Artigo

O histórico de guerras e violência dos EUA por mudanças forçadas de governos

A ativista política estadunidense Medea Benjamin pontua que a Venezuela seria o "68º desastre para mudança de regime"

O que forçará a mudança radical na política estadunidense são a indignação, educação e organização públicas e a solidariedade internacional / Foto: Juan Barreto/AFP

Em sua obra prima Killing Hope: U.S. Military and C.I.A. Interventions Since World War II (Matando a Esperança: Intervenções Militares dos EUA e da CIA desde a Segunda Guerra Mundial, em português), William Blum, que faleceu em dezembro de 2018, escreveu relatórios em capítulos sobre 55 operações de mudança de regime pelos Estados Unidos, desde a China (1945-1960) ao Haiti (1986-1994).

A sinopse de Noam Chomsky na contracapa da última edição diz, simplesmente: “É o melhor livro sobre a matéria”. Concordamos. Se você não leu, por favor, leia. Isso te dará um contexto mais claro sobre o que está acontecendo na Venezuela hoje, e um melhor entendimento do mundo em que estamos vivendo.

Desde que Matando a Esperança foi publicado, em 1995, os EUA realizaram pelo menos outras 13 operações para mudança de regime, muitas das quais ainda estão ativas: Iugoslávia, Afeganistão, Iraque, a 3ª invasão do Haiti desde a Segunda Guerra Mundial, Somália, Honduras, Líbia, Síria, Ucrânia, Iêmen, Irã, Nicarágua e, agora, Venezuela.

William Blum observou que os EUA preferem, em geral, o que seus planejadores chamam de “conflito de baixa intensidade” no lugar de guerras em larga escala. Somente em períodos de supremo excesso de confiança, eles lançaram suas guerras mais devastadoras e desastrosas, da Coreia e Vietnam ao Afeganistão e Iraque. Após suas guerras de destruição em massa no Iraque, os EUA reverteram ao “conflito de baixa intensidade” sob a doutrina de Obama para guerras encobertas e por procuração.

Obama comandou bombardeios ainda mais pesados que Bush II e enviou Forças de operações especiais dos EUA a 150 países ao redor do mundo, porém, ele certificou-se que praticamente todo o sangue e baixas fossem de afegãos, sírios, iraquianos, líbios, ucranianos, iemenitas e outros, não norte-americanos. O que os planejadores estadunidenses querem dizer com “conflito de baixa intensidade” é que é menos intenso aos seus próprios cidadãos.

O presidente Ashraf Ghani, do Afeganistão, revelou, recentemente, que um número enorme de 45 mil membros das forças de segurança afegãs morreram desde que ele tomou posse, em 2014, comparado somente com 72 militares americanos e da OTAN. “Isso mostra quem está realmente lutando”, observou Ghani mordazmente. Essa disparidade é comum a todas as guerras atuais dos EUA.

Isso não significa que os EUA estão menos comprometidos para tentar derrubar governos que rejeitam e resistem à soberania imperialista dos EUA, especialmente aqueles países que contêm vastas reservas de petróleo. Não é coincidência que duas das principais metas das atuais operações para mudança de regime são o Irã e a Venezuela, dois dos quatro países com as maiores reservas de petróleo líquido do mundo (os outros dois são Arábia Saudita e Iraque).

Na prática, “conflito de baixa intensidade” envolve quatro ferramentas de mudança de regime: sanções ou guerras econômicas; propaganda ou “guerra de informações”; guerra encoberta ou por procuração; e bombardeio aéreo. Na Venezuela, os EUA têm utilizado a primeira e a segunda, com a terceira e a quarta apresentadas “sobre a mesa”, pois as duas primeiras já criaram o caos, porém, ainda não derrubaram o presidente Nicolás Maduro.

O governo estadunidense tem sido contrário à revolução socialista da Venezuela desde o tempo em que Hugo Chávez foi eleito, em 1998. Não é de conhecimento da maioria dos norte-americanos que Chávez foi amado pela classe pobre e trabalhadora de venezuelanos, por seu extraordinário grupo de programas sociais que tiraram milhões da pobreza. Entre 1996 e 2010, o nível de pobreza extrema caiu de 40% a 7%. O governo também melhorou substancialmente a saúde e a educação, cortando a mortalidade infantil pela metade, reduzindo a taxa de desnutrição de 21% a 5% da população e eliminando o analfabetismo. Essas mudanças deram à Venezuela o menor nível de desigualdade na região, com base em seu coeficiente Gini.

Desde a morte de Chávez, em 2013, a Venezuela tem passado por uma crise econômica, derivada de uma combinação de má administração governamental, corrupção, sabotagem e a queda enorme do preço do petróleo. A indústria petrolífera é responsável por 95% das exportações da Venezuela, de tal maneira que a Venezuela precisou, por ocasião da queda dos preços, em 2014, de financiamento internacional para cobrir as enormes quedas nos orçamentos, tanto do governo como da companhia petrolífera internacional. O objetivo estratégico dos EUA são as sanções para exacerbar a crise econômica negando o acesso, à Venezuela, do sistema financeiro internacional dominado pelos Estados Unidos para rolar a dívida existente e para obter novo financiamento.

O bloqueio dos EUA dos fundos da Citgo (subsidiaria da empresa estatal venezuelana PDVSA em território estadunidense) priva também a Venezuela de um bilhão de dólares ao ano, em rendimentos que ela recebia anteriormente da exportação, refino e venda no varejo de gasolina aos motoristas norte-americanos.

O economista canadense Joe Emersberger calculou que as novas sanções aplicadas por Trump, em 2017, custou à Venezuela 6 bilhões de dólares somente em seu primeiro ano. Resumindo, as sanções dos EUA são projetadas para “fazer a economia gritar" na Venezuela, exatamente como o presidente Nixon descreveu a meta das sanções norte-americanas contra o Chile depois que o povo chileno elegeu Salvador Allende, em 1970.

Alfred De Zayas visitou a Venezuela como um relator da ONU em 2017 e escreveu um relatório profundo para a organização. Ele criticou a dependência do petróleo, o governo fraco e a corrupção da Venezuela, porém, observou que a “guerra econômica” dos EUA e seus aliados estava exacerbando seriamente a crise. “Sanções econômicas e bloqueios de hoje em dia são comparáveis ao sitiamento de cidades na Idade Média", disse De Zayas.

Sanções do Século XXI tentam trazer de joelhos não somente uma cidade, mas países soberanos. Ele recomendou que o Tribunal Criminal Internacional investigasse as sanções estadunidenses contra a Venezuela como crimes contra a humanidade. Em uma recente entrevista com o jornal Independent, do Reino Unido, De Zayas reiterou que as sanções norte-americanas estão matando venezuelanos.

A economia da Venezuela encolheu aproximadamente metade desde 2014, a maior contração de uma economia moderna em tempos de paz. A Organização Mundial de Saúde (OMS) relatou que o venezuelano médio perdeu incríveis 10,8 quilos de peso de corpo em 2017.

O sucessor do Sr. De Zayas como relator da ONU, Idriss Jazairy, emitiu uma declaração em 31 de janeiro, na qual ele condenou a “coerção” por potências externas como uma “violação de todas as normas de direito internacional”. “Sanções que podem levar à fome e à falta de produtos médicos não são uma resposta à crise na Venezuela”, disse o Sr. Jazairy. “Precipitar uma economia e uma crise humanitária não é um fundamento para a solução pacífica de disputas”.

Enquanto venezuelanos enfrentam a pobreza, enfermidades evitáveis, desnutrição e ameaças abertas de guerra pelos oficiais norte-americanos, esses mesmos oficiais e seus patrocinadores comerciais estão olhando a uma mina de ouro quase irresistível, se eles puderem fazer com que a Venezuela se ajoelhe: uma venda rápida de sua indústria petroleira a companhias estrangeiras e a privatização de muitos outros setores de sua economia, de usinas hidrelétricas a usinas siderúrgicas, alumínio e, também, minas de ouro. Isso não é especulação. Isso é o que o novo fantoche dos EUA, Juan Guaidó, tem prometido repetidamente a seus apoiadores americanos, se puderem derrubar o governo eleito da Venezuela e instalá-lo no palácio presidencial.

Fontes da indústria petroleira têm relatado que Guaidó tem planos para introduzir uma nova lei nacional de hidrocarbonetos que estabelece termos fiscais e contratuais flexíveis para projetos adaptados aos preços do petróleo e ao ciclo de investimento em petróleo. Uma nova agência de hidrocarbonetos seria criada para oferecer rodadas de licitação para projetos relativos ao gás natural e ao petróleo cru convencional, pesado e extrapesado”.

O governo estadunidense declara que está agindo no melhor dos interesses do povo venezuelano, porém, mais de 80% dos venezuelanos, incluindo muitos que não apoiam Maduro, são contra as sanções econômicas devastadoras, enquanto que 86% são contra a intervenção militar dos EUA ou internacional.

Esta geração de norte-americanos já observou como as sanções, golpes e guerras sem fim do governo têm deixado países, um após outro, atolados em violência, pobreza e caos. Como os resultados dessas campanhas têm sido previsivelmente catastróficos para o povo de cada país-meta, os oficiais estadunidenses que promovem e realizam essas campanhas têm um padrão de medida cada vez mais alto, conforme tentam responder a questão óbvia de um público norte-americano e internacional, cada vez mais cético:

“Qual a diferença entre a Venezuela (ou Irã ou Coreia do Norte) e o Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria e pelo menos outros 63 países, onde as operações para troca de regime têm levado somente a longos períodos de violência e caos?”

México, Uruguai, o Vaticano e muitos outros países estão comprometidos com a diplomacia para ajudar o povo da Venezuela a resolver suas diferenças políticas e encontrar um caminho pacífico para o futuro. A maneira mais valiosa que os EUA podem ajudar é parar de fazer com que a economia e o povo da Venezuela gritem (em todos os lados), levantando suas sanções e abandonando sua operação catastrófica e falha de mudança de regime na Venezuela.

Porém, as únicas coisas que forçarão essa mudança radical na política estadunidense são a indignação, educação e organização públicas e a solidariedade internacional com o povo da Venezuela.

*Medea Benjamin é uma ativista política estadunidense, cofundadora da Global Exchange e do CODEPINK: Mulheres pela Paz; é autora do livro "Inside Iran: The Real History and Politics of the Islamic Republic of Iran".

**Nicolas J S Davies é autor de "Blood On Our Hands: the American Invasion and Destruction of Iraq and of the chapter on 'Obama At War' in Grading the 44th President: A Report Card on Barack Obama's First Term as a Progressive Leader".

Edição: Common Dreams