entrevista

Comportamento do governo é "obscurantista e autoritário", diz ex-diretor do Inpe

Ao BdF, Ricardo Galvão fala sobre Amazônia, ciência nacional, ingerência estrangeira e a postura do governo

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

,

Ouça o áudio:

Galvão dirigiu o Inpe entre 2016 e junho deste ano, quando foi exonerado do cargo por Jair Bolsonaro (PSL) / Foto: José Eduardo Bernardes

Até julho deste ano, Ricardo Galvão foi diretor do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), orgão responsável por divulgar os dados relativos ao desmatamento na Floresta Amazônica. Naquele mês, dados disponibilizados pelo instituto mostraram um aumento histórico do desmatamento no país e geraram críticas do presidente Jair Bolsonaro, que chegou a afirmar que as informações eram mentirosas e acusar Galvão de estar a serviço de ONGs estrangeiras.

Apoiado pela maior parte da comunidade científica brasileira, Galvão defendeu os dados e rebateu as acusações do presidente. Por resistir, foi exonerado do cargo e agora está de volta aos laboratórios e salas de aula da USP.

Ele diz não se arrepender e que acredita ter dado sua contribuição à instituição. Resumindo a volta à academia, Galvão explica que sua função agora é "dar aulas e trabalhar com alunos, consertar equipamentos, tentar arrumar recursos. A vida normal de um professor universitário, o que eu mais gosto de fazer".

Ricardo Galvão tem 71 anos e é natural de Itajubá, Minas Gerais. Cientista respeitado, foi professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e é docente do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) desde 1983. De 2005 a 2012 foi diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, a convite do grande físico brasileiro Roberto Salmeron. De 2013 a 2016 presidiu a Sociedade Brasileira de Física.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Galvão afirma temer a perda do prestígio internacional alcançado pela ciência brasileira nas últimas décadas. "Eu não vou dizer que a ciência esteja abalada, mas ela está sendo desrespeitada ou até mesmo atacada. Claramente há nesse governo um comportamento obscurantista e autoritário", argumenta. 

Confira abaixo a entrevista conduzida pelo Brasil de Fato com o cientista. 

A ciência está abalada neste momento por conta desta gestão presidencial? 

Eu não vou dizer que a ciência esteja abalada, mas ela está sendo desrespeitada ou até mesmo atacada. Claramente há nesse governo um comportamento obscurantista e autoritário. Isso tem feito com o que governo questione várias vezes resultados científicos consolidados. 

O prestígio internacional do Brasil cresceu nas últimas três décadas. Nós somos responsáveis por 2% de toda a produtividade científica mundial.

Já tem quem ataque a soberania nacional com respeito a Amazônia, dizendo que é um bem de todos e isso poderia dar brechas para muitas situações. A que ponto isso pode chegar?

Em certo ponto, o governo até tem razão. Certamente há interesses de outros países na Amazônia e há interesse em competir com a nossa exportação agrícola. No entanto, a atitude do governo de desprestigiar sua própria ciência e seu próprio instituto de pesquisa, o Inpe, está ajudando os estrangeiros. 

Depois de sua exoneração, qual foi o sentimento da comunidade científica? 

Mesmo antes de minha exoneração, a comunidade científica brasileira já havia se manifestado fortemente. Quando o General Heleno acusou os dados do Inpe de serem manipulados houve forte reação. A Academia Brasileira de Ciência e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, junto com outras cinco instituições científicas de grande prestígio mandaram uma carta ao presidente da república, com cópia para os ministros da ciência e tecnologia e do meio ambiente e para o próprio General Heleno reafirmando a credibilidade do trabalho realizado pelo Inpe. Não houve resposta do governo.

Como a gente chegou nesse governo tão desrespeitoso com a ciência e com o meio-ambiente? 

No mundo todo tem havido um movimento obscurantista, talvez até incentivado pelas mídias sociais, porque ali se colocam facilmente acusações supérfluas que não são contestadas de forma profunda como é necessário. 

No Brasil, isso foi exacerbado porque círculos próximos do governo têm um pensamento obscurantista e autoritário e um sentimento de que toda a comunidade científica brasileira está dominada pela esquerda. 

Na época em que eu ainda estava no governo, [às vezes] era perguntado sobre projetos e recomendava que se consultasse a Academia Brasileira de Ciências, por exemplo. [Então] eu recebia como resposta que isso não seria feito porque seria uma resposta de gente da esquerda. Infelizmente essa leitura dominou o governo e tornou o diálogo muito difícil. 

Como você recebeu as palavras do presidente de que os estudos eram mentirosos?

Fiquei extremamente indignado. Conheço toda a equipe que fez o estudo. São pesquisadores de alto nível, respeitados no Brasil e no exterior, que têm uma dedicação enorme. 

Quando eu digo que os dados de uma instituição pública de pesquisa são mentirosos, estou acusando os pesquisadores de falsidade ideológica. Se o presidente da república tinha suspeitas de que os dados eram mentirosos, então ele tinha obrigação de abrir uma comissão de sindicância. Por que não o fez? Pior, ele me acusou de estar a serviço de uma ONG internacional. Isso é uma acusação muito grave. 

Você diria que sofreu uma perseguição direta do governo? 

Antes de ser diretor do Inpe, fui diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro. Isso foi durante o governo Lula. Pode ser que o governo me atrelasse ao período Lula. Isso pode ter ocorrido a eles. Mas acho que a razão é mais profunda. Desde janeiro, o ministro Ricardo Salles vem atacando os dados fornecidos pelo Inpe no nosso sistema de alertas (DETER) com o argumento de que não tinha a precisão necessária e que não permitia que eles atuassem, o que é uma tremenda inverdade. 

Esse sistema começou em 2004, e com ele foi possível reduzir drasticamente o desmatamento da Amazônia. Mais de 27 mil km2 em 2003 e 4 mil km2 em 2012. Desde janeiro eu o tenho confrontado. Não na imprensa, mas através de notas técnicas produzidas pelo próprio Inpe, ofícios enviados ao ministro de Ciência e Tecnologia e também através de mensagens enviadas por e-mail. 

Sempre argumentei contrariamente. Agora não sei porque o ministro Ricardo Salles adotou essa ideia de que tem que contratar uma empresa estrangeira, porque o Inpe já faz muito bem, com grande respeito da comunidade internacional. Talvez esse confronto que eu mantive tenha sido interpretado como um obstáculo.

Supostamente, as nuvens de fuligem causadas pelas queimadas da Amazônia chegaram até o sudeste. Isso é mesmo possível?

Sim, devido aos fluxos [de ar] na alta atmosfera. Sabemos, por exemplo, que todo o regime pluviométrico do centro sul do Brasil até a Argentina se deve às fortes correntes de ar úmido que vêm da Amazônia. Parte dessa nuvem de fuligens sobre São Paulo veio da Amazônia [brasileira], parte da Bolívia. A maior parte, de queimadas de "limpeza" do que foi desmatado na Amazônia. 

Qual é o risco proporcionado pelo aumento das queimadas?

Não é o risco da queimada, é o risco do desmatamento. A principal função da amazônia é diminuir o aquecimento global. A melhor ferramenta para controlar o aumento do gás carbônico na atmosfera é a absorção de carbono pelas árvores. Quando há desmatamento, esse carbono é emitido como CO2 na atmosfera. Além disso, se a floresta amazônica for desmatada em mais do que 25% ou 40% - os modelos variam um pouco - ela vai irreversivelmente tender para uma savana. Isso seria um desastre total para o nosso país. 

Desde a descoberta do Brasil, estima-se que a floresta amazônica cobria 4 milhões de quilômetros quadrados. Desde então, nós desmatamos cerca de 20%. E o mais preocupante é que 11% foi a partir de 1988. Nós não estamos apenas desmatando, mas desmatando em uma taxa cada vez maior, esse é o grande perigo. 

O governo quer contratar uma plataforma americana para fazer as medições do desmatamento na Amazônia, substituindo o Inpe. Ao mesmo tempo, existe também uma ingerência externa na floresta, representada pelas ações recentes da cúpula do G7. Isso significa que as potências internacionais vão ocupar gradualmente a Amazônia?

Essa empresa americana, a Planet, já havia feito pressão sobre o ministério do meio-ambiente dois anos atrás, para que o ministério a contratasse. O Ministério chegou a abrir licitação, mas essa licitação foi bloqueada pelo Ministério Público. Espero que o Ministério Público o faça novamente, porque é totalmente descabido um agente público abrir um edital de contratação já dando preferência a uma empresa. 

Há interesse de outras nações em dominar a Amazônia. Acho que foi até uma certa infantilidade do presidente da França [Emmanuel Macron]. Isso não é fácil de fazer, não vai ser feito. Se o governo brasileiro reage a isso, reage com razão. Agora, a solução para a Amazônia não pode dispensar a colaboração internacional de jeito nenhum. Os parceiros internacionais tem que trabalhar com o Brasil respeitando a soberania brasileira. Só que a soberania brasileira é respeitada se a capacidade científica do Brasil foi respeitada, e ela está sendo desrespeitada pelo próprio governo. 

Durante o governo Bolsonaro houve uma série de ataques à educação. Bolsas de pesquisa foram cortadas, programas de ciência e intercâmbio foram aniquilados, e há mais cortes previstos - de R$ 900 mi -divulgados recentemente. Como caminha a academia brasileira nessa situação?

A situação está muito ruim. Esse decréscimo no apoio à pesquisa científica vem desde o governo Dilma. Durante os governos FHC e Lula, o apoio à ciência foi notável. O governo Fernando Henrique criou os fundos setoriais de apoio a pesquisa e o governo Lula não só os manteve, como aumentou fortemente. 

A ciência brasileira cresceu fortemente. As universidades foram bastante melhoradas na gestão do ministro Fernando Haddad [PT], mas infelizmente já no governo Dilma esse apoio começou a cair. O primeiro erro, na minha opinião, foram os recursos empregados no Ciência sem Fronteiras. Foram R$ 13 bilhões tirados da pesquisa científica e colocados nesse programa, que deu retorno quase nenhum. 

O que torna pior o governo Bolsonaro, na minha opinião, é essa atitude de desprezo. Não só está piorando, como não há preocupação em recuperá-la. O ministro Paulo Guedes tem uma visão extremamente capitalista, contrária a investimentos do governo. Em todo o mundo, a formação acadêmica e a pesquisa científica são financiadas fortemente pelo governo.

*colaborou Marcos Hermanson

Edição: Rodrigo Chagas