Oriente Médio

Turquia ataca forças curdas na Síria após Trump retirar tropas da fronteira

Comunidade internacional condenou ofensiva e suposto plano turco para garantir volta de refugiados; ação já matou 15

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Família protesta nesta quinta (10) em Arbil, capital da região autônoma curda no norte do Iraque, contra ofensiva turca no nordeste da Síria / Foto: Safin Hamed/AFP

A Turquia deu início a uma ofensiva militar contra as forças curdas no nordeste da Síria na quarta-feira (9) e já vitimou pelo menos 15 pessoas, incluindo oito civis. A operação foi lançada pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, três dias depois de Donald Trump anunciar a retirada de tropas estadunidenses da região da fronteira entre Síria e Turquia.

A operação coloca em conflito dois aliados dos Estados Unidos: no lado sírio da fronteira, a aliança com as forças curdas foi crucial no combate ao Estado Islâmico (EI) nos últimos cinco anos. Do outro lado, a Turquia, aliada dos EUA na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), alega que os ataques são direcionados às Unidades de Proteção Popular (YPG) para criar uma “zona de segurança” para o retorno de milhões de pessoas refugiadas para a Síria.

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As YPG são milícias que integram as Forças Democráticas da Síria (FDS). A Turquia acusa o grupo de ter ligação com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), movimento de luta armada pela autodeterminação do povo curdo, considerado pelo governo de Erdogan como organização “terrorista”.

Na Síria, os próprios EUA optaram por se aliar com forças curdas nos últimos anos para combater o Estado Islâmico e não à oposição apoiada pelos turcos. Brett McGurk, que foi enviado especial da coalizão de combate ao Estado Islâmico desde o governo de Barack Obama até 2018, explicou pelo Twitter no início da semana que a decisão estadunidense de manter a aliança com as FDS era justificada porque as forças turcas na Síria têm vínculos com extremistas, inclusive da Al-Qaeda. Para as organizações curdas, a aliança com os americanos tinha caráter tático, para fortalecer a luta contra a invasão de seus territórios.

“Péssima ideia”

O jornal The New York Times noticiou que, em ligação a Erdogan no domingo, Donald Trump teria consentido com a ofensiva turca e decidido pela remoção das tropas à revelia do Departamento de Estado e dos militares estadunidenses. Mas algumas horas depois do início do ataque, Trump se contradisse e afirmou que o ataque turco à Síria foi uma “péssima ideia”.

O presidente dos EUA afirmou que seu objetivo com a retirada era sair de “ridículas guerras sem fim”, mas ameaçou “destruir” a economia da Turquia se o país “passar dos limites”, sem especificar que limites seriam esses.

::Sete mil ativistas fazem greve de fome em prisões turcas, segundo partido curdo::

A chamada “Operação Primavera de Paz” surpreendeu observadores pela magnitude da ofensiva por ar e por terra, atacando em uma extensão de 300 quilômetros na fronteira e avançando até 50 quilômetros no país, segundo a Al Jazeera. O governo afirmou que já realizou 181 ataques aéreos até a manhã desta quinta-feira. A operação está concentrada em grandes cidades de maioria árabe, o que é avaliado como uma manobra estratégica para garantir uma recepção melhor da população.

As autoridades curdo-sírias, por sua vez, convocaram toda a população da região a se dirigir à fronteira com a Turquia para “cumprir seu dever moral de resistência neste momento histórico e delicado”, informou o Opera Mundi

Reação internacional

Em nota divulgada no mesmo dia do início da operação, a União Europeia pediu que a Turquia “suspendesse a ação militar unilateral” contra as Forças Democráticas da Síria.

Em resposta ao posicionamento do bloco europeu, Erdogan fez declarações em tom de ameaça à União Europeia nesta quinta-feira (10). “Se [a UE] classificar a operação de invasão, abriremos as porteiras e enviaremos 3,6 milhões de refugiados para vocês”, afirmou durante discurso a membros de seu Partido da Justiça e do Desenvolvimento.

Erdogan se referia ao número de pessoas que se refugiaram da guerra civil da Síria. O país também acolhe atualmente mais de 365 mil pessoas de outras nacionalidades que fugiram de situações de conflito, violência e perseguição, segundo a Agência da ONU para Refugiados (Acnur).

A União Europeia também criticou o plano de criação de uma “zona de segurança” para o retorno de refugiados, argumentando que a transferência forçada de pessoas em situação de refúgio não atende a critérios internacionais estabelecidos pela Acnur.

Alemanha, França, Reino Unido, Bélgica e Polônia convocaram uma reunião de emergência no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas para esta quinta-feira (10) para discutir a situação.

Edição: Brasil de Fato