HISTÓRIA

Conheça Manoel Bomfim, intelectual esquecido e rebelde do início do século XX

O médico e professor é tema do novo documentário de Carlos Pronzato, "Por que não se fala em Manoel Bomfim?”

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

,

Ouça o áudio:

Manoel Bomfim foi um médico, intelectual, político, educador, psicólogo e sociólogo proeminente do início do século XX / reprodução

Você já ouviu falar de Manoel Bonfim? A importância da vida e obra deste pensador para o entendimento das bases da sociedade brasileira e a compreensão da relação do país com a América Latina é grande, porém pouco conhecida. Considerado um dos intelectuais mais importantes para a constituição da base, corpo e alma do pensamento social brasileiro, o autor ainda é desconhecido por grande parte do país. Foi com esse espírito que o cineasta, escritor e poeta argentino-brasileiro Carlos Pronzato idealizou o documentário “Por que não se fala em Manoel Bomfim?”

Pronzato contou, em entrevista ao Programa Brasil de Fato Rio de Janeiro da última quinta-feira (4), que se deparou com a história de Manoel Bomfim em Aracaju no ano de 2011 quando estava na cidade finalizando um filme sobre o militante Carlos Marighella. “Anos depois, com a aparição dessa personagem trágica que temos na presidência, comecei a me interessar novamente por Bomfim. Comecei a ler os textos dele, me lembrou muito dos debates que temos hoje. Então, é um filme muito atual, [Bonfim] foi um sociólogo, um médico, um educador, que atuou no início do século XX”, declarou.

Manoel Bomfim nasceu em 1868  na capital de Sergipe, Aracaju, e além de médico, psicólogo, professor, sociólogo e pedagogo, ele é autor da obra “América Latina: Males de Origem”, um dos primeiros livros que traça uma interpretação do Brasil e da América Latina e que mais tarde é resgatado por figuras como Darcy Ribeiro nos anos de 1980. Segundo um de seus biógrafos, Ronaldo Conde Aguiar, Bomfim era “uma voz que ousava dizer o indizível, um pensador que não temia pensar o impensável”.

A polêmica mais famosa em que o pensador se envolveu foi contra o sergipano e crítico literário Sílvio Romero.  O ensaísta era de uma ala intelectual que via o brasileiro como semibárbaro e defendia o embranquecimento da população como solução para um “defeito de formação” étnica do povo. Bomfim, por outro lado, defendia a miscigenação e negava a validade científica de teorias racistas da época. Ele, que chegou a ser deputado estadual, acreditava na educação libertária como instrumento para a construção da cidadania. Segundo Bonfim, este seria o caminho para corrigir questões estruturais brasileiras.

A discordância entre os dois intelectuais rendeu mais de 25 artigos nos jornais, dos quais somente um foi de Bomfim, à época ainda um iniciante na arte de argumentar, segundo Conde Aguiar em seu livro “O Rebelde Esquecido”.

“Bomfim foi uma figura que se opôs a todo o sistema de interpretação do Brasil naquele período. É pioneiro de uma visão que está presente em livros que vieram depois, como Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda e os livros de Gilberto Freire. Também na área da Psicologia ele foi um pioneiro; na educação, uma figura que se estivesse aqui, estaria escrevendo bastante contra esse momento histórico que estamos vivendo", disse Pronzato.

O documentário será lançado em Aracaju, terra natal de Bomfim, e tem sua primeira exibição marcada para o dia 16 de abril, ainda em lugar a definir. Carlos Pronzato é também diretor do documentário Lama, sobre o crime da Vale em Brumadinho. 

Edição: Jaqueline Deister/ Redação: Flora Castro / Entrevista: Denise Viola