Feminismo

Março das Mulheres | Venezuelanas são "ponta de lança" na batalha política no país

Brasil de Fato visita locais de trabalho e militância para entender o papel delas na Revolução Bolivariana

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

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No bairro de Antímano, em Caracas, mulheres constroem edifício com as próprias mãos / Fania Rodrigues

Venezuela é nome feminino e são as mulheres a base da sociedade organizada no país. Elas estão nas comunas, nos movimentos sociais e nos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAPs), estruturas organizativas das classes populares conformadas no marco da Revolução Bolivariana para gerir políticas públicas destinadas ao “Poder Popular”, um dos pilares do Estado.

No mês das mulheres, o Brasil de Fato conversou com venezuelanas que participam de diversas iniciativas organizadas no país para conhecer mais sobre o trabalho de base e as lutas que elas encampam.

Comitês Locais de Abastecimento e Produção

Os CLAPs são organizados por bairro pela própria comunidade, e seus dirigentes são eleitos pela população. Esses comitês distribuem os alimentos subsidiados pelo governo para 6 milhões de famílias, o que equivale a aproximadamente 20 milhões de pessoas, ou seja, dois terços da população do país, de acordo com números oficiais. Os CLAPs são importantes porque, hoje, os produtos que os comitês distribuem a baixo custo são a base da alimentação da maior parte da classe popular.

As mulheres são maioria em todas essas estruturas, com mais de 60% de participação, segundo dados oficiais do Ministério das Comunas. Em alguns lugares, esse índice é ainda maior. É o caso do bairro de Manicomio, na região La Pastora, no centro de Caracas, onde Angélica Calzadilla, de 33 anos, é uma das líderes comunitárias. “Nós nos organizamos através de dois conselhos comunais: Ali Primera, com 340 famílias, e o Canaima, que tem 710 famílias. Nos dois casos, a participação feminina é de 80% dos integrantes”, diz Angélica.

Bloqueio econômico

As mulheres representam uma base que sustenta a Revolução Bolivariana e foram fortemente atingidas pela guerra econômica contra a Venezuela e pelo bloqueio internacional imposto pelos Estados Unidos. A consequência disso é que acabam sendo vítimas diretas da escassez de produtos.

A agricultora urbana e dirigente de movimento social Orailene Maccarri, de 45 anos, afirma que as venezuelanas foram privadas do acesso a produtos que impactam mais as mulheres. “Nessa guerra econômica, o governo dos Estados Unidos sabe que nós, mulheres, somos a ponta de lança da revolução, por isso somos atacadas e somos as mais afetadas. Até hoje faltam pílulas anticoncepcionais, absorventes íntimos, itens de higiene pessoal e produtos de beleza, porque a gente não produzia isso no país”, denuncia.

Orailene está consciente dos desafios que seu país enfrenta. Ela afirma que as mulheres estão à altura da responsabilidade histórica que se apresenta na atualidade, na luta pela construção de um modelo político em que ela acredita e diz estar pronta para defender.

Os gestos de uma mãe dedicada e amorosa contrastam com as mãos calejadas, a força física adquirida no cultivo da terra e a da convicção de quem se diz disposta a sustentar um fuzil para defender o projeto de país em que acredita. “Se vão nos atacar militarmente, queremos alertá-los de que não vamos acender incenso nem rogar aos deuses, tampouco estaremos na retaguarda. Nós, as mulheres venezuelanas, vamos estar no fronte, com fuzis e balas preparadas. Se houver um problema, tenham certeza de que não estaremos em nenhum outro espaço que não seja ao lado dos nossos homens”, ressalta a agricultora urbana.

Dirigente Orailene Macarri fala sobre o papel da mulher na Revolução Bolivariana | Foto: Fania Rodrigues

Orailene também é advogada. “Estudei direito por sobrevivência, porque a gente era atacada pelos latifundiários e tinha que se defender.” Ela se define como advogada dos pobres, mas cuja atividade econômica principal é o trabalho na terra. Ela e outras sete companheiras fazem parte de um coletivo de mulheres que produzem alimentos em um terreno de 4 mil metros quadrados, em plena área urbana de Caracas. O local fica no bairro de Antímano, na zona oeste da cidade, região popular onde a organização coletiva das mulheres se tornou um exemplo.

Atualmente, o grupo cultiva 15 tipos de hortaliças, grãos e tubérculos e sete tipos de frutas, além de plantas medicinais e ornamentais. Juntas, elas produzem uma tonelada de peixe por ano, além de criarem 22 coelhos e um porco, que também acaba sendo um “reciclador orgânico”, já que muitas sobras de alimentos são consumidas pelo animal e suas fezes se transformam em adubo junto com outros materiais degradáveis.

A atividade econômica de Orailene não está dissociada de sua atuação política. Ela é uma das porta-vozes eleita por integrantes de organizações camponesas para representá-los no Conselho Presidencial Camponês, que reúne 582 organizações de base e 18 nacionais. “Neste momento, estamos semeando, planejando, construindo. As mulheres do país estamos educando, levando cultura aos nossos filhos, mas também cuidando a dignidade do nosso povo”, ressalta a camponesa.

Nova geração

Gabriela Maccarri, de 15 anos, a filha mais nova de Orailene, segue os passos da mãe e também participa das lutas sociais na capital venezuelana. Ela se uniu com outros jovens do bairro para recolher assinaturas para um abaixo-assinado pela paz na Venezuela, pedindo que “cessem os tambores da guerra”, como parte de uma campanha nacional promovida pelas organizações políticas chavistas.

Depois dessa iniciativa, ela passou a fazer parte do Conselho de Juventude de Legisladores. “Acolhemos uma séria de propostas e reivindicações em bairros remotos para levar aos legisladores municipais”, explicou a estudante do ensino médio.

Ela conta ainda que, com os amigos, tem conversado com outros jovens de sua idade que se envolveram em protestos violentos, nas chamadas “guarimbas”, em 2016 e 2017. “Muitos deles têm uma atitude violenta, como um amigo meu que atacou um guarda nacional com um coquetel molotov, mas é claro que o guarda ia reagir em legítima defesa. Ele apanhou e ficou ainda mais revoltado. O guarda não devia ter feito isso porque ele é uma criança, mas também é humanamente compreensível. Então, tentamos conversar de jovem para jovem, porque muitas famílias também não sabem o que fazer”, diz Gabriela.

Estudante Gabriela Maccarri conta como ela e amigos ajudam a mobilizar o bairro | Foto: Fania Rodrigues

Gabriela afirma que os adolescentes do bairro popular onde mora e que participaram das guarimbas não chegavam aos 17 anos. “Eram todos crianças, entre 12 e 15 anos”, relata. "A ideia é recuperar esses jovens, não deixar que se percam na violência", diz a jovem.

Mulheres construtoras

No mesmo bairro de Antímano, a poucos metros da plantação urbana do coletivo de que Orailene faz parte, outras 90 mulheres estão construindo um edifício onde vão viver com suas famílias. O movimento Infantaria Revolucionária pela Moradia recebeu recursos concedidos pelo programa social estatal Missão Moradia Venezuela, que construiu 2 milhões de casas populares nos últimos 20 anos. O dinheiro é autogerido pelas futuras proprietárias e são elas mesmas que colocam a mão na massa. Para isso, elas se revezam em turnos semanais e mantêm 16 pessoas trabalhando na obra todos os dias.

“Estamos construindo 95 apartamentos, mas inicialmente vamos levantar os 45 primeiros. Cerca 85% das pessoas que estão construindo aqui são mulheres. Aqui temos multifunções, somos eletricistas, assentamos tijolos, há as que mantêm a logística para os trabalhadores da obra. É um trabalho aguerrido”, diz a porta-voz do movimento, a dona de casa Ayary Rojas, de 48 anos.

Porta-voz da Infantaria Revolucionária, Ayary Rojas, conta que as mulheres são 85% das pessoas que participam de mutirão de construção de moradias populares | Foto: Fania Rodrigues

Entre as mulheres construtoras também está Yrcedia Boada, de 44 anos, que cria e educa sozinha os dois filhos (um de 10 e outro de 19 anos). A mãe de família diz que construir a própria moradia mudou a relação entre os membros da família. “Estava com um filho adolescente dando muito trabalho em casa, estava em uma fase muito rebelde, revoltado. No começo ele vinha comigo ajudar na obra meio obrigado. Mas depois de alguns meses foi mudando a atitude. Agora está servindo no exército e, nos dias de folga, ele passa aqui ajudando. Saber que isso é nosso, da família, fez com que ele visse o sentido de pertencer a um lugar e a uma vida em comum com os vizinhos”, conta, orgulhosa.

Como Yrcedia, 40% das venezuelanas são chefes de família. Elas educam os filhos, trabalham para levar o sustento para a família e, no caso do mutirão de construção de moradias populares de que Yrcedia faz parte, constroem a própria casa. “Não estamos apenas construindo casas, mas também um modo de vida coletivo, em comunidade. Uma comunidade socialista”, destaca a dona de casa.

Edição: Aline Scátola