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Leia na íntegra o discurso do ex-presidente Lula no último sábado (9) em São Bernardo

O petista retornou à sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e fez um novo pronunciamento após 580 dias de prisão

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Ouça o áudio:

Fala durou cerca de 40 minutos e atacou o governo de Bolsonaro (PSL): "Não podemos permitir que os milicianos destruam o que construímos" / Guilherme Gandolfi

No último sábado (9), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou para uma multidão de apoiadores em ato político no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP).

No retorno ao mesmo local em que fez seu último discurso antes de permanecer preso por 580 dias, Lula fez sua leitura sobre a situação atual do Brasil e reafirmou compromisso com a luta do povo brasileiro.

Em um pronunciamento duro contra Jair Bolsonaro (PSL), o ex-presidente defendeu as medidas de distribuição de renda de sua gestão e atacou as medidas liberais do atual governo.

::Lula: “Não podemos permitir que os milicianos acabem com o país que construímos”::

Leia na íntegra:

Queridos companheiros, queridas companheiras, vocês não têm dimensão do que significa o dia de hoje para mim. Lá em cima está o helicóptero da Rede Globo de Televisão, pra falar merda outra vez sobre o Lula e sobre nós. 

Eu fiquei em dúvida se eu vinha aqui fazer um discurso ou ter uma conversa com vocês, porque são 580 dias numa solitária em que eu tinha dois advogados que me visitavam: o doutor Rocha, das 10h às 11h, e o doutor Caetano, das 16h às 17h. Na quinta-feira, eu tinha meus filhos, tinha a companheira Janja - que é a pessoa com quem eu vou casar assim que eu tiver condições. Cadê a Janja? Já fugiu, já fugiu aqui. E das 16h  até as 17h eu recebia duas visitas por semana… eu tinha visita religiosa toda segunda-feira, depois eles cortaram. Eles queriam que eu recebesse como visitante religioso um cara, que era um padre que visitava todos os presos, e eu me recusei a receber ele. E somente esses dias é que voltou a visita religiosa. 

Vocês sabem que muitos de vocês não queriam que eu fosse preso no dia 7 de abril do ano passado. Eu lembro que eu precisei persuadir vocês a compreenderem o papel que eu tinha que cumprir. E eu quero repetir aqui, hoje, uma coisa que eu falei naquele dia: quando um ser humano, um homem ou uma mulher, tem clareza do que ele quer na vida, tem clareza do que eles representam e tem clareza que os seus algozes, os seus acusadores estão mentindo, eu tomei a decisão de ir lá para a Polícia Federal. 

Eu poderia ter ido a uma embaixada, eu poderia ter ido a um outro país, mas eu tomei a decisão de ir lá, porque eu preciso provar que o juiz [Sérgio] Moro não era juiz, era um canalha que estava me julgando. Eu precisava provar que o [Deltan] Dallagnol não representa o Ministério Público, que é uma instituição séria. O Dallagnol montou uma quadrilha com a força-tarefa da Lava Jato, inclusive para roubar dinheiro da Petrobras e das empreiteiras. E eu tinha certeza que os delegados que fizeram o inquérito contra mim mentiram em cada palavra que escreveram. 

E se eu tivesse saído do Brasil eu seria tratado como fugitivo. Eu resolvi ir pra pertinho deles, enfrentar as feras pra poder provar para a sociedade. 

Eu tenho mais uns dez processos, é uma mentira atrás da outra. Vocês viram que esses dias inventaram uma mentira e foram tentar prender a Dilma. Eu recebi naquele dia o Haddad e o Freixo. Eu recebi às 6 horas da manhã na minha cela dois caras da Polícia Federal pra me entregar uma intimação. E eu falei: mas eu já tô preso, poxa. Eu já tô preso. Por que vocês querem me entregar uma intimação às 6 horas da manhã? Por que não esperam as 8h? Mas quando eles foram às 6h na casa da Dilma, a Rede Globo já tava lá, desde as 5h30 da manhã. Porque é puro show. 

E eu queria dizer pra vocês, eu nasci na cidade de Garanhuns (PE), eu saí de lá com sete anos pra vir pra São Paulo. Eu fui criado por uma mãe e por um pai que nasceram e morreram analfabetos. Eu sempre disse, desde 1979, que a evolução política que eu tive era resultado da evolução política do povo trabalhador deste país. 

Na medida que os trabalhadores e o povo iam evoluindo, eu ia evoluindo. Então eu passei a ter uma coisa na minha vida, o único medo que eu tenho é de mentir para o povo trabalhador que tanto acreditou e que tanto me fez ser representante de vocês na história deste país. Eu devo tudo que eu tenho a essa mãe que vi nascer e morrer analfabeta, devo a esse povo do sindicato e a esse sindicato. 

Não sei se vocês sabem, esse prédio aqui, Freixo, já foi construído comigo na diretoria do sindicato. Aqui nesse prédio, pra quem não sabe, eu fui diretor de uma escola de uma dureza que tinha 1900 alunos. Você pensa que eu sou analfabeto? Eu fui diretor da escola desse sindicato aqui. 

E aqui nesse sindicato eu me formei politicamente. Aqui eu fiz um curso de ciências políticas, aqui eu fiz um curso de economia. Quando eu cheguei aqui, a primeira vez que anunciaram meu nome, e eu pensei que iam me dar o microfone, eu comecei tremer. Comecei tremer. Quando eu tomei posse, em 1975, quando me chamaram pra falar, eu não conseguia segurar o papel que eu tava lendo de tanto que eu tremia. E hoje eu tô tão à vontade, falando tanta bobagem na frente de vocês. 

Eu, quando saí daqui, tinha uma missão. Eu fiquei numa solitária, e durante 580 dias, eu me preparei espiritualmente. Eu me preparei pra não ter ódio, eu me preparei pra não ter sede de vingança. Eu me preparei para não odiar os meus algozes. E por que eu me preparei? Porque eu queria provar que, mesmo preso por eles, eu dormia com a minha consciência muito mais tranquila do que a consciência deles. 

Eu não sei se vocês perceberam, numa falha do discurso do Bolsonaro, ontem ou anteontem, ele chegou a confessar que devia as eleições ao Moro. Na verdade, ele deve ao Moro, ele deve aos juízes que me julgaram e ele deve à campanha de fake news, de mentira que fizeram contra o companheiro Fernando Haddad e contra as esquerdas neste país. 

[…]Gente, vamos ter paciência, porque eu fiquei 580 dias sem ter com quem falar, então eu agora quero falar, eu agora quero falar. Aliás, tem um livro fantástico de uma companheira boliviana, chamada Domitila, Se Me Deixam Falar. Era uma companheira mineira. E eu então comecei a ter em conta que nós deveríamos enfrentar essa situação. Eu disse pra vocês que eles iam prender um homem, mas as ideias que nós construímos coletivamente aqui, nessa região e nesse país, não poderiam ser presas. Elas iam continuar pairando pelo mundo inteiro. Cá estou eu, cá estou eu, livre como um passarinho. Livre. 

Toda noite, eu durmo com a consciência tranquila dos homens justos e honestos. E eu duvido, duvido que o Moro durma com a consciência tranquila que eu durmo. Eu duvido que o tal do Dallagnol durma com a consciência tranquila que eu durmo. Aliás, eu duvido que o 'seo' Bolsonaro durma com a consciência tranquila que eu durmo. Eu duvido que o ministro demolidor de sonhos, destruidor de emprego, destruidor de empresas públicas brasileiras, chamado Guedes, durma com a consciência tranquila que eu durmo. Eu eu quero dizer pra eles, eu estou de volta. Estou de volta, estou de volta, estou de volta.. eu estou brigando. 

Olha, deixa eu contar uma coisa pra vocês, por que eu fiquei muito feliz ontem? O Haddad foi me buscar lá. A Gleisi foi me buscar lá. E eu tava muito tranquilo, não tinha nem pressa de sair, eu fiz até amizade lá. Eu fiz até companheiros lá. Não vou dizer o nome pra eles não serem perseguidos. Mas por que eu queria voltar? 

Veja, eu li muitas coisas perguntando o seguinte: será o Lula vai sair com ódio de lá? Será que o Lula vai sair mais radicalizado de lá? Será que o Lula vai querer vingança? Não quero nada. Eu quero construir este país com a mesma alegria que nós construímos quando nós governamos este país. 

O meu sonho não é resolver os meus problemas. Eu hoje sou um cara que não tem emprego, presidente não tem aposentadoria, não tenho nem televisão no meu apartamento. Minha vida tá toda bloqueada. 

A única coisa que eu tenho certeza é que eu estou com mais coragem de lutar do que estava quando saí daqui. Lutar para tentar recuperar o orgulho da gente ser brasileiro, lutar para que as mulheres possam levar os seus filhos num supermercado e comprar o suficiente para eles comerem. Lutar para que o trabalhador possa ter um emprego com carteira assinada e leve para casa no final do mês o dinheiro para garantir a alimentação da sua família. 

Lutar para que o trabalhador possa ter o direito de ir a um cinema, de ir a um teatro, de ter um carro, de ter uma televisão, de ter um computador, de ter um celular, de ir num restaurante, e de poder, todo final de semana, reunir a família, fazer um churrasco, tomar uma cervejinha gelada, sabe? Que é, na verdade, o que deixa a gente feliz. 

Veja que eu não tô pedindo nem pra todo mundo ser corintiano, pode ser palmeirense, pode ser santista, pode ser são-paulino, pode ser flamenguista, pode ser qualquer coisa. Mas a única coisa que eu tô pedindo pra vocês é o seguinte: eu vejo todos os companheiros que estão aqui reclamar que tá difícil levar o povo pra rua. Tem gente que fala que precisa derrubar o Bolsonaro, tem gente que fala em impeachment. Veja, esse cidadão foi eleito. Democraticamente, nós aceitamos o resultado da eleição. Esse cara tem um mandato de quatro anos. Agora, ele foi eleito para governar para o povo brasileiro, e não para governar para os milicianos do Rio de Janeiro. 

Ele não pode fazer investigação do que eles fizeram pra matar a Marielle. Não é a gravação do filho dele que vale. É preciso que haja uma perícia séria, para que a gente saiba definitivamente quem foi que matou a nossa guerreira chamada Marielle. A grande vereadora do Rio de Janeiro, a grande companheira defensora das mulheres. Ele tem que explicar aonde é que está o Queiroz. Ele tem que explicar como é que ele construiu um patrimônio de 17 casas. 

Eu fui deputado, eu fui presidente, e se me virarem com a bunda pra baixo não vai cair uma moeda do meu bolso. Eu quero saber como é que esses caras juntam dinheiro. Eu quero que eles expliquem por que estão falando que não vão aumentar mais o salário mínimo durante dois anos. Eu quero que eles expliquem por que querem destruir a nossa Petrobras, o BNDES, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal. Sabe por quê? Se você pegar a vida dele, você vai perceber que enquanto eu, com 13 anos de idade, estava na fábrica de parafusos, Marte, na Vila Carioca, cortando ferro numa prensa, para depois ir pro Senai fazer um curso de torneiro mecânico… enquanto eu tava na Fris Moldu Car, na Vila Carioca, trabalhando, na Metalúrgica Independência, ele arrumou um jeito de não trabalhar. Ele foi fazer o serviço militar. E aí resolveu criar uma confusão quando já estava tenente, e se aposentou. Enquanto ele aumentou o tempo de aposentadoria para os trabalhadores, ele se aposentou muito jovem, e ainda teve uma promoção. 

Então, companheiros, este cidadão que nunca trabalhou, este cidadão que diz que não é político… eu até pedi pra Gleisi fazer um levantamento, pra saber quantos discursos o Bolsonaro fez contra o meu governo. Eu fui oito anos deputado. Ele nunca fez um discurso que prestasse. Ele só sabia ofender as mulheres, ofender os negros, ofender o povo LGBT, ofender as pessoas mais frágeis da sociedade. Então quero saber por que este cidadão que se aposentou muito jovem quis tirar a aposentadoria do povo trabalhador brasileiro. Por que que esse cidadão que nunca ganhou salário mínimo resolveu dizer que não vai aumentar mais o salário mínimo. Por que este cidadão resolveu acabar com a carteira profissional azul, criar uma verde-amarela, que vai ter empregos intermitentes. Os trabalhadores não vão ter registro em carteira. Eles tem que explicar por que eles estão apresentando um projeto econômico que vai empobrecer ainda mais a sociedade brasileira.

Quando eu fui preso, companheiro Haddad, eu imaginei que minha prisão iria permitir que eles recuperassem o Brasil. Anteontem eu vi os dados do IBGE. O povo ficou mais pobre. O povo tem menos saúde, o povo tem menos casa, o povo tem menos emprego. 

Mais de 40 milhões de pessoas, quase 50% da população, tá ganhando no máximo R$ 413 por mês. Seria importante que eles fizessem o que vocês fazem: pegar R$ 413 e comprar comida para sustentar a família durante o mês inteiro, pagar transporte para ir trabalhar. Então eu queria que ele pagasse água com esse dinheiro, luz com esses dinheiro. Eu queria que ele fosse ao médico, fosse comprar remédio. Então eu vou dizer uma coisa pra vocês: eu acho que não tem outro jeito. Não tem outro jeito. 

Eu, eu lembro quando eu levantava às 5h pra ir na porta de fábrica aqui, nos anos 80. Muitas vezes eu chegava na porta de fábrica, pegava o microfone, começava falar, e o povo não parava. Aí eu era obrigado a ficar nervoso para o povo parar. 

Eu quero dizer pra vocês, não tem ninguém, não tem ninguém que conserte esse país se vocês não quiserem consertar. Não adianta ficar com medo. Não adianta ficar com medo. Não adianta ficar preocupado com a as ameaças que eles fazem na televisão, que vai ter miliciano, que vai ter o AI-5 outra vez. A gente tem que ter a seguinte decisão: este país é de 210 milhões de habitantes, e a gente não pode permitir que os milicianos acabem com este país que nós construímos. Este país que era respeitado no mundo inteiro. Este país que era admirado no mundo inteiro. Este país que está sendo destruído. 

Ele foi sentar na Arábia Saudita com um príncipe, e ainda zombou das mulheres. "Eu tive com um príncipe, toda mulher gostaria de estar com um príncipe." Ele não esteve com um príncipe. A ONU já afirmou que aquele príncipe é o príncipe que mandou matar um jornalista na embaixada da Arábia Saudita em Istambul. Matou e esquartejou e fez carne moída do jornalista. Esse é o príncipe com quem ele foi conversar.

O que nós queremos, na verdade, é que esta gente saiba que este país é nosso. Eu não posso, aos 74 anos de idade, ver essa gente destruir o país que nós construímos. Eu não posso ver aumentar o número de gente dormindo na rua. Eu não posso ver aumentar o número de mulheres jovens vendendo o seu corpo a troco de um prato de comida. Eu não posso ver mais jovem de 14 e 15 anos assaltando e sendo violentado, assassinado pela polícia, às vezes inocente ou às vezes porque roubou um celular. 

Se as pessoas tiverem onde trabalhar, se as pessoas tiverem salário, se as pessoas tiverem onde estudar, se as pessoas tiverem acesso à cultura, a violência vai cair. E nós temos que dizer, contra a distribuição de armas de Bolsonaro, nós vamos distribuir livros, vamos distribuir emprego, vamos distribuir acesso à cultura. É esse país que nós queremos e sabemos como construir. É este país que a gente ver todo santo dia eles falarem que é preciso.

Olhe, vocês estão percebendo que a taxa de juros tá caindo. Todo dia ele fala "caiu a taxa de juros". Mas a taxa de juros que cai é a taxa Selic, que envolve o governo e a sua dívida pública. Eu quero saber se os juros do cartão de crédito de vocês caíram. Eu quero saber se os juros do cheque especial caíram. Eu quero saber se os juros das Casas Bahia caíram. Porque são esses juros que tocam diretamente no bolso do trabalhador. São esses juros que mexem com o salário do nosso povo. Porque a taxa Selic caiu, mas o spread bancário não caiu. Então, é preciso, companheiros, que a gente tome uma decisão. Eu, eu tô disposto a voltar a andar por este país. Eu tô disposto, junto com Haddad, com Freixo e com a Luciana, do PCdoB, com a Benedita, com a Gleisi, com dirigentes sindicais, a percorrer esse país. Tô disposto a percorrer esse país com os dirigentes sindicais, porque não é possível que a gente viva nesse país vendo cada dia mais os ricos ficarem mais ricos, e os pobres ficarem mais pobres.

Essa semana eu peguei uma revista chamada Revista Forbes, que eu vi o Eduardo Moreira fazer um programa no canal do YouTube dele, falando dos 200 mais ricos do Brasil. Duzentas pessoas no Brasil têm mais dinheiro do que 100 milhões de pessoas. E essa gente, por incrível que pareça, não mora no Brasil. Essa gente, por incrível que pareça, está tentando investir em algumas pessoas no Brasil, pra criar uma nova classe dirigente, financiada pelo dono da Ambev, financiada pela XP, financiada pelo Banco Itaú, financiada pelo Bradesco, financiada pelo Santander.

Nós não temos nada contra essa gente. O que nós queremos é gente formada no meio do povo brasileiro. Gente que conheça como é que mora o pessoal numa palafita, como é que mora o pessoal numa favela, como é que o mora o pessoal nos bairros mais empobrecidos deste país. E aí, quando a gente tiver esse governante, a gente vai poder consertar o país. Deixa eu dizer uma coisa pra vocês, dizer uma coisa pra vocês para terminar, porque senão vocês vão dizer: prenda o Lula outra vez, que ele tá falando demais.

Eu quero dizer a todos os companheiros que estão aqui, quero agradecer do fundo do coração, a solidariedade do PSOL, companheiro Freixo, companheiro Boulos. Quero agradecer a solidariedade do Partido Comunista do Brasil através da companheira Luciana. Quero a agradecer à UNE e à UJS que estão aqui e à Ubes.

Quero agradecer não à presidenta Gleisi apenas, mas à bancada de deputados, de senadores do PT que estão aqui. Quero agradecer aos senadores que estão aqui. Quero agradecer aos sindicalistas que estão aqui. E quero dizer pra vocês uma coisa, gente: nós só iremos salvar este país se a gente tiver coragem de fazer um pouco mais.

Nós estamos vendo o que está acontecendo no Chile. O Chile é o modelo de país que o Guedes quer construir. A aposentadoria que o Guedes fez aqui é a que tem no Chile, que está fazendo com que pessoas velhas morram porque não têm salário. É por isso que no Chile o povo está na rua. Já tem vinte jovens cegos que perderam o olho. Já prenderam mais de 1.070 pessoas, e o povo tá indo na rua, porque o governo que é eleito não é eleito pra destruir, é eleito pra governar.

Vocês viram na Argentina que o companheiro Alberto Fernandez e a Cristina deram uma surra no Macri, e ganharam as eleições. Vocês viram o que tá acontecendo na Bolívia. O companheiro Evo Morales ganhou o quarto mandato. O Evo Morales é o companheiro que fez o melhor governo na Bolívia, desde que a Bolívia foi criada. A Bolívia tá crescendo 5% ao ano. O Evo Morales criou políticas sociais para cuidar das mulheres. Ele foi eleito, mas a direita, como fizeram aqui, não quer aceitar o resultado. Vocês viram o que o Aécio fez quando a Dilma Rousseff ganhou do Aécio.

Então, nós temos que ser solidários à Bolívia. Nós temos que ser solidários ao povo do Chile. Nós temos que ser solidários ao povo da Argentina. Nós temos que pedir a Deus para que o companheiro Daniel ganhe as eleições no Uruguai, pra não voltar o neoliberalismo lá. E nós temos que ser solidários ao povo da Venezuela.

Veja, é normal que cada um de nós aqui possa ter crítica a qualquer governo do mundo. Agora quem decide o problema do país é o povo do seu país. E que o Trump resolva o problema dos americanos, e não encha o saco dos latino-americanos como ele tá enchendo. Ele não foi eleito para ser xerife do mundo, ele que governe os americanos. Ele que cuide da pobreza lá. Mas eles, que festejaram a queda do muro de Berlim em 90, estão construindo um muro contra os pobres. É um muro para não deixar pobre entrar nos Estados Unidos. E nós não podemos aceitar isso. Nós não devemos aceitar isso.

Eu, Freixo, ficava com uma pena porque durante todo debate na televisão não se leva mais ninguém de esquerda. Agora é só gente que pensa a mesma coisa. Eu, na cadeia, fui obrigado a ver televisão aberta. A TV do Sílvio Santos é um vergonha. A Record tá um vergonha, e a Globo continua a mesma vergonha. A Globo até agora não colocou uma matéria do Intercept, denunciando a Lava Jato. A única matéria que ela fez foi pra defender o Faustão, que foi dar aula para o Moro.

E eu, companheiros, quero que vocês saibam o seguinte: eu quero fazer um pronunciamento ao povo brasileiro dentro de uns 20 dias. Eu quero pensar, vou escrever, rabiscar, porque eu quero fazer um pronunciamento. Eu não queria fazer hoje. Porque como eu saí de lá, qualquer coisa que eu falar mais dura vão dizer que eu to com raiva, que eu to com ódio.

E eu quero dizer pra vocês, que aos 74 anos de idade, eu não tenho o direito de ter ódio em meu coração. Eu, na verdade, não sabia que ia me apaixonar aos 74 anos de idade. Então agora que eu to com 74 anos de idade, energia de 30 e tesão de mais ou menos 20 anos, eu não tenho, não tenho por que ficar nervoso. Eu tô de bem com a vida, e vou lutar nesse país. Eu só quero que vocês saibam, a única coisa que me motiva nesse país é que nós já provamos que é possível governar para o povo mais necessitado. Nós provamos que é possível colocar o pobre na universidade. Nós provamos que é possível colocar o povo nas escolas técnicas. Nós provamos que é possível melhorar o ensino fundamental. Nós provamos que em 12 anos geramos 22 milhões de empregos com carteira profissional assinada.

Eu tenho certeza, Haddad, que se a gente tivesse no governo, a Ford não teria fechado. Os metalúrgicos sabem que no nosso mandato criamos praticamente, só na área metalúrgica, mais de um milhão de empregos nesse país. Então, companheiros, eu lamento.

Olha, quero terminar agradecendo a presença de vocês. Eu espero que a Globo filme, espero que tire fotografia. Cadê o companheiro Zanin? Vem cá! Eu queria uma salva pros meus advogados, a Valeska e o Cristiano.

Olha, nós ainda não ganhamos nada, porque o que nós queremos agora é que seja julgado um habeas corpus que nós demos entrada no Supremo Tribunal Federal, anulando todos os processos feitos contra mim. Porque agora já existem argumentos suficientes pra provar, e falo isso sem nenhum rancor, o Moro é mentiroso. O Dallagnol é mentiroso. Não é por causa do Intercept, é por causa do que eles escreveram na minha defesa. Tudo que o Intercept tá falando agora já tá escrito na minha defesa há quatro anos atrás. E só tem uma explicação para que eles façam esse processo, foi pra me tirar da disputa eleitoral.

O que ele não sabe, gente, é que um povo como vocês não depende de uma pessoa. Vocês dependem do coletivo. Cassaram o Lula, e o Haddad quase é eleito presidente da República, se não tivessem mentido. E eu tenho certeza que se a gente tiver juízo e se a gente souber trabalhar direitinho, em 2022 a chamada esquerda que o Bolsonaro tem tanto medo vai derrotar a ultra direita que nós tanto queremos derrotar.

Esse país não merece o governo que tem. Esse país não merece um governo que manda os filhos contarem mentira todo dia através de fake news [ei, Bolsonaro, vai tomar no c*] não, não, não, vocês sabem… eu não gosto disso. Sabe por quê? Eu não gosto disso porque isso não pode ser falado por nós. Eu queria pedir pra vocês… eu sou um cara traumatizado porque eu fui educado por uma mulher analfabeta, mas eu duvido que um filho da minha mãe falasse um palavrão como eles falaram pra Dilma na abertura da Copa do Mundo em 2014. Eu nunca imaginei. Então a gente não tem que falar palavrão pro Bolsonaro, não. Ele já é o palavrão. Não tem que falar. A gente não tem que falar porque, sabe, a gente não pode fazer o jogo rasteiro, as piadas, as brincadeiras, as hienas, os leões, aquele leão que ele apresentou, aquele leão velho, todo escarafunchado. Tem que ser um leão novo, assim como eu. Tá certo que a juba tá um pouco derrubada. Mas olhe, nós não temos que brigar com eles e ficar xingando eles, não. O que nós temos é que olhar e dizer em alto e bom som: nós não vamos permitir que eles destruam o nosso país. É isso que nós temos que dizer.

A partir de alguns dias, eu quero que vocês saibam que Freixo, que Boulos, que Haddad, que Gleisi, que o PCdoB, que o movimento sindical, que a CUT, que a Força Sindical, que a gente esteja na rua e, sobretudo, sobretudo, a juventude. Olhe, a juventude ou briga agora ou o futuro será pesadelo.

Olhe, nós vamos fazer muita luta. E luta não é ir um dia e depois passar três meses e voltar. Luta é todo dia. É todo dia. É todo dia. Então quero que vocês saibam o seguinte, esse jovem, de tesão de 20, de energia de 30 e de experiência de 70, estará na rua junto com vocês. Pra gente não deixar destruir o nosso país.

Gente, eu agora vou descer, estão pedindo pra eu descer e passar aqui no meio. Gente, olhe, deixa eu dizer uma coisa pra vocês, eu, na verdade, gostaria de dar um beijo, um abraço em cada um de vocês. Não é possível. Vocês percebem que não é possível. Mas, olhe, eu, a partir da semana que vem, estarei arrumando a minha vida. Não sei qual é a confusão que eles vão criar, mas eu quero que eles saibam o seguinte, eles não sabem o tesão que eu tô pra brigar por esses país. Eles não sabem.

E o Haddad se prepare pra andar comigo, a Gleisi se prepare, e veja, os nossos deputados vão ter que virar leões naquele Congresso pra não deixar aprovar as safadezas que eles querem aprovar contra o povo trabalhador. É uma questão de honra a gente recuperar esse país. A gente tem que seguir o exemplo do povo do Chile, do povo da Bolívia, a gente tem que resistir. Não é resistir, na verdade é lutar, é atacar e não apenas se defender. A gente tá muito, tá muito, tá muito tranquilo.

Então, gente, olha, eu quero, do fundo do coração, agradecer cada um de vocês. Agradecer e dizer pra vocês, pode contar comigo, porque a única coisa que eu não vou fazer na vida é trair a confiança que vocês têm em mim há tantos e tantos anos. Um beijo, gente, um abraço, que Deus abençoe vocês. E até o próximo encontro.

Edição: Geisa Marques e Rodrigo Chagas