Política pública

Inspirado em Lula, favorito à presidência da Argentina lança programa contra a fome

Caso vença a disputa, o peronista Alberto Fernández promete projeto semelhante ao brasileiro “Fome Zero”

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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"Nossa maior vergonha é a fome", afirmou Fernández em entrevista coletiva na Universidade de Buenos Aires (UBA) / Foto: Juan Mabromata/AFP

O favorito na corrida presidencial argentina, Alberto Fernández, tem delineado suas prioridades de governo caso tome posse em 10 de dezembro. A principal delas é erradicar a fome, problema que acomete 35,4% da população do país – 7,7% estão em estado de indigência. Para isso, o candidato de linha peronista (Partido Justicialista - PJ) lançou o plano “Argentina Sem Fome”, inspirado no brasileiro “Fome Zero”, criado em 2003 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). 

O lançamento do programa argentino ocorreu nesta segunda-feira (7) na sede da Faculdade de Agronomia e Veterinária da Universidade de Buenos Aires (UBA). "Nossa maior vergonha é a fome", considerou Fernández em entrevista coletiva.

Os últimos dados oficiais do Observatório de Dívida Social da Universidade Católica (UCA) da Argentina revelam que metade dos menores de 15 anos não conseguem se alimentar adequadamente. O objetivo do programa, segundo Fernández, é "obter melhor alimentação e nutrição, diminuir o preço dos alimentos, gerar maior renda para as famílias e acabar com o círculo da fome, exclusão e pobreza".  

O candidato peronista, que venceu as eleições primárias, tem como companheira de chapa a ex-presidenta da Argentina, Cristina Kirchner. Ele foi chefe de gabinete de Néstor Kirchner e de Cristina entre 2003 e 2008, quando Lula era presidente do Brasil. Seu oponente nas eleições de novembro é o atual chefe de governo Mauricio Macri (Proposta Republicana‎ - PRO).

Entre as propostas do “Argentina Sem Fome” estão a redução do custo da cesta básica, a criação de um cartão para aquisição de comida e o fortalecimento de pequenas empresas e “centros de economia popular” voltados para a produção de alimentos. A título de exemplo, um litro de leite no país vizinho custa o mesmo que na Espanha, onde a renda per capita (por pessoa) é mais do que o dobro.

Os pilares levantados pelo candidato kirchnerista também se espelham no “Fome Zero” de Lula, como o Cartão Alimentação e o Programa de Aquisição de Alimentos — traçado para compras públicas da produção familiar e camponesa. 

"Vivemos em um país que diz ter potencial para alimentar 400 milhões, mas que não consegue resolver a fome de 15 milhões de pessoas pobres”, criticou Fernández durante o lançamento do programa.

::Favorito à Presidência da Argentina, Alberto Fernández visitará Lula em Curitiba::

Legado lulista

 

O candidato argentino discursou na Vigília Lula Livre, após visitar o ex-presidente, em julho deste ano (Foto: Instituto Lula)

No Brasil do início de 2003, 44 milhões de pessoas sobreviviam com menos de um dólar por dia, ou seja, em situação de insegurança alimentar. Um ano mais tarde, o programa já beneficiaria 11 milhões de pessoas em 2.369 municípios, especialmente do semiárido e das regiões mais pobres do Nordeste. Em menos de uma década, cerca de 15 milhões de brasileiros passaram a ter uma alimentação digna.

O reconhecimento ao “Fome Zero” veio, inclusive, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) que, em 2014, tirou o Brasil do Mapa da Fome pela primeira vez. No entanto, dados recentes apontam para a retomada dos níveis de extrema pobreza no país. Conforme estudo divulgado pela FAO em 2018, a fome atinge pelo menos 5,2 milhões de brasileiros, vítimas da insegurança alimentar e desnutrição. 

Grande admirador do ex-presidente, o candidato argentino é entusiasta do bordão "Lula livre" por entender que o petista é um preso político. Professor de Direito Penal na UBA há mais de 30 anos, Fernández visitou Lula na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba (PR) em julho deste ano

As duas pesquisas mais recentes apontam que o candidato peronista pode ganhar a eleição já no primeiro turno. De acordo com as consultoras Opinaia e Federico González & Asociados, o cenário político para Fernández é de vitória de 48% contra 30% de Macri e de 50% contra 27,9%, respectivamente.

Para se eleger em primeiro turno, o candidato precisa angariar 45% dos votos ou 40% e uma distância de 10 pontos percentuais do segundo colocado.

Edição: Rodrigo Chagas