Violência

Sob cerco evangélico, guarani-kaiowás sofrem com intolerância no Mato Grosso do Sul

Avanço pentecostal dentro das comunidades indígenas tem violado direito constitucional da liberdade de culto

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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"Os pastores usam as igrejas como um instrumento para impedir e desorganizar uma estrutura tradicional dos kaiowás", diz historiador / Wikimedia Commons

A intolerância religiosa e o avanço evangélico pentecostal têm crescido no país, inclusive dentro de comunidades indígenas. Uma das regiões mais afetadas é o Mato Grosso do Sul, onde só nos primeiros meses de 2018, o número de denúncias à Justiça de casos de intolerância religiosa aumentou 800% em comparação a todo o ano de 2017, segundo dados da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos e Coordenadoria de Igualdade Racial.

Izaque João, da Aldeia Panambi, no município sul-mato-grossense de Douradina, é historiador e pesquisador kaiowá. Ele vive em diálogo frequente com as comunidades indígenas e deu início às pesquisas que norteiam o documentário Monocultura da Fé, lançado no ano passado.

A produção percorre aldeias do Mato Grosso do Sul para mostrar denúncias das cada vez mais frequentes violências cometidas por grupos evangélicos contra rezadores tradicionais guarani-kaiowás. Izaque conta que essas redes nacionais e internacionais de igrejas têm forte ligação com políticos e fazendeiros.

"As igrejas vêm entrando em massa nas comunidades indígenas, inferiorizando a cultura tradicional e desvalorizando os conhecimentos tradicionais. Eles [os pastores] usam as igrejas como um instrumento para impedir e desorganizar uma estrutura tradicional, que os kaiowás, ao longo dos tempos, vêm construindo. Mas eu vejo que a organização social e tradicional ainda é um dos pilares principais que existe nas comunidades indígenas", afirma. 

O contraste entre os cultos evangélicos e os rituais xamânicos também refletem as disputas de terra, como informa Izaque. "Os indígenas estão sempre retomando suas áreas tradicionais e, para impedir isso, usam o instrumento principal das igrejas, porque nelas eles recebem a orientação de que não podem reocupar uma área tradicional, mas estar presos nas igrejas e pregar a palavra de Deus". 

O historiador conta que a inserção da cultura pentecostal nas comunidades indígenas tenta afastar os rezadores tradicionais quando os kaiowás mais precisam: nos momentos de enfermidade. O indígena diz que os líderes pentecostais prometem curas em troca de dinheiro. "O pastor fala que essa pessoa que morreu não tem fé para ter a cura ou, se não usar essa palavra, diz que Deus recolheu essa pessoa". 

Spensy Pimentel, antropólogo, jornalista e professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), também participou das pesquisas do documentário. Ele diz que a faceta mais visível da intolerância religiosa tem sido as denúncias dos terreiros de candomblé e umbanda e que os ataques aos grupos indígenas permanecem mais abafados. Pimentel afirma que a liberdade de culto, prevista por lei, não pode ser violada da forma como vem acontecendo no Mato Grosso do Sul.

"A liberdade individual não pode se tornar uma desculpa para crime de ódio, que é o que a gente tem visto lá, quer dizer, pastores incentivando os seus fiéis a demonizarem essas figuras, que têm uma importância que não se restringe só ao campo religioso, mas que guardam toda uma série de conhecimentos cronológicos, ambientais, históricos, ou seja, guardiões da memória e da cultura indígena", diz. 

Pimentel completa que as denúncias de intolerância religiosa contra rezadores xamânicos raramente são registradas, porque muitas vezes envolvem pessoas idosas, que mal falam o português e não tem o costume de saírem das aldeias. 

Para Marco Antônio Delfino, procurador do Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul, a invisibilidade e a impunidade refletem o ódio étnico-racial em seu grau máximo. Delfino, que tem atuação profissional e acadêmica na proteção e reparação de violações de Direitos Humanos de Povos Indígenas, Comunidades Quilombolas e Populações Tradicionais, lembra que os casos sul-mato-grossenses não são isolados e recentes, mas frutos de uma construção histórica genocida.

"Esse processo de discriminação abarca toda a sociedade, o Judiciário, as forças policiais, o próprio Ministério Público. Se você tem uma agressão de um indígena contra um não-índio a velocidade que esse inquérito anda, é uma. Se você tem uma agressão de um não-índio em relação a um indígena, a velocidade é outra. O processo de julgamento é outro, as decisões são outras. Índios são queimados, índios são linchados, índios são mortos, índios são enforcados, então é algo que supera o mero racismo", relata.

Izaque diz que, a muito custo, os guarani-kaiowás resistem na luta por seus direitos e pela preservação de sua cultura. "Recentemente teve um encontro em Caarapó, em uma retomada de terra. Eles conversam, fazem um documento, encaminham para a Justiça e para as autoridades competentes, mas há pouca ação para proteger as lideranças tradicionais e espirituais". 

O Brasil tem uma denúncia de intolerância religiosa a cada 15 horas, segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos (MDH) levantados no ano passado. Para conhecer alguns casos entre os anos de 2008 e 2017, acesse o Mapa da Intolerância Religiosa no Brasil, feito pelo Dossiê Intolerância Religiosa.

Edição: Juca Guimarães