Futuro

Quais os desafios do chavismo e da oposição na Venezuela?

Se as ações de opositores levam a uma soma zero, o governo Maduro tem que enfrentar um contexto econômico adverso

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

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Em protestos semanais, chavistas e opositores fazem das ruas palco da política venezuelana / Foto: Rafael Stedile

Em um conflito armado, o empate negativo se produz quando os dois lados estão perdendo, mas ninguém ganha a guerra. Um outro termo, passado para um contexto político, é o de soma zero, como utilizado pelo analista político Marco Turuggi para se referir sobre a disputa entre o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e seu opositor e autoproclamado presidente do país, Juan Guaidó.

Em artigo publicado na teleSUR, Teruggi afirma que o opositor, apesar de promover diversas ações para atingir Maduro, inclusive com forte apoio de países imperialistas, ainda não conseguiu colocar o mandatário "contra as cordas", para forçá-lo a uma negociação em "correlação adversa", o que faz com que o presidente eleito se mantenha no comando do Palácio de Miraflores. Ao mesmo tempo, a economia do país está em uma crise que impacta a grande maioria do povo venezuelano.

Segundo Teruggi, em entrevista ao Brasil de Fato, a complexidade dessa situação está também no fato de que uma possível insatisfação com o chavismo, e consequentemente com Maduro, não reflete em ganhos para a oposição. “Nos fatos concretos, para a maior parte da população, Maduro é o único presidente. O que não quer dizer que a gestão de Maduro, sobretudo na questão econômica, tenha boa aceitação. Também não quer dizer que isso se refletiria em um cenário eleitoral, ou seja, não quer dizer que Guaidó teria apoio eleitoral contra um chavista”, afirma o sociólogo argentino radicado na Venezuela.

Ele diz ainda que a base social da oposição não sofreu alteração, sendo menor do que a chavista no país, por isso a correlação de forças não sofreu mudanças. “Isso ficou claro quando Guaidó regressou de sua viagem, no dia 4 de março. A concentração de pessoas que o recebeu foi em uma zona rica da cidade, essa é base social histórica da oposição, com características de classe muito marcadas, quando sua ambição, na verdade, é outra”.

Ou seja, falta para o governo Maduro acertar os rumos da economia e conseguir enfrentar as sanções econômicas que diversos países, em especial os Estados Unidos, mas falta muito mais para Juan Guaidó ganhar o apoio popular.

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Pesquisa

A disputa política venezuelana, entre as forças chavistas e opositoras, encontra-se em um estado em que o chavismo permanece na frente, mas com fortes pontos de crítica. Uma pesquisa da empresa brasileira Ideias Big Data, a pedido da revista Exame, do final de fevereiro, mostra como essa questão se aplica na prática.

Para 52% dos entrevistados, Maduro é o presidente do país, e apenas 21% consideram Juan Guaidó como mandatário. Na questão da ajuda humanitária estrangeira, a opinião está mais equilibrada, com 44% das pessoas a favor da entrada e 34% contra, mais 17% dos entrevistados disseram não saber e 5% não responderam.

Pesquisa da mesma empresa realizada um mês antes aponta um nível de 76% de não apoio a Maduro, contudo, Guaidó só alcança 40% de apoio entre a população, o que significa que a insatisfação não resulta em votos para o opositor.

Esse índice é menor do que os partidos opositores alcançaram na eleição para governadores, realizada em outubro de 2017. Esse foi o último pleito em que participaram todos os partidos opositores. Reunidos na coalizão Mesa da Unidade Democrática (MUD), receberam 44% dos votos válidos, enquanto o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), de Nicolás Maduro, obteve 55% dos votos em todo o país, segundo dados oficiais do Conselho Nacional Eleitoral.

O que pensa a oposição

Para o político venezuelano Francisco Arias Cárdenas, ex-governador do estado de Zúlia (fronteira com a Colômbia), a oposição tem falhado ao propor respostas imediatas. “As ofertas de soluções instantâneas da oposição venezuelana têm sido constantes. Uma amostra disso é que seus líderes então revezando na presidência da Assembleia Nacional”. E tal estratégia, diz Arias Cárdenas, não contribui nem com a oposição nem com o chavismo.

“Essa conduta da oposição não é boa para seus planos, mas também não é interessante para o governo, que se vê obrigado a restabelecer medidas de sobrevivência e estar em constante estado de emergência, na defensiva desses ataques, do boicote econômico e das ameaças de invasão militar”, escreveu o político, em um artigo recente publicado no jornal venezuelano El Universal.

Em relação a esse cenário de disputa, sem resultado contundente para nenhuma das partes, o analista político venezuelano José Vicente León, articulista de jornais ligados à oposição, analisou que os efeitos esperados pela oposição em relação às sanções contra a Venezuela não são positivos.

“Vão produzir um colapso [na economia], mas não necessariamente uma fratura [do chavismo]. Dessa forma restarão dois cenários: uma negociação ou a força. Algum deles vai ocorrer, mas não será tão rápido como alguns esperam”, escreveu León em sua conta no Twitter.

Já o deputado e atual líder opositor Juan Guaidó tem defendido abertamente uma saída pela força. Ele afirmou diversas vezes que “todas as cartas estavam sobre a mesa” e que não descartava uma “guerra civil”. Em uma declaração à imprensa, no dia 22 de fevereiro, ele disse que os “mortos não representam custos, mas investimentos para o futuro”. Mas os países que apoiam Guaidó, como os integrantes do Grupo de Lima, descartaram uma intervenção militar, por enquanto.

Edição: Vivian Fernandes