Tensão

Governo venezuelano se prepara para a guerra com o objetivo de garantir a paz

Exército reforça segurança na fronteira da Venezuela com a Colômbia; Brasil de Fato acompanha a patrulha fronteiriça

Brasil de Fato | San Antonio del Táchira (Venezuela)

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Soldados venezuelanos mantêm alerta em fronteira / Foto: Fania Rodrigues

No estado venezuelano de Táchira, na fronteira com a Colômbia, o exército bolivariano se prepara para a possibilidade de uma guerra. A ameaça, segundo o governo do país, vem por meio de uma intervenção militar estrangeira encoberta no discurso de ajuda humanitária. Apesar da tensão que corta a região, "o objetivo é manter a paz", como declarou um dos comandantes da guarda fronteiriça, o general M. Castillo.

No entanto, ciente do risco de um conflito, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, tem afirmado em reiteradas entrevistas e discursos que: “Quem deseja a paz, deve se preparar para defender-se”.

Nesse cenário, a reportagem do Brasil de Fato acompanhou o trabalho das patrulhas de fronteira do lado venezuelano da divisa. Na convivência com os soldados, percebia-se que as ameaças estrangeiras fizeram subir o sinal de alerta das forças de segurança do país e que resguardar a região nunca foi tão importante.

Assista à reportagem em vídeo:

Era 1h da madrugada quando os militares começaram a preparar-se para a missão. Um comboio de seis carros partiu por uma estrada de terra e pedras, cercada pela vegetação de um cerrado denso, que termina em um riacho que não alcança a altura do joelho. O ponto de chegada era uma região pouco habitada, onde o que separa um país do outro é apenas um passo. Não há barreiras naturais nem artificiais. Em alguns casos, há apenas uma cerca de arame farpado.

Em toda a zona de fronteira, o clima nas ruas é de uma tensa calma. Entre os militares de baixa e alta patentes, o ambiente é de devoção à pátria. “Nós estamos sempre patrulhando e desativando as trilhas ilegais, que são utilizadas para o contrabando de extração [de gasolina]. A Colômbia está ali mesmo, do outro lado do rio. É importante fazer patrulhas constantes para a preservação da nossa pátria. É importante que saibam que os soldados de Bolívar, de Chávez, estamos sempre alertas”, disse o general Castillo.

“Chávez vive”, entoa o general. “A luta segue”, responde o soldado. A expressão é usada como uma saudação. Mesmo em ligações telefônicas, é assim que os militares se cumprimentam nessa região do país.

O general Castillo assegura que os homens que hoje defendem o território venezuelano levam consigo os mesmos sentimentos dos soldados do exército libertador de Simón Bolívar, que comandou a independência da Venezuela no século 19. “Nesse momento de ameaça, quando a pátria de Simón Bolívar, de Hugo Chávez, se vê ameaçada, aqui está sua Força Armada Nacional Bolivariana [para defendê-la]. Isso está no nosso sangue, no nosso DNA", afirmou o oficial.

General M. Castillo dá instruções a soldados na fronteira com a Colômbia | Foto: Fania Rodrigues

Fronteira entre pobreza e contrabando

Muitas mercadorias venezuelanas são transportados de maneira ilegal por essa fronteira, o que agrava o difícil acesso a produtos por parte da população venezuelana. Somam-se a isso as dificuldades trazidas pela crise econômica, a queda do valor do barril de petróleo e o bloqueio internacional contra a Venezuela.

O contrabando de gasolina é o negócio mais lucrativo da região fronteiriça. Segundo dados da Cooperativa Multiativa de Pimpineros do Norte de Santander (Coomulpinort), conformada por vendedores ilegais de combustível – os chamados pimpineros – da Colômbia, cerca de 41% de toda a gasolina consumida no departamento (estado) de Norte de Santander é extraída ilegalmente do país vizinho.

Além disso, Cúcuta, município que faz divisa com a Venezuela, é a sexta cidade mais pobre da Colômbia, além de ser área atingida pela violência de grupos paramilitares e de narcotraficantes. Mais de 33% de sua população está abaixo da linha da pobreza e a indigência é de 7%, segundo dados oficiais do governo de 2016. O índice de pobreza tem se mantido estável desde 2010, no entanto a indigência vem aumentando desde 2014. Há dez anos, a pobreza era ainda maior, atingia cerca de 55% da população.

Nesse sentido, as mazelas sociais e econômicas dessa região contribuem para aumentar a complexidade da segurança nessa zona fronteiriça. As principais missões do exército venezuelano são para impedir o contrabando de gasolina venezuelana para a Colômbia e o tráfico de cocaína colombiana para a Venezuela.

Hoje, as prioridades mudaram, e impedir uma possível ação militar protagonizada por Estados Unidos e Colômbia é a tarefa principal do exército bolivariano. Na semana passada, o presidente Nicolás Maduro anunciou um “plano de deslocamento especial” na fronteira com a Colômbia, contra o que chamou como “planos de guerra” dos governos de Donald Trump e Iván Duque.

Tanques das tropas venezuelanas começaram a chegar na fronteira. Junto ao efetivo militar, o governo Maduro promoveu uma ação especial de envio de alimentos e remédios desde a última semana, que se somam às 300 toneladas de ajuda humanitária enviadas pela Rússia na última segunda-feira (18). Além disso, na última semana, 933 toneladas de remédios vindos por China, Cuba e Rússia.

::: O que está acontecendo na Venezuela? :::

Do lado colombiano, fala-se em 90 toneladas de ajuda humanitária enviadas pelos EUA. Sobre isso, o presidente Nicolás Maduro repudiou a “ajuda humanitária” estadunidense e afirma que a mesma tem o objetivo de desencadear uma intervenção militar. “Congelaram e roubaram 30 bilhões de dólares [nossos] no exterior. Agora oferecem 20 milhões de dólares em comida apodrecida e contaminada”, acusou Maduro nessa segunda-feira (18).

Caravana opositora

O líder opositor e autoproclamado presidente da Venezuela, Juan Guaidó, anunciou, no dia 12 de fevereiro, que os partidos opositores ao governo de Maduro farão uma caravana da capital Caracas até a fronteira com a Colômbia para fazer uma força-tarefa pela entrada de ajuda humanitária dos EUA em território venezuelano. A data marcada é o próximo sábado, 23 de janeiro.

Na mesma toada, o empresário da música e magnata britânico Richard Branson anunciou um megashow que será realizado nessa sexta-feira (22), na cidade de Cúcuta, lado colombiano da fronteira. Entre os artistas anunciados estão Miguel Bosé, Luis Fonsi, Maluma, Carlos Vives, Carlos Baute, Maná, Diego Torres, Chyno, Nacho, Peter Gabriel, Fonseca, Juanes, el Dj Alesso, Ricardo Montaner, Rudy Mancuso, Mau y Ricky, Danny Ocean, Alejandro Sanz e até a brasileira Anitta. No entanto a assessoria da cantora já negou sua participação no evento.

Como resposta, o governo venezuelano informou, na tarde de segunda (18), que também realizará shows e eventos culturais do lado venezuelano nos dias 22 e 23 de fevereiro, além de uma “ocupação cultural” nas principais cidades do país.

Edição: Vivian Fernandes