GREVE GLOBAL

Em audiência na Alesp, movimentos populares reforçam compromisso com a luta ambiental

Evento destacou importância de construir agenda própria para discutir mudanças estruturais no modelo de produção global

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Articulação inclui o Fórum Socioambiental, que acontecerá em São Paulo, no fim de janeiro de 2020 / Foto: Lu Sudré

Em preparação para a Greve Global pelo Clima, movimentos sociais e ambientalistas realizaram uma audiência pública na manhã desta quinta-feira (19), na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). O debate foi organizado pelo comitê pró Fórum Socioambiental, que deve acontecer entre os dias 30 de janeiro e 2 de fevereiro de 2020, com o objetivo de fortalecer a articulação popular em defesa do meio ambiente. 

A audiência, mediada pelo deputado estadual Paulo Fiorillo (PT), ressaltou a importância dos protestos que acontecerão em diversos países nesta sexta feira (20) por ações de combate às mudanças climáticas. 

Durante o evento, Gilmar Mauro, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), afirmou que o colapso ambiental é o resultado do modelo de desenvolvimento capitalista, também responsável por crises econômicas, políticas e sociais.

Exatamente por isso, o dirigente defendeu que a mobilização em defesa do meio ambiente deve ser prioritária.

“É uma questão não só conjuntural para fazer enfrentamento político agora. É uma questão estrutural que o movimento popular, sindical, partidos políticos, que todos nós temos que assumir daqui por diante”, argumentou.  

A Greve Global pelo Clima ocorre no momento em que a atenção mundial está voltada para o Brasil devido às queimadas na Amazônia, causadas por fazendeiros da região. A devastação da maior floresta tropical do mundo é acompanhada por políticas de destruição da agenda ambiental brasileira adotadas pelo governo de Jair Bolsonaro (PSL), que frequentemente despreza e critica as causas socioambientais. 

A socióloga Sabrina Fernandes também esteve presente na audiência na Alesp e ressaltou que os desafios das mudanças climáticas e da crise ecológica só serão superados coletivamente, por meio da mobilização popular.  

Fernandes, que já participou de diversos eventos sobre o tema, como a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (Cop) e fóruns da ONU, explica que esses espaços costumam apresentar “soluções ecocapitalistas”.

“Nós encontramos delegações oficiais dos governos, representantes das indústrias de combustíveis fósseis. Sabemos que o interesse do capital é muito presente nessas negociações. Os interesses do lucro estão realmente acima do tipo de ação drástica que precisamos tomar em relação a isso. Por isso termos espaços que partem diretamente dos movimentos, que partem das organizações políticas que representam o povo, que representam a maioria”, afirmou. 

Fernandes destacou ainda que o Brasil está entre os grandes emissores de dióxido de carbono no mundo. De acordo com dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg), em 2017, o Brasil emitiu cerca de 2 bilhões de toneladas de CO2, o que tornou o país o sétimo maior emissor de gases do efeito estufa. 

Quase metade (46%) dessa quantidade foi emitida pelo setores do desmatamento, seguidos por 24% de emissões das atividades agropecuárias e 21% do setor de energia e transporte.

“Boa parte das emissões no Brasil estão vindo de mudanças no uso da terra. As mudanças no uso da terra tem a ver com o que? Com o desmatamento, com o agronegócio. Se as emissões aumentam provenientes disso, o Brasil poderia fazer total diferença no processo de tentar manter a temperatura do planeta abaixo de 1,5º, uma meta estabelecida no COP 21, formalizada no COP 22 e no Acordo de Paris. Mas, atualmente, muito de nós estamos céticos com essa possibilidade”, criticou a socióloga. 

“Nosso panorama temporal é 2050. E 2050 não está tão longe assim. Temos filhos e netos. Temos que prestar bastante atenção em que planeta estamos deixando para as pessoas. Estamos no limite da situação planetária”, ressaltou.

Ela criticou ainda o “negacionismo climático” de Bolsonaro e de Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente. No fim do ano passado, o então presidente eleito pediu para que o Brasil não sediasse a Conferência do Clima da ONU de 2019, a COP-25. O evento internacional será realizado no Chile em novembro.

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Lutas conjuntas

A codeputada Chirley Pankará, da Bancada Ativista, alertou que a política antiambiental do governo visa exterminar os povos indígenas de todo o Brasil. 

“Estão autorizando garimpo dentro das nossas terras, contaminando nossos rios. Poluindo nossas matas. Eles fazem usinas nucleares dentro das nossas terras. Meu povo em Pernambuco está lutando contra uma usina nuclear. Eles estão dando canetadas para acabar com a gente e com o meio ambiente”, lamentou Pankará.

“Os guarani-kaiowá morrem todo dia por causa dos gados que querem criar nos nossos territórios. Não é porque somos indígenas, eles não gostam do indígena por conta da nossa terra. Porque nossa terra é rica. Rica porque sabemos o período de plantar, deixamos a terra descansar. Não fazemos como o agronegócio que só planta, planta, planta. Uma terra dessa não presta mais pra nada”, reforçou a indígena. 

Ivanete Araújo, da Frente de Luta pela Moradia (FLM), também participou da audiência e ressaltou a importância da conscientização da sociedade, que deve atuar coletivamente em defesa do meio ambiente. 

A liderança destacou que a luta por moradia digna também levanta essa bandeira. “Quando ocupamos um prédio pensamos em como conservar formas de vida além da nossa naquele espaço. Temos voluntários que trabalham com reciclagem que pegam pallets, madeiras, que poderiam ir pro rio e fazemos bancas. Há hortas verticais dentro das ocupações. Reutilizamos a água”, exemplificou.

Ela pondera, no entanto, que a implementação de medidas sustentáveis dentro das ocupações ocorre na medida do que é possível. A falta de apoio do poder público para ações como coleta reciclável e formações de conscientização, por exemplo, é um empecilho.  

Apesar das dificuldades, Araújo assegura que a FLM estará nas mobilizações da Greve pelo Clima, em defesa de um mundo mais justo e sustentável. "Enquanto não tivermos uma política justa voltada para os sem teto, justa e honesta, atendendo todos os moradores, vamos continuar na luta. Vamos fazer as ocupações de moradia e nossas hortas suspensas. É o espaço que temos na selva de concreto. Vamos continuar recuperando a madeira que vai jogar fora”. 

Mobilização contínua

O Fórum Socioambiental, que acontecerá em São Paulo no fim de janeiro do ano que vem,  dará seguimento às mobilizações em defesa do meio ambiente. 

Gilmar Mauro, dirigente do MST, explicou que ocupar o espaço da cidade é importante para estabelecer um diálogo amplo com a sociedade.

“Se não diminuirmos a emissão de CO2 em um curto espaço de tempo, alguns pesquisadores afirmam que em 70 anos o estado de São Paulo estará inabitável. Temos que discutir os problemas ambientais nos grandes centros urbanos porque o impacto disso é muito grave principalmente para as regiões periféricas”. 

A perspectiva é que na programação do Fórum ocorra formações sobre estudos e pesquisas na área do meio ambiente, debates sobre as relações entre as crises socioeconômicas e ambientais, oficinas autogestionadas e apresentações culturais. 

A ideia é que no último dia do evento, ocorra uma grande assembleia popular sobre as perspectivas da luta popular e ambiental para o ano de 2020. 

Estiveram presentes na audiência pública diversas organizações. Entre elas, Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento pela Soberania Nacional na Mineração (MAM), Sintaema, Articulação Paulista de Agroecologia, SOS Paranapiacaba e Santa Cecília Sem Medo. 

Edição: Rodrigo Chagas