autogestão

Fábrica recuperada por trabalhadores há 14 anos gera renda para três mil venezuelanos

Núcleo socialista fabrica roupas, móveis, mochilas, sapatos, cadernos, entre outros artigos em 80 unidades produtivas

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

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No Núcleo Endógeno são produzidos uniformes das escolas públicas de Caracas (Foto: Michele de Mello) / Michele de Mello

A Venezuela completa 20 anos da Revolução Bolivariana, processo de transformações sociais e econômicas iniciado pelo presidente Hugo Rafael Chávez Frías e seguido por Nicolás Maduro Moros.

A orientação socialista desses governos é evidente no discurso, mas também em experiências reais vividas pela população. Nesta segunda parte, da série de três reportagens do Brasil de Fato, conheça a história da união de cooperativas que buscam enfrentar o bloqueio econômico e liberar a vida dos trabalhadores da economia guiada pelo lucro. 

:: Leia também a parte 1. Panal 2021: a comuna que busca acabar com dependência do capitalismo na Venezuela ::

Uma feira de alimentos esconde a fachada discreta do Núcleo de Desenvolvimento Endógeno Socialista Francisco de Miranda (Nudes), uma estrutura de 27 mil metros quadrados que abriga cerca de 370 trabalhadores, na região leste de Caracas. Diferente da das indústrias capitalistas, o Nudes não tem uma grande placa ou o uma entrada com recepção lustrosa.

Ao lado da estação de metrô Los Cortijos, o que separa o perímetro industrial do público é um portão colorido, que é aberto com orgulho para todos que se aproximam.

Além de hortaliças a preços mais acessíveis, do Núcleo sai de tudo um pouco: roupas, móveis em madeira, troféus, mochilas, sapatos, cadernos, materiais gráficas e mais uma série de artigos feitos em uma das 80 unidades de produção, baseadas na autogestão.

“Todos nós chegamos aqui através de uma ocupação. Não tínhamos espaço e tomamos esse espaço para produzir. Naquela época, o comandante Chávez criou um projeto produtivo chamado ‘Vuelvan Caras’ [mostrem suas caras, em português], e aí nós tomamos esse espaço”, conta Ursulina Espinoza, costureira e membro desde a sua criação, há quase 14 anos.

A missão Vuelvan Caras foi criada em março de 2004, durante o segundo mandato de Chávez, com o propósito de criar 1,2 milhão de novos empregos, oferecendo cursos e crédito para a formação de cooperativas de trabalhadores. Foi nesse contexto que um grupo de venezuelanos dos bairros mais pobres do município Sucre, na Grande Caracas, viram a oportunidade de manter sua atividade econômica, mas ajudando uns aos outros, sem patrões.

“Um país produtivo se faz assim, começando a fazer outras coisas”, argumenta Aida Bernal, outra costureira que atendeu ao chamado do fundador Tony Rodríguez para criar uma cooperativa junto com três colegas e fazer parte do Nudes.

“Se não existisse esse processo revolucionário, eu poderia não estar aqui falando com você nesse momento, já que as condições sociais daquele momento não permitiam perspectiva de vida, perspectiva de melhores condições de vida para a população pobre. Seria impossível”, sentencia Tony Rodríguez.

Do abandono à recuperação

Tocume Têxtil era o nome da fábrica que funcionava nessas instalações anteriormente. Propriedade de uma família de argentinos judeus, a empresa que empregava cerca de 900 pessoas veio a falência e 1992, durante o governo de Carlos Andrés Pérez (1989-1993), e foi abandonada.

Um dos trabalhadores que perderam o emprego e a renda foi Feliman Rodríguez, que dedicou 17 anos da sua vida a produzir para a têxtil Tocume. Muitos desses anos, ele trabalhou acompanhado do filho, Tony, que 14 anos mais tarde voltou à indústria – para recuperá-la do abandono e estruturá-la para ser um espaço de trabalho autônomo e auto gerido por trabalhadores.

Em 2006, o Movimento Social Revolucionário de Trabalhadores (MRST) conquistou o título de posse da estrutura e começou a reformar e produzir.

Boa parte da maquinaria e mobília teve que ser retirada, restaurada ou dispensada. No entanto, para Tony, essa não foi a pior parte. O mais difícil foi conseguir aprender a administrar seu próprio negócio. “Ninguém nunca nos ensinou a administrar os meios de produção. Nos cursos nos ensinaram a fazer o que já sabíamos: trabalhar”, relembra.

 



Aida Bernal é a coordenadora da cooperativa que forma com outras quatro costureiras. (Foto: Michele de Mello)

Com a ajuda de um livro de Carlos Torrealba sobre o pensamento econômico de Ernesto Che Guevara e materiais que explicavam a forma de organização das cooperativas criadas nos assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o grupo seguiu adiante e prosperou.

Atualmente 33 militantes do MRST se dividem em comissões administrativa, de cultura, finanças, formação, saúde, entre outras, para poder acompanhar todos os aspectos da fábrica e de seus companheiros de trabalho. Mensalmente cada cooperativa ou unidade produtiva paga uma mensalidade que pode variar de um a três salários mínimos, de acordo com seu tamanho.

Nos meses em que os trabalhadores não podem contribuir com dinheiro, contribuem com serviços prestados ao próprio Núcleo ou à comunidade. Um exemplo é uma cooperativa de assistência técnica para equipamentos de refrigeração que, em vez de pagar, fazem a manutenção dos aparelhos do Nudes e de outras duas creches da região.

— Queremos impulsionar um Polo de Desenvolvimento Endógeno, que ultrapasse a questão territorial. Quando falamos do poder popular, que seja assumido pelas comunas, nós perguntamos nas nossas assembleias: 'poder para quê?' E o poder a partir do povo, a partir das bases é para gerar bem estar e justiça social. Não para pisotear, nem subjulgar ninguém, é para liberação, para atender assuntos fundamentais, como saúde, educação, moradia e o trabalho sustentável no tempo. Esse é o nosso projeto a médio e longo prazo como comuna —, explica o fundador do Nudes, Tony Rodríguez.

Cerca de 3 mil pessoas tem sua atividade econômica vinculada direta ou indiretamente ao Núcleo. O local também abriga a Comuna Aliança Bolivariana, ainda está em formação, que conta com outras estruturas, como uma academia, um consultório médico com vacinação e atenção primária de saúde. A iniciativa faz parte da missão Barrio Adentro (Favela a dentro) e dispõe ainda de espaços para reuniões políticas, além de ser o lar de cerca de 90 famílias.

Estado se tornou cliente

Apesar de ter tido um impulso inicial do governo bolivariano, os trabalhadores se orgulham de ter uma história autônoma. Hoje o Estado venezuelano é cliente do Nudes para vários serviços.

Na cooperativa Luz Nascente, de Alba Bernal e suas amigas, são confeccionados os uniformes das escolas públicas, distribuídos através do sistema Pátria e das lojas dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP). Para a costureira, essa é uma forma de fazer do seu ofício, um trabalho social.

“Temos um esquema de liberação, na qual não há uma relação patrão-assalariado. A intenção é de que esse é um processo revolucionário e o centro da nossa proposta é o ser humano, não a mercadoria”, afirma Rodríguez.

 

Ursulina Espinoza (vermelho):  Nós não deixamos de produzir nunca. Nós aqui estamos batalhando, custe o que custar" Foto: Michele de Mello

Inspiração revolucionária

Solidariedade, força, união são algumas das palavras mais presente nas conversas com trabalhadores do Nudes. Também são algumas das máximas escritas nos muros da empresa, complementando os cartazes de campanha, quadros e adornos do presidente Hugo Chávez, do libertador Simón Bolívar, do líder revolucionário Fidel Castro e vários outros personagens da luta por soberania na história da América Latina.

“São nossos pais, os que nos semearam a liberdade. Eu acho que isso é o que nos simboliza como grandes seres humanos, eu acredito que nós verdadeiros venezuelanos não deveríamos esquecer o que nos deixou Bolívar, a liberdade que Chávez nos deu”, conta emocionado o carpinteiro de postura humilde José de Castro, que trabalha há 6 anos no Núcleo.

 

José de Castro: "É muito bonito poder trabalhar você mesmo, ainda mais na profissão que você ama, de trabalhar com a madeira" (Foto: Michele de Mello)

Enfrentando a sabotagem dos Estados Unidos

Mirando a soberania, independência, autonomia e liberdade, os trabalhadores do Núcleo buscam enfrentar o bloqueio total imposto pelo governo dos Estados Unidos, através da Ordem Executiva assinada por Donald Trump, no início de agosto.

“Agora mais que nunca necessitamos unidade. Para que as pessoas vejam que aqui sim se pode. Com cada um colocando um grão de areia podemos reconstruir esse país outra vez. Não importa que nos bloqueiem. Isso dá indignação. Um país tão rico… Eles querem se apoderar do nosso país. Eles acreditam que prejudicam um governo, mas estão gerando danos a um povo”, argumenta Aida Bernal.

As trabalhadoras e trabalhadores reconhecem, porém, que as sanções emitidas desde 2015, pelos Estados Unidos e pela União Europeia, têm afetado a produção e dificultado o acesso a matéria prima, como tintas, fios de costura e peças de reposição para a maquinaria.

Também pelo fato de estar localizada numa zona historicamente opositora, o leste da capital, a fábrica recuperada foi alvo de ataques nas guarimbas (atos violentos) de 2014 e 2017. Durante mais de 100 dias, os chamados guarimbeiros, tentaram invadir o Nudes, atear fogo, quebrar a entrada e chegaram a ameaçar os trabalhadores.

Apesar do entorno hostil, os trabalhadores nunca perdem o sorriso no rosto e amabilidade ao falar. “Persistindo, perseverando e produzindo. Nós não deixamos de produzir nunca. Nós aqui estamos batalhando, custe o que custar. Isso aqui é uma trincheira. Aqui tudo que nos lançam nós nos defendemos. Por isso dizemos, somos como as baratas, porque elas resistiram à bomba atômica e assim nós vamos vencer”, garante Ursulina Espinoza.

 

Na parte de carpintaria, também se produzem urnas e caixões (Foto: Michele de Mello)

Para a coordenadora de gestão, Ingrid Rodríguez, o segredo é a união. “Independente de todo o bloqueio que nos estão impondo, há um povo consciente trabalhando e produzindo. É um desafio. Dizemos que deve ser mais o compromisso político. Esse foi o chamado do comandante Chávez no discurso do Golpe de Timón: construir e não nos deixar abater. Em meio a essas dificuldades estamos sempre tentando animar as pessoas a trabalhar, a fazer propaganda pra ter mais produção”, argumenta.

Edição: Rodrigo Chagas