Solidariedade

Ato em apoio a Jean Wyllys alerta para risco à democracia

O deputado deixou o mandato após graves ameaças contra a sua vida e de seus familiares

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Ato público em apoio ao deputado federal pelo PSol Jean Wyllys / Rute Pina

Foi realizado nesta terça-feira (29) no auditório da Faculdade de Direito da USP, em São Paulo, um ato público em apoio ao deputado federal (PSOL-RJ) Jean Wyllys e contra a ascensão do fascismo. O parlamentar deixou o mandato após receber ameaças contra a sua vida e de seus familiares.

“Eu não consigo dizer que foi o Jean quem tomou essa decisão. Na verdade, tomou essa decisão quem colocou Jair Bolsonaro na cadeira da presidência. Quem elegeu esse clã, essa família, que hoje já tem relações comprovadas com a milícia, um grupo muitíssimo perigoso, que já vinha fazendo uma série de ameaças”, lamentou Mônica Benício, companheira da vereadora (PSOL-RJ) Marielle Franco, executada no ano passado.

“Então, quando o Jean olha para a noite do 14 de março [data do assassinato de Marielle Franco], ele viu que as ameaças que vinha sofrendo podiam ser de fato concretizadas”, afirmou Benício, que destacou a coragem com que Jean Wyllys atuou durante seus dois mandatos. Ela enfatizou a importância das estratégias de sobrevivência. “A gente não pode mais ficar perdendo os nossos defensores de direitos humanos para depois contar a história da vida deles”, afirmou.

Ideia também defendida por Erika Hilton, co-deputada eleita pela Bancada Ativista para Assembleia Legislativa de São Paulo. “Jean se recolheu em um gesto estratégico de sobrevivência, mas avisamos aos homens do poder: sai um homem gay, mas vão entrar três travestis negras”, desafiou. Hilton lembrou ainda que o Brasil é um dos países que mais mata LGBTs no mundo. O país registrou 445 casos de assassinatos de homossexuais em 2017, segundo o levantamento do Grupo Gay da Bahia. 

Sob escolta

Jean Wyllys vive sob escolta policial desde a execução de Marielle Franco. Segundo o parlamentar, houve uma intensificação das ameaças de morte – que já aconteciam mesmo antes do assassinato da vereadora.

Após anunciar sua saída, ele afirmou que ligações do clã Bolsonaro com milícias o aterrorizaram: "Quero cuidar de mim e me manter vivo".

No dia 22 de janeiro, a "Operação Os Intocáveis", do Ministério Público e da Polícia Civil, revelou que familiares de milicianos, suspeitos de envolvimento na execução da vereadora Marielle Franco, trabalharam no gabinete de Flávio Bolsonaro.

Após Wyllys anunciar sua saída, integrantes da família Bolsonaro utilizaram as redes sociais para ‘comemorar’ a desistência do parlamentar de seu terceiro mandato. O presidente usou seu perfil no Twitter para escrever “Grande dia!”. Poucos minutos depois, foi a vez de seu filho Carlos Bolsonaro (PSL) escrever “Vá com Deus e seja feliz!” Jair Bolsonaro negou que a mensagem tivesse relação com Jean Wyllys.

Amelinha Telles, militante feminista e presa política durante a ditadura militar, esteve no ato em apoio a Wyllys. Ela criticou a postura de Jair Bolsonaro. E enfatizou que a atitude de um presidente deveria ser a de garantir a participação política de um parlamentar que está sendo ameaçado. “Ele não fez isso. O que confirma a insegurança de Jean Wyllys”, avalia.

Fernando Haddad, ex-candidato à presidência (PT), afirmou: “Nós temos que ter o compromisso, com o Jean e com todas as pessoas que se sentem da mesma maneira, porque ele não é o único, de restabelecer as condições de sociabilidade no Brasil. Nós não podemos aceitar esse novo regime, que está tentando impor e naturalizar o que está acontecendo no país”.

Falência da democracia

"Essa [situação] é uma expressão muito clara da falência da democracia brasileira”, avaliou Vladimir Safatle, filósofo e professor da USP. E lançou o alerta: “Tudo o que está acontecendo aqui não apareceu do nada", referindo-se à ascensão de setores conservadores décadas após o fim da ditadura militar em 1985.

Sobre a trajetória e decisão de Jean Wyllys, o filósofo foi explícito: "Ele tem uma ficha enorme de serviços prestados a causas bastante nobres, então merece todo o nosso apoio" .

O deputado pelo Democratas (DEM), Arthur Mamãe Falei, provocou pessoas durante o ato e após a confusão foi retirado do auditório. A ação levou a chegada de cerca de 20 policiais que disseram ter recebido uma ligação afirmando que uma pessoa teria tido o direito de ir e vir negado.

Marcaram presença no ato o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos; a deputada federal (PT) Benedita da Silva; a ex-candidata à vice-presidência (PCdoB), Manuela D’avila; o presidente do PSOL, Juliano Medeiros; o escritor Fernando Morais; a cartunista Laerte; e a deputada estadual Erica Malunguinho (PSOL).

Edição: Brasil de Fato