E para além disso, o setor vale, de alguma forma, os danos que causa, pensando nessa suposta dependência econômica do Brasil deste modelo? 

Não, tudo isso é um ledo engano. Claro que, quanto maior a força, de você repetir uma mentira, as pessoas acabam acreditando. Mas veja: em primeiro lugar, o agronegócio não produz alimentos; o agronegócio produz commodities. Uma coisa que não tem nada a ver com aquela comida que você comeu hoje na hora do almoço. 

A commodity é uma mercadoria cujo preço é estabelecido na Bolsa de Mercadorias e Futuros de Chicago, e ela é, não exclusivamente, mas majoritariamente, voltada para o mercado externo. Então, quando o brasileiro fala que o agronegócio põe a nossa comida na mesa, ele está enganado. Quem põe a comida no nosso prato, na nossa mesa, é a agricultura familiar. 

E é um modelo de agricultura que tem como seu melhor exemplo o MST.  Porque ele é uma atividade que produz alimentos e que produz cooperativamente esses alimentos, gera prosperidade para o produtor, para o trabalhador rural — não para o dono de uma fazenda — e gera prosperidade para o consumidor também.  

Porque essa alimentação está próxima do consumidor e por isso é muito mais barata; ela é capaz, portanto, de chegar ao prato do brasileiro sem a necessária intervenção das grandes indústrias de agrotóxicos, dos supermercados, que só encarecem o produto. Além disso, o MST produz comida sem agrotóxicos. 

O agronegócio está condenado a produzir alimentos com agrotóxicos por uma razão muito simples: ele faz monocultura de grandes extensões. O que o obriga a fazer a seleção genética daquele produto, para que ele seja o mais rentável possível e resista mais aos patógenos. Quando o patógeno atinge aquele produto, ele o destrói, porque houve uma homogeneização genética. Para que isso não ocorra, o que o agronegócio é obrigado a fazer? Envenenar, aplicar agrotóxico. 

E tem uma dinâmica nessa engrenagem que faz com que a natureza seja definitivamente afetada. Você joga um agrotóxico ali, mata muitos daqueles organismos que você quer matar. Além disso, é uma metralhadora giratória: mata tudo. Só que sobram alguns, porque existe uma certa variedade genética nos organismos, nas bactérias e alguns são imunes.

Esses imunes falam: ‘Oba, a vida está para mim. Como eu sou imune a isso, eu vou me reproduzir enormemente, porque não há mais concorrência com os outros’. Então eles vão se reproduzir muito. Qual é a consequência disso? Você tem que aplicar mais agrotóxico. Só que alguns vão ficar, vão sobrar. Você nunca consegue, com o agrotóxico, erradicar completamente a espécie que se quer atingir. Ou seja, para que a monocultura exista, você precisa colocar sempre mais agrotóxico. 

Até o ponto em que isso, claramente, esteriliza os solos e adoece os organismos. Tanto é que, por exemplo, a Europa proíbe agrotóxicos que ela produz, mas os vende para o Brasil. Isso é uma das facetas da hipocrisia europeia.

E por que a nossa legislação é permissiva com isso? Mais uma vez por causa dos lobbies do agronegócio. Então, o agronegócio pode até ter uma certa contribuição para a balança comercial do Brasil, mas o brasileiro não vive da balança comercial. Isso é um mito criado pelos economistas. Você alguma vez se cruzou com a balança comercial no seu dia a dia? Não, você se cruzou com as suas necessidades básicas fundamentais de se alimentar, de beber água pura, de respirar um ar puro. É isso que a sociedade precisa. 

Criou-se essa superestrutura mitológica de que a economia tem leis e que nós todos temos que nos curvar a essas leis, senão as consequências serão terríveis. Não, não existe isso. Existem leis da física, existem leis da química, existem leis da biologia. Não existem leis criadas pela Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo, nem pela Universidade Federal de Minas Gerais, nem pela Universidade de Chicago. Isso é tudo blá, blá, blá. 

O que importa para nós é a nossa relação com o mundo em que vivemos e não com as teorias econômicas feitas por quem, em geral, estão a serviço daqueles que estão ganhando dinheiro. Então, a gente tem que acabar com esse mito de que o agronegócio é necessário e inevitável. Não, ele é desnecessário, ele é evitável e ele é extremamente nocivo para os humanos e para os não humanos, para as formas de vida das quais nós precisamos para viver. O resto é propaganda.

A crise climática é infelizmente uma realidade já sentida no nosso cotidiano. Diversos países já têm se estruturado para providenciar medidas de mitigação e adaptação, entendendo que o cenário é de difícil reversão, pelo menos a curto prazo. Na sua opinião, como o Brasil tem lidado com essa demanda? O que é preciso fazer para ontem?

Essa é a grande questão, estamos hoje em um grande dilema: o fato de que você tem uma sociedade, um sistema político muito fortemente capturado pela direita e pela extrema direita, em relação a qual o governo Lula tem tido, evidentemente, uma enorme dificuldade e tem sofrido várias derrotas. Por exemplo, os vetos presidenciais têm sido derrubados sistematicamente. Então, como é que o Brasil pode lidar com isso?

A primeira coisa que nós temos que pensar é mudar essa relação de forças. Mudar essas relações de forças é basicamente uma mudança na relação do Legislativo. Temos que entender que o jogo se decide no Legislativo. Claro que o Executivo é fundamental, mas isso é um dado, é óbvio, isso é uma premissa. 

Mas não adianta o Lula vencer as eleições se mantivermos esse perfil no Congresso Nacional. Por exemplo, o PL tem pretensões muito claras e investimentos para aumentar a sua representação no Congresso. Ele não está querendo diminuir sua representação; quer aumentá-la. Como é que nós fazemos para diminuir essa representação e colocar no Congresso Nacional gente que tenha compromisso com a sociedade brasileira e não com os próprios negócios, não com o próprio bolso?

Por exemplo, eu estou apoiando diretamente uma candidata do PSOL, a Luciana Gatti, que é cientista do INPE e está se lançando pela primeira vez na carreira eleitoral. Estou fazendo o que posso aqui em São Paulo para que ela tenha representação, obtenha uma votação expressiva e se eleja. Não importa. Esse é o meu caso pessoal.

Cada um, a meu ver, tem que entender e pensar bem em quem vai votar, dentro de uma perspectiva de sobrevivência e de viabilidade da sociedade brasileira, do nosso patrimônio natural, dos nossos indígenas, dos quilombolas, das populações rurais e mesmo das populações urbanas. 

Porque, veja, o problema ocorre lá, só que sofremos aqui na cidade. Eu sou de São Paulo, você é de Belo Horizonte; acho que os nossos ouvintes são basicamente mineiros de Belo Horizonte. As cidades são o que se chama ilha de calor urbano: um lugar onde se concentra muita energia térmica, porque tudo é baseado em concreto, asfalto etc. Esses são materiais que não dissipam calor. Então esquentam e ficam quentes ali; à noite não resfria como no campo. No campo há uma dissipação muito maior do calor. 

Temos que pensar que, quando votamos no candidato, estamos contratando problemas que podem ser gravíssimos para o futuro, mesmo que a pessoa não faça esse vínculo imediato. Como reagir a isso? É outubro. É agora ou nunca, porque vou dizer: a Amazônia não aguenta mais quatro anos de agronegócio. Tudo tem limite e estamos próximos desse limite.

E como estamos numa fase de aceleração, esse limite sempre parece mais longínquo do que é, porque quando estamos em aceleração, em geral as coisas chegam mais rapidamente do que imaginamos. Esta é a minha mensagem para todo mundo que está nos ouvindo, que está nos assistindo: estamos numa situação-limite e ainda temos em mãos a capacidade de mudar essa situação através do nosso voto. Acho que não poderia ser mais claro.

Nessa mesma linha das medidas que precisamos tomar, como você enxerga as posturas e discursos dos presidenciáveis quando pensamos a pauta ambiental? Algum deles representa um projeto sustentável para o Brasil?

Está mais fácil de responder, porque, embora possamos ter muitas críticas à candidatura do Lula, a candidatura dos opositores é destrutiva ao máximo, terrivelmente destrutiva. É só pegar o plano de governo do Bolsonaro que você vê claramente que ele está querendo dar o golpe de misericórdia nos golpes que o pai dele já deu ao Brasil. O Caiado é a mesma coisa.

O Zema aqui em Minas Gerais, candidato também, é outro da mesma linha. Vamos pensar na folha de serviços prestados por esses candidatos, pôr na balança o que eles fizeram pela conservação do patrimônio nacional, em termos naturais (as nossas florestas, as nossas águas) e a nossa capacidade de gestão dos bens públicos. 

Colocando o que eles fizeram de bom e o que fizeram de ruim, na balança do bom, não sei se tem algo para colocar; muito pelo contrário. Quanto ao Lula, existe ainda algo de bom e importante sobre isso.

Pensando em tudo que conversamos até aqui, o que já temos de alternativa sendo posta em prática pelo MST e outras organizações camponesas e como isso pode contribuir para a sustentabilidade da vida no Brasil? 

O MST é o movimento popular mais importante dos últimos 50 anos do Brasil. O MST tem já 42 anos, e acho que nenhum grande movimento popular em escala nacional tem essa trajetória de vitórias, de resistência como o MST. Ele traz na sua bagagem uma velha reivindicação da sociedade brasileira, que é a democratização da terra.

Isso é um problema estrutural: o Brasil é um dos países que mais concentra terras. E o movimento evoluiu muito nesse percurso, nos primeiros decênios, era basicamente um movimento de tentativa de aumentar o seu acesso à terra, sua capacidade de criar uma agricultura popular. Ao longo dos anos, ele foi evoluindo em direção a uma consciência maior, não só da capacidade de produzir, mas do que produzir, como produzir, de maneira a atender uma necessidade fundamental, que é produzir alimento saudável. 

Essa ideia de produzir alimento saudável não estava na origem da pauta do MST claramente; ela foi sendo adquirida à medida que foi se evidenciando para os trabalhadores a necessidade de reagir a um processo de degradação, inclusive dos solos, da capacidade agrícola e da lavoura. 

Então, eu acho que o MST hoje encarna um modelo de agricultura que é talvez um dos melhores modelos do mundo. E, contrariamente a isso, no outro lado da nossa trincheira você tem o agronegócio, que encarna o pior modelo de produção de commodities agrícolas e agropecuárias do mundo. Que, na cidade, tem como equivalente a especulação imobiliária, a destruição do patrimônio urbano para criar a verticalização, acabar com os parques públicos e ganhar dinheiro hoje e agora o máximo que você puder.

Eu acho que a gente tem dois grandes modelos no campo: o agronegócio e, por outro lado, um sistema de produção de alimentos que atende a muitas das necessidades do Brasil, que é o MST. E na cidade você tem que ter uma organização urbana capaz de criar uma cidade com mobilidade democrática, com capacidade de atender ao déficit habitacional, que tenha a possibilidade de água potável e condições de vida que a vida urbana necessita. 

A questão mais clara é: nós todos sabemos o que é preciso fazer. Não precisa ter grandes elucubrações. O problema é encontrar o modo de fazer, encontrar a viabilidade, o caminho político para que a gente consiga chegar onde nós sabemos que temos que chegar. 

Não cabe nem a você nem a mim; cabe a todos nós. Cabe a todos nós fazer um esforço conjugado de debate político e de esclarecimento. Isso é política. Política é a gente ter essa capacidade de convencer o outro daquilo que a gente acha que é o mais justo.

Editado por: Lucas Wilker

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