Lula Livre

"Essa cicatriz representa resistência”, diz militante ferida no dia da prisão de Lula

Um mês depois da repressão, ferida por bombas no dia da prisão de Lula ainda se recupera 

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Há um mês, a assistente social Vanda de Assis trata da recuperação de parte do nariz e ainda depende das pessoas e muletas para andar / PH Reinaux

Ferida no dia da prisão do ex-presidente Lula na sede da Polícia Federal, a assistente social Vanda de Assis ainda não retornou ao local, onde há 30 dias estão montados a Vigília Lula Livre e o Acampamento Marisa Letícia. Foram montados na mesma noite em que ela perdeu parte do seu nariz, pernas machucadas e o pé fraturado. Ainda em recuperação, licenciada do seu trabalho, disse que não se arrepende e logo que puder andar sem muletas e ajuda das pessoas, voltará.

Em entrevista ao Brasil de Fato, ela relata como tudo aconteceu, como vem levando sua vida e o impacto emocional que une a tristeza do dia, os ferimentos que ainda não se curaram e a certeza da importância da resistência.

No sábado, 7 de abril, Vanda estava acompanhando as notícias sobre o mandato de prisão do ex presidente Lula. Ao mesmo tempo terminava de resolver algumas atividades de trabalho e outras tarefas como compras para ajudar no casamento de uma prima.

Por volta das 16h, em comunicação com amigos e amigas da militância, resolveu se locomover até a Polícia Federal.

“Eu fui ficando. Pretendia ficar até a chegada dele, já sabia do acampamento que estava sendo organizado. Eu não sabia se ficaria acampada”, relata Vanda. “Das 17h até as 22h, mudou muito o acampamento, ali o local em frente a Polícia Federal. Foram chegando muitas pessoas. Quando cheguei tinham poucas, a gente circulava com facilidade. Depois, foi ficando difícil e eu fui para perto do portão da PF. Quando o helicóptero começa a se aproximar, a maioria também veio vindo em direção ao portão”. 

Bombas e sangue escorrendo

Acostumada com manifestações desde quando iniciou sua militância aos 16 anos na Pastoral operária no Ceará, ela disse que não sentiu medo nestes minutos que antecediam a chegada de Lula na sede da PF. “Eu não esperava ser atingida, eu já passei por outras situações de bombas, como por exemplo no dia 29 de abril, quando bombas foram lançadas contra os professores no Paraná e também nas manifestações em Brasília, contra o Temer".

Vanda relata que a medida que o helicóptero se aproximava as pessoas começaram a olhar para cima e gritar “Lula guerreiro do povo brasileiro. Foi um momento de emoção e tristeza”. Quando as bombas começaram, muita gente ficou sem ação, sem saber da onde vinham os estouros, descreve ela. 

“Nesse momento quando todo mundo olhava para cima é que jogaram a primeira bomba, onde tinha mais gente concentrada e criou bastante tumulto. Pessoas corriam para tudo que é lado, caiam e a gente não sabia o que fazer, pois não estávamos entendendo o que era".

E continua descrevendo o momento do ataque que vinha de todos os lados: “Depois da primeira bomba, as pessoas saíram de perto do portão. E aí eles foram jogando bombas onde as pessoas iam. Eu me afastei, mas daqui a instantes fui atingida por duas bombas. Fui fugir de uma bomba e acabei indo em direção a outra".

A percepção da gravidade do seu estado se deu quando sentiu que muito sangue escorria do seu nariz. Depois disso, dor na perna e pé, e o acolhimento por um casal de conhecidos que a levou até o Hospital Cajuru, no centro da cidade.

Cicatriz da resistência

Ao chegar no Hospital, a assistente social relata que outras pessoas também foram levadas para lá. Segundo a coordenação da Vigília Lula Livre, no dia do ataque das polícias militar e federal aos manifestantes, foram mais de 40 feridos atendidos por diferentes unidades de saúde, fora os não contabilizados que voltaram para casa.

Das 23h quando chegou, uma hora depois da chegada do helicóptero trazendo Lula, foi atendida as 2h30 da madrugada. “Fui descobrindo aos poucos o que tinha acontecido comigo (…) Achava que eram ferimentos leves. Mas eu fraturei o dedo mínimo, ficou estraçalhado, e perdi parte do nariz, um pedaço de carne dele foi arrancado". Uma semana depois outras sequelas apareciam, como uma inflamação no ouvido pelos estampidos das bombas muito próximas. Vanda perdeu parte do nariz, ferimentos nas pernas e fratura no pé.

"Não devemos mesmo negar. Eu não quero violência para ninguém, tampouco para mim. Mas é contra isso que a gente luta. Essa cicatriz representa resistência", diz Vanda de Assis (Foto: PH Reinaux)

Ao retornar no hospital para tirar os pontos do nariz, semanas depois, conta que na sala de espera conversava com uma senhora sobre o que tinha lhe acontecido e a preocupação com a cicatriz. “Ela me disse que o nariz ficaria bonito e que essa marca, disse ela, você vai saber levar. Esta marca faz parte da história de lutas que você representa".

“Daquele dia em diante eu acolhi isso, essa cicatriz vai carregar a história de lutas que não se pode negar. Não devemos mesmo negar. Eu não quero violência para ninguém, tampouco para mim. Mas é contra isso que a gente luta. Essa cicatriz representa resistência”, diz Vanda, emocionada ainda com as lembranças do dia.

Sobre se existiu algum acompanhamento da Polícia sobre o seu caso, responde negativamente e disse que registrou Boletim de Ocorrência. “O importante é que fui cuidada e colhida pela família e principalmente pelos colegas e amigos e amigas da militância”. 

Polícia Federal culpa manifestantes 

Segundo informações da coordenação do Acampamento Marisa Letícia e Vigília Lula Livre, no dia 07 de abril, quando o ex presidente Lula chega a sede da PF, foram mais de 40 feridos levados aos hospitais da cidade. A manifestação acontecia de forma pacífica. Para a Polícia Federal, a ação das polícias foi correta para conter manifestantes, desconhecendo um mês depois, feridos em condição grave.

Crianças, idosos, mulheres, homens  saíram correndo quando o ataque de bombas e tiros começou na rua e de dentro da sede da Polícia Federal. Fabiane Lopes, professora universitária, conta que estava na manifestação em apoio a Lula, que todos estavam pacificamente esperando a sua chegada e de repente bombas de dentro da PF e nas ruas. “Quando o helicóptero estava sobrevoando não havia nenhum movimento por parte dos manifestantes a não ser olhar para cima e acenar. Ouvimos um estouro, parecia um foguete. Foram duas bombas, pararam e ali retornamos ainda sem saber o que era. De repente, muitas bombas, balas de borracha e as pessoas começaram a ficar feridas. Fui tentando acudir, mas então fui atingida por um estilhaço de bomba no supercilio do olho”. 

Muitos atingidos e feridos registraram boletins de ocorrência, mas relatam que não houve nenhum tipo de acompanhamento posterior por parte da Polícia. Em resposta ao Brasil de Fato, a assessoria de comunicação da Polícia Federal respondeu que os tiros e bombas foram feitos para dispersão dos manifestantes que chegavam próximo ao portão. Um mês depois, continuam informando que desconhecem o histórico dos feridos e confirmam que tanto a Polícia Federal como a Policia Militar dispararam os tiros, de forma correta para conter os manifestantes próximos a entrada.

Vanda de Assis, uma das feridas que ainda se recupera usando muletas relata que as bombas vieram em várias direções e não apenas nas proximidades do portão. “ Depois da primeira bomba, as pessoas saíram de perto do portão. E aí eles foram jogando bombas onde as pessoas iam. Eu me afastei, mas daqui a instantes fui atingida por duas bombas. Fui fugir de uma bomba e acabei indo em direção a outra.

Felipe Mongruel, advogado que representa os manifestantes e acampados em frente à sede da PF, em coletiva a imprensa na semana passada após o som da Vigília Lula Livre ter sido depredado por um delegado da Polícia Federal, reiterou que é grave a omissão da Polícia Federal diante destes casos de violência. “Estamos intensificando a pressão e denúncia sobre essa omissão. Queremos saber quem se responsabilizará por estes constantes ataques violentos e fascistas”, disse Mongruel.

Edição: Ednubia Ghisi