Terrorismo

Dos 104 mortos na Venezuela, apenas 35 estavam em atos contra governo, diz relatório

Levantamento feito pelo Ministério Público venezuelano questiona narrativa opositora de violência contra manifestantes

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

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Da esquerda para a direita, os jornalistas Jorge Gestoso, Christian Rodriguez, Roberto Hernández Montoya e Carlos Fazio / Camila Rodrigues

A maioria das vítimas fatais da crise política da Venezuela não era de manifestantes contrários ao governo de Maduro. Segundo um balanço do Ministério Público da Venezuela, 69 dos 104 assassinatos registrados entre 6 de abril e 28 de junho, ou seja, 66% das mortes, foram de pessoas que não eram opositores.

Somente trinta e cinco vítimas foram mortas em contexto de manifestações contra o chavismo, diz o levantamento.

:Veja o especial "O que está acontecendo na Venezuela"

Os dados foram divulgados durante o Foro Periodístico "Venezuela Responde!", que está acontecendo em Caracas desde esta quinta (13) até sábado (15).

Cerca de 20 jornalistas estão participando, sendo 12 provenientes de países como Nicarágua, Brasil, Argentina, Uruguai, México, Espanha e Guatemala.

A hipótese tanto do governo, quanto da mídia alternativa venezuelana, é que os agentes da violência são realizados por grupos terroristas aliados à direita.

Segundo Roberto Hernández Montoya, do Centro de Estudos Latino-Americanos Romulo Gallegos, que faz parte do Ministério da Cultura da Venezuela, o objetivo é refletir sobre a situação comunicacional do mundo a partir do caso da Venezuela. Ele ressaltou a importância geopolítica do país caribenho:

"A Venezuela está sendo submetida a um linchamento midiático mundial. Com a ideia de se apossar da maior reserva petroleira mundial, e que tem 15, dos 17 minerais estratégicos. [O país] tem, junto com o Brasil e Colômbia, a maior biodiversidade do planeta. Tem uma grande reserva de água, que"

Já o jornalista uruguaio Jorge Gestoso, correspondente da TV multiestatal TeleSUR, em Washington D.C., nos Estados Unidos, que participou de uma das mesas do fórum, iniciou sua fala colocando que quem detém o poder em qualquer país é "quem tem o dinheiro, as armas e a palavra", ou seja, quem consegue convencer a consciência das massas — e o que está em disputa atualmente na Venezuela é a palavra, ressalta. Ele revela que as mídias privadas ainda são as de maior audiência no país:

"O que está em disputa é a palavra. Porque é a palavra que está sob controle dos grandes meios comerciais. Não há, portanto, um contrapeso dos meios públicos. A palavra, quem tem, são as corporações, e não o governo, que está hoje representando o Estado."

Entenda:

A Venezuela vive uma complexa crise política e econômica que se arrasta por quase quatro anos. Entre as consequências está o acirramento das disputas políticas com protestos de rua e escassez de alimentos, itens de higiene pessoal e outros bens de consumo.

Como proposta de paz, o presidente Maduro convocou, em 1º de maio, uma Assembleia Constituinte, que vai acontecer no dia 30 deste mês. Como em 1999, ela não vai dissolver os poderes, mas conviverá com eles. Mesmo assim, a oposição acusa o processo  de "consumação de um golpe de Estado" e de método para o chavismo se manter no poder após a derrota nas eleições legislativas de 2015.

(*) a jornalista viajou a Caracas a convite do governo da Venezuela

Edição: Vanessa Martina Silva