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Michael Löwy: Dos governos de direita, Bolsonaro é o que mais tem traços neofascistas

Em entrevista ao Brasil de Fato, sociólogo marxista compara o capitão reformado ao "Mussolini dos anos 1920"

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

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Michael Löwy trabalha como diretor de pesquisas no Centre National de la Recherche Scientifique em Paris, na França
Michael Löwy trabalha como diretor de pesquisas no Centre National de la Recherche Scientifique em Paris, na França - José Eduardo Bernardes

Há mais de 40 anos, o paulistano Michael Löwy vive na França. Foi em solo europeu que consagrou-se como um dos intelectuais marxistas mais conhecidos e respeitados no mundo. Ao longo das décadas, Löwy, hoje aos 81 anos, tornou-se uma referência nos debates da esquerda não apenas brasileira, como também latino-americana.

Na virada para a primeira década dos anos 2000, um novo tema passou a figurar atrelado ao seu nome. O sociólogo tornou-se mundialmente conhecido pelos estudos da perspectiva ecossocialista, defendendo a urgência do debate ecológico pelo campo marxista.

Michael Löwy atendeu a reportagem do Brasil de Fato para falar sobre o novo lançamento da Editora Expressão Popular, o livro Notícias de Lugar Nenhum. A introdução da obra é assinada por ele.

Durante a conversa, o pensador marxista também se propôs a analisar temas do cenário político-social brasileiro e global.

O avanço da extrema direita no Brasil, as semelhanças com os governos fascistas europeus no século 20, o desmonte da política ambiental no governo de Jair Bolsonaro e a resistência política foram alguns dos temas elucidados por Löwy. Frente a um cenário classificado por ele como “ressurgimento de formas neofascistas ou semifascistas”, o sociólogo afirma que a esperança está na juventude.

Confira os melhores momentos da entrevista:

Brasil de Fato: Para começar, gostaria de entender em quais termos e como o senhor caracteriza o governo de Jair Bolsonaro no Brasil.

Michael Löwy: O que a gente está vivendo no Brasil, atualmente, é uma distopia. O contrário da utopia. Para nós, que somos da esquerda brasileira e lutamos durante tanto tempo para avançar nas ideias, lutas e conquistas dos trabalhadores, do socialismo e do progresso, realmente é triste ver como o Brasil chegou ao ponto de ter um governo que eu caracterizaria, pelo menos, como semifascista.

Não chega a ser inteiramente fascista porque faltam os aspectos do Estado totalitário, dos bandos armados, como os “fascio” de [Benito] Mussolini. Mas realmente há muitos aspectos do fascismo. Acho que Jair Bolsonaro é muito comparável, por exemplo, com Mussolini dos anos 1920. Nestes anos, Mussolini ainda mantinha certas aparências de uma república parlamentar, havia até oposição no parlamento, da qual o principal chefe era um democrata, o [Giacomo] Matteotti, e entre os deputados estava Antonio Gramsci. Tudo isso durou até 1926, quando ele fecha o parlamento, prende Gramsci, que fica na prisão até sua morte (1937), e manda assassinar Matteotti. Aí foi o fim. Espero que não cheguemos a isso aqui no Brasil.

Vejo a figura de Jair Bolsonaro e de boa parte de seu governo com traços fascistas de autoritarismo, com essa ideia de que precisamos "exterminar" o inimigo. O inimigo sendo a esquerda, as feministas, os indígenas, o MST, etc. Esse ódio ao "comunismo", que para ele é toda a esquerda, é uma característica do fascismo — assim como a ideia de que a única solução é a repressão.

Temos muitos governos de extrema direita no mundo hoje em dia, infelizmente, como [Donald] Trump, nos Estados Unidos, [Viktor] Orbán, na Hungria, [Narendra] Modi, na Índia. Mas o que tem mais traços semifascistas, ou neofascistas, é o de Jair Bolsonaro.

Felizmente, ele não tem poder total. Contrariamente aos Estados totalitários, como foram os italiano, alemão e franquista [na Espanha], ele não tem o poder total. Tem que negociar com o Parlamento, com o Senado e mesmo com as forças armadas. Essa é uma situação que ainda o diferencia do fascismo clássico dos anos 1930. A história obviamente não se repete, mas é muito preocupante.

Outra diferença com o fascismo é que esse personagem foi eleito democraticamente pela população. Não foi um golpe militar, como tivemos tantos na América Latina nos anos 1960 e 1970; foi uma eleição democrática, e isso é muito triste.

Por outro lado, a gente vê que as pessoas que caíram nessa vigarice estão acordando. A popularidade de Bolsonaro caiu muitíssimo, já há mobilizações e resistência. Uma delas, e para mim muito importante, é a mobilização sindical contra a reforma da Previdência, uma reforma ultrarreacionária.

Obviamente, as classes dominantes estão gostando. Há um consenso entre as oligarquias, os proprietários de terra, os latifundiários e os banqueiros que acham que Bolsonaro é uma saída porque ele está construindo um programa neoliberal, da maneira mais brutal, como a oligarquia dominante brasileira há muito tempo gostaria de realizar.

Outra resistência que acho muito importante é a dos indígenas da Amazônia, que estão lutando para defender as florestas e os rios. A Floresta Amazônica é um bem do povo brasileiro e da humanidade. Sem ela, a mudança climática vai se acelerar.

No governo de Bolsonaro, parece que as políticas socioambientais perderam a importância. Desde que ele assumiu, a liberação de agrotóxicos acontece em um ritmo acelerado e houve um salto de quase 90% no desmatamento da Amazônia, por exemplo. Mesmo o campo progressista demorou para entender a importância desta pauta. Como o senhor vê esse tema hoje?

Estou convencido de que a questão do ambiente, ou da natureza, ou ecológica, se tornará cada vez mais central no século 21. Não é só uma questão de defender o meio ambiente, nossas florestas ou as espécies animais. É uma questão de sobrevivência da vida no planeta. Se o processo de mudança climática e aquecimento global superar certo nível de elevação, se tornará irreversível.

A partir de certo momento, cabe a pergunta de se ainda há condições para a vida humana neste planeta. É uma questão realmente de vida ou morte. Por isso, vai se tornar a questão política central para qualquer projeto de mudança social. É muito importante que a esquerda, os movimentos sociais, os operários, os camponeses, todos eles, tomem a questão ambiental e ecológica como uma questão política fundamental e uma razão central para lutar contra o capitalismo. É o capitalismo o responsável por isso.

É muito importante que os socialistas compreendam isso e assumam esse combate como uma coisa central, e não como um detalhe em uma lista de 45 pontos do programa. É uma batalha central para o futuro da humanidade. Esse é o meu "recadinho": nós precisamos nos apropriar da questão ecológica como uma arma na luta contra o capitalismo.

O que há de comum entre o avanço da direita na Europa e na América Latina? 

A globalização liberal e a crise econômica, que ela provocou a partir de 2008, criaram um contexto que foi favorável a esse ascenso espetacular não só da direita clássica neoliberal, mas também da extrema direita semifascista, com rasgos racistas, autoritários em muitos países do mundo. Isso vai do Japão à Índia, boa parte da Europa, Estados Unidos e Brasil. 

Não tenho uma explicação do porquê isso está acontecendo. Tenho vários elementos: a crise do neoliberalismo é um aspecto, o enfraquecimento da esquerda é outro. Mas, para mim, ainda é um enigma o porquê de, justamente nesses últimos anos, a gente estar assistindo a esse fenômeno, que não é exatamente a volta dos anos 1930, porque a história nunca se repete, mas é o ressurgimento de formas neofascistas ou semifascistas.

Sobre esperança, para finalizar. O senhor vê alguma saída? Qual seria?

A saída para mim são as lutas e a resistência. Aqui na América Latina, em primeira linha, estão os indígenas e os camponeses. Outro elemento que nos dá esperança é a juventude. A juventude que, no mundo inteiro, está se mobilizando em 20 de setembro para uma grande greve geral internacional sobre a questão da mudança climática, contra os governos que não estão tomando nenhuma providência.

Sabemos que a juventude é o futuro. Se a juventude está se mobilizando, está lutando, tomando consciência e levantando a parada de ordem "Mudemos o sistema e não o clima", então existe esperança.

Edição: Katarine Flor