INTEGRAÇÃO

“Novo ciclo popular é possível na América Latina”, afirma pesquisadora da Argentina

Para Mariana Vazquez, da Universidade de Buenos Aires, eleições na Argentina poderão romper ciclo neoliberal na região

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Alberto Fernandéz e Cristina Kirchner em ato da coalizão "Frente de Todos" / Foto: HO/Noticias Argentinas/AFP

A vitória de Alberto Fernández e Cristina Kirchner nas eleições primárias da Argentina pode significar o começo de um novo ciclo popular na América Latina. Essa é a avaliação da professora da Universidade de Buenos Aires (UBA), Mariana Vazquez. “Os projetos populares não acabaram, estão em disputa na região. A região tem uma situação que é filha de golpes, não é por vontade popular que estamos nesse caminho de hoje”, explicou em entrevista ao programa Brasil de Fato.

Antes da eleição do presidente Jair Bolsonaro (PSL), a pesquisadora detalhou que a onda conservadora no continente começou com o golpe contra o presidente Fernando Lugo em 2012 no Paraguai, passando pela vitória da direita na Argentina em 2015 com Maurício Macri, seguido pelo golpe contra Dilma Rousseff e a suspensão da Venezuela do Mercosul, ambos em 2016. Vazquez participa nesta quinta-feira (29) do Ciclo de Seminários de análise da conjuntura mundial, que ocorre no Campus da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Brasil de Fato:  Porque devemos pensar em uma integração latino-americana?

Mariana Vazquez: Normalmente as pessoas não acreditam que seja tão importante, como é na verdade. Sobretudo para países como os nossos, que são países não desenvolvidos e periféricos na sua participação na economia e na política internacional. A integração é chave e estratégica porque nem mesmo o Brasil pode realmente ter uma presença forte no contexto internacional, no mundo, sem se integrar com os países da região. Agora estamos em um momento muito difícil em que governos não estão acompanhando os processos de integração e estão desmontando o Mercosul, a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). Devemos refletir porque isso não é bom para os nossos países.

No caso do Mercosul, por exemplo, tem gente que pensa que o tratado estabelece apenas relações comerciais. Mas a proposta do Mercosul sempre foi além…

Muito além, mas depende muito do momento. Quando nasce o processo de integração em 1991, com o Tratado de Assunção, o objetivo era sobretudo comercial, livre comércio entre os países. Mas na verdade, nas origens, na década de 1980, tinha um objetivo muito mais amplo e ambicioso que era o fortalecimento da democracia, da paz e da estabilidade política regional e melhorar nossa autonomia para definir políticas no mundo. Acho que devemos pensar nisso de novo porque na última década, entre 2013 e 2012, talvez naturalizamos isso e agora estamos perdendo. A democracia e a paz estão ameaçadas. A integração regional, além da economia e do comércio, é muito importante para nossa região, pois nós tivemos ditaduras, em governos militares pensavam que o inimigo era um vizinho. Não é pouca coisa que os países se integrem para conservar a paz, a estabilidade, a democracia na região.

Esta política está ameaçada por uma onda conservadora que não é exclusivamente brasileira, correto?

O começo das ameaças à integração, nos países que fazem parte do Mercosul (Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela) começou em julho de 2012 com o golpe de estado no Paraguai, depois a vitória da direita em Argentina com Mauricio Macri em 2015, o golpe contra Dilma em 2016 e a suspensão ilegal da Venezuela do Mercosul em dezembro de  2016 também. Então não é por acaso que o Mercosul está tendo esse caminho, porque o caminho é filho dos sucessivos golpes que aconteceram na região. É um caminho para maior dependência econômica, para desmontar tudo que foi a construção social e cidadã do Mercosul entre 2003 e 2013, as ameaças à paz no caso da Venezuela, onde os presidentes tentam continuar o projeto dos Estados Unidos que não é para paz, mas para fortalecer sua presença na região. Esse caminho não é democrático, um exemplo disso é a proibição do Lula ser candidato, o que chamamos de law fare. É um caminho que volta aos anos 90, mas é mais grave, pois tem deterioração da democracia e as ameaças à paz.

A vitória, por exemplo, de Alberto Fernandez e Cristina Kirchner, nas eleições primárias na Argentina pode significar a ruptura com esse ciclo neoliberal?

Acho que sim, nunca sabemos qual é o futuro, mas é uma possibilidade muito certa. Todos que falaram no final do ciclo, na verdade estavam nos mentindo, tentando mostrar uma realidade que não era real. Os projetos populares não acabaram, estão em disputa na região. Por isso mesmo digo que a região tem uma situação que é filha dos golpes, porque não é por vontade popular que estamos nesse caminho hoje. Acho que sim, realmente temos uma possibilidade certa de começar um novo ciclo popular na região.

Edição: Vivian Virissimo | Entrevista: Denise Viola